João Pessoa 20/11/2018

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122 políticos foram assassinados durante campanha eleitoral no México

Image captionCena de crime em Ciudad Juárez, em 23 de junho; violência política cresceu muito além da própria violência cotidiana

“Abandone a candidatura ou morra”, dizia a voz no telefonema anônimo recebido por Magda Rubio, candidata a prefeita de Guachochi, uma cidade pequena no norte do México, na rota do narcotráfico.

Depois, viriam ao menos outras três ligações ameaçadoras, que a fizeram contratar dois guarda-costas para acompanhá-la nas 24 horas do dia, conforme contou Rubio à agência Reuters em abril.

Naquele mesmo mês, outro candidato a prefeito, Mario Alberto Chávez, que disputa a corrida eleitoral na cidade de Zumpango, estava jantando em um restaurante quando um atirador abriu fogo contra sua mesa.

Ele ficou ferido mas sobreviveu, assim como três assessores seus.

Concorrer às eleições mexicanas deste 1º de julho é “praticamente uma sentença de morte”, declarou Chávez.

Mas, se Rubio e Chávez sobreviveram às ameaças para concorrer, o mesmo não aconteceu com ao menos outros 122 políticos assassinados durante a jornada eleitoral mexicana, que tem em disputa mais de 18 mil cargos – desde a Presidência da República até administrações locais.

Trata-se da mais sangrenta campanha eleitoral da história recente do país, segundo a consultoria de riscos Etellekt, responsável pelo levantamento do número de assassinatos.

Magda Rubio
Image captionCandidata Magda Rubio foi ameaçada ao se lançar candidata

A consultoria identificou também, nesse período, o homicídio de 351 servidores de cargos não eletivos, 307 deles das forças de segurança.

A situação “antecipa um sério desafio de segurança para a paz e a governabilidade democrática nas regiões com maior presença de organizações criminosas e notória debilidade institucional”, diz o relatório da Etellekt.

Violência para além do narcotráfico

A violência em geral cresceu no México, que vive há anos uma guerra com o narcotráfico. O país contabilizou um recorde de 25,3 mil homicídios no ano passado, segundo a agência AFP (ainda em nível muito abaixo do Brasil, que registrou 62,5 mil mortes em 2016, dado mais recente disponibilizado pelo Atlas da Violência).

Mas, segundo a Etellekt, a violência política atual mexicana tem raízes profundas e complexas, indo além do enfrentamento com narcotraficantes.

“Enquanto a violência normal cresceu 13% no último ano, a violência política cresceu 2400% (em relação à campanha eleitoral anterior)”, diz à BBC News Brasil Rubén Salazar, diretor da consultoria.

Por trás disso, segundo Salazar, há desde governantes da situação ameaçando candidatos de oposição até políticos que, por serem ligados a máfias locais, retaliam com a morte os candidatos que ameaçarem mudar o status quo.

E há, também, os cartéis de drogas que acabam por determinar quem pode ou não concorrer ao pleito – alvejando os que fizerem campanha prometendo combater o tráfico.

Seguranças em comício de candidato no México
Image captionSeguranças em comício de candidato no México; analista diz que por trás da violência há máfias locais que se beneficiam do status quo e não querem alternância de poder

“O cenário revela que está se consolidando um autoritarismo em nível regional, no qual a democracia está perdendo vigência e sendo substituída por balas”, opina Salazar.

“O México enfrentou um problema inédito de segurança na última década, e hoje estamos tendo a maior eleição de nossa história”, afirmou à imprensa Lorenzo Córdova, chefe do Instituto Eleitoral mexicano. “Se o contexto de violência transbordou para a política? A resposta é sim, gravemente.”

Eleições históricas

Diferentes fatores fizeram desta uma eleição excepcional na história mexicana. É o maior pleito da história recente do país, em que serão renovados ao mesmo tempo 18,3 mil postos públicos, entre presidente, governadores, prefeitos, conselheiros locais, senadores e deputados estaduais e federais.

É também a primeira eleição desde a posse de Donald Trump nos EUA, que endureceu a política migratória com o vizinho do sul e prometeu construir um muro na fronteira, além de renegociar o Nafta, o acordo comercial da América do Norte.

Durante a campanha, em 2015, Trump chegou a dizer que o México enviava “drogas e estupradores” aos EUA.

Agora, na campanha mexicana, a liderança é do esquerdista Andrés Manuel López Obrador, crítico tanto à política de Trump quanto à política de segurança mexicana.

López Obrador em campanha
Image captionLópez Obrador lidera campanha com críticas a Trump e à política de segurança

Ex-prefeito da Cidade do México, López Obrador lidera as pesquisas de opinião, divulgadas no meio da semana, com cerca de 45% das intenções de voto, contra 19% de seu rival mais próximo, Ricardo Anaya, que encabeça uma coalizão de centro. O candidato governista, José Antonio Meade, está em terceiro.

As eleições mexicanas não têm segundo turno, então vence quem tiver a maior quantidade de votos. López Obrador, que já liderou antes e perdeu, agora se vê mais perto da Presidência, liderando com promessas de combate à violência e à impunidade e apoiado sobretudo por novos eleitores jovens e universitários, profissionais liberais, pequenos empresários e trabalhadores rurais.

Retrocesso na segurança

A crise de segurança que ameaça os candidatos à eleição é um dos fatores que fazem com que o atual presidente, Enrique Peña Nieto, do Partido Revolucionário Institucional (PRI), tenha aprovação de apenas 20% em seus últimos meses de governo.

Depois de passar o primeiro ano de seu governo aprovando amplas reformas – nos setores de óleo e gás, telecomunicações e educação -, Peña Nieto viu sua administração envolvida em escândalos de corrupção e na deterioração da segurança pública.

Um dos pontos mais graves dessa deterioração ocorreu em 2014, quando 43 estudantes mexicanos desapareceram no Estado de Guerrero, após enfrentamentos com a polícia, em circunstâncias nunca plenamente esclarecidas. Autoridades mexicanas afirmam que os estudantes foram entregues por policiais corruptos a narcotraficantes, que os mataram e queimaram seus corpos.

Gráfico de homicídios no México

“Os mexicanos dificilmente concordam entre si, mas há um raro consenso de que a política de segurança de Peña Nieto fracassou”, disse à AFP o analista político Sergio Aguayo, do Colegio de México.

Para Salazar, os escândalos de corrupção fizeram Peña Nieto perder seu capital político e, por consequência, a capacidade de interlocução com as autoridades estaduais no combate à violência.

E daí vieram as ondas de assassinatos políticos.

Em abril, por exemplo, o prefeito de Jilotlan de los Dolores, Juan Carlos Andrade Magana, que disputava a reeleição, foi morto a tiros dentro de seu carro.

Em junho, Fernando Puron Johnston, candidato a deputado no Estado de Coahuila, foi assassinado ao sair de um debate político, no qual havia prometido combater o cartel dos Zetas.

E, neste mês, 30 policiais da cidade de Ocampo foram detidos sob suspeita de terem participado da morte do candidato a prefeito Fernando Ángeles Juárez.

As vítimas são de diferentes partidos, e a maioria concorria a cargos em cidades pequenas, longe dos holofotes nacionais, explica a Reuters. Poucos casos foram resolvidos pela polícia.

O caixão de Fernando Ángeles Juárez sendo carregado por parentez no México
Image captionO empresário Ángeles Juárez era candidato a prefeito de Ocampo e foi o terceiro político assassinado na cidade em 8 dias

Também foram assassinados ao menos 50 parentes de políticos.

Acuados, centenas de candidatos anunciaram sua desistência das campanhas eleitorais.

De um lado, avalia Salazar, a violência tem impulsionado o anseio dos mexicanos por mudança, o que pode levar a um alto comparecimento às urnas.

De outro, porém, o clima de terror ameaça a própria democracia – e não deve acabar quando as urnas forem fechadas.

“Há ao menos sete Estados de alto risco, em que situações de violência podem até mesmo interferir no pleito, por exemplo por roubo de urnas, mortes ou compra de votos”, diz o analista.

“E é possível que os atentados continuem após as eleições, contra os candidatos eleitos, antes mesmo que eles tomem posse.”

BBC Brasil