João Pessoa 23/06/2018 11:45Hs

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Anotações em celular de Marcelo Odebrecht apreendido pela PF mostram preocupação com Lava-Jato.

Análise de dados armazenados em telefone de empreiteiro dá sinais de que ele orientou subordinados a defenderem empresa.

marcelo odebrertchOs presidentes da Odebrecht, Marcelo Odebrecht (de casaco azul), e da Andrade Gutierrez, Otavio Azevedo (de casado bege), deixam o IML – Geraldo Bubniak / Agência O Glob
 

SÃO PAULO – A análise de dados armazenados em um iPhone de Marcelo Odebrecht, apreendido pela Polícia Federal (PF) na casa do executivo em 19 de junho, mostra a preocupação do presidente da Odebrecht S.A. com as investigações da Operação Lava-Jato, dá sinais de como ele orientou seus subordinados a fazerem a defesa da construtora e expõe a relação do executivo com dezenas de políticos. As informações do relatório, concluído no último dia 18, foram utilizados pela PF como base para indiciar Marcelo e outras sete pessoas nesta segunda-feira.

Os agentes federais encontraram uma série de anotações feitas pelo executivo no seu telefone pessoal. Em um tópico sem data com o título “Delação/fallback (RA)”, ele lista argumentos que foram interpretados pela PF como uma possível defesa da empreiteira. Fallback é uma expressão em inglês para designar um “plano B”, uma escolha para quando a primeira opção não está disponível. Os investigadores deduziram que a sigla RA faz referência a Rogério Araújo, executivo da Odebrecht que também foi preso na Operação Lava-Jato.

Abaixo do título, ele escreve: “livrar todos e soh eu”; “era amigo e orientado por eles pagou-se Feira de cta que eles mandaram”. Segundo os agentes federais, a palavra “feira” é utilizada por Marcelo para se referir a pagamentos irregulares. “Cta” seria uma abreviação da palavra contas. Na sequência, o texto fala sobre caixa dois: “ODB pagava campanha a priori, mas eh certo que aceitava algumas indicações a título de bom relacionamento. Campanha incluindo caixa 2 se houver era soh com MO, que que não aceitava vinculacao. PRC soh se foi rebate de cx2” .

PRC, na interpretação dos agentes federais, seria o ex-diretor de Abastecimento da Petrobras Paulo Roberto Costa. Em depoimento à PF em setembro do ano passado, Paulo Roberto disse que recebeu R$ 31,5 milhões da Odebrecht em contas mantidas no exterior.

A palavra “swiss” aparece com frequência nas anotações do celular de Marcelo, numa referência à Suíça. Abaixo do tópico “fallback”, Marcelo escreveu: “Afinal o que tem contra RA e MF? Risco Swiss? E EUA?” Para os investigadores, as siglas se referem a uma dúvida sobre quais provas a PF tem contra Rogério Araújo e Márcio Faria, outro executivo da empreiteira que foi preso. A expressão “Risco Suíça” seria uma forma de mostrar preocupação com a movimentação de contas bancárias mantidas no exterior pelos executivos.

Na sequência, há uma frase considerada “enigmática” pelos agentes federais: “FP: – ela cai eu caio”. A PF cruzou a sigla com todos os nomes de mulheres que encontraram na agenda do dono da Odebrecht. Encontraram uma pessoa que teve sua identidade mantida em sigilo, mas não descobriram ainda o que a anotação quer dizer.

PROTEGER EXECUTIVOS

Ainda em relação a Rogério e Márcio, as anotações de Marcelo dizem para “não movimentar nada e reimbolsaremos tudo e asseguraremos a familia. Vamos segurar até o fim Higienizar apetrechos MF e RA. Vazar doação campanha. Nova nota minha midia?” Os agentes federais interpretaram a frase como “clara intenção de Marcelo em proteger” os executivos. Eles consideraram “higienizar” como uma menção a tirar informações de equipamentos dos dois funcionários da empresa.

Em outro grupo de anotações Marcelo pergunta se deve se expor e revela sua preocupação com a prisão: “tatica Noboa de eu me expor? Nosso risco eh a prisao”. Também chamou a atenção dos agentes federais uma citação, também sem data, que diz “trabalhar para para/anular (dissidentes PF)”. Os agentes escreveram, em seu relatório, que Marcelo teria a intenção de usar os “dissidentes” para de alguma forma atrapalhar o andamento das investigações. Não foi possível esclarecer a que se referia a tática “Noboa”.

As anotações fazem referência, também, a supostos pagamentos. Em um dos tópicos, de janeiro de 2013, antes, portanto, do início da Operação Lava-Jato, Marcelo escreveu “créditos – BMX: Vacareza e Zaratini: 3% (aprox 27M), sendo 3 deles mais 1 GM até outubro. Depois 21M p/GM e 2 para (V+Z).”, numa referência, afirma a PF, a Cândido Vaccareza e Carlos Zaratini, ambos deputados do PT. BMX foi identificado pela polícia como um empreendimento comercial na Marginal do Pinheiros. O relatório da PF não deixa claro se esses valores seriam alguma referência a pagamento de propina.

COMENTÁRIO SOBRE DILMA E FAMÍLIA

A anotação mais recente do celular de Marcelo é de 25 de maio e cita a presidente Dilma Rousseff. Ao responder a um diretor que perguntou se deveria oferecer à presidente uma visita às obras feitas pela Odebrecht no México durante a visita dela àquele país, Marcelo escreve que o convite deve ser feito por “educação”, embora seja improvável que Dilma aceite: “porque ela ja chega nos lugares querendo sair, e não gosta de fazer nada que já não seja obrigada.”

Marcelo mantinha, com a mulher e a filha, um grupo de Whatsapp chamado “os trapos”, em que a Lava-Jato também é citada. A filha lembra que haverá uma palestra em 4 de maio sobre Lava-Jato e Petrobras. A mãe responde com a hashtag “#nadaatemer”.

No relatório encaminhado ao Ministério Público Federal (MPF) nesta segunda-feira, o delegado Eduardo Mauat da Silva deu seus motivos para o indiciamento de Marcelo, ao escrever que “o material trazido aos autos aponta para o seu conhecimento e participação direta nas condutas atribuídas aos demais investigados, tendo buscado, segundo se depreende, obstaculizar as investigações”.

Em nota enviada à imprensa, a Odebrecht informa que “o relatório da Polícia Federal traz novamente interpretações distorcidas, descontextualizadas e sem nenhuma lógica temporal de suas anotações pessoais. A mais grave é a tentativa de atribuir a Marcelo Odebrecht a responsabilidade pelos ilícitos gravíssimos que estão sendo apurados e envolveriam a cúpula da Polícia Federal do Paraná, como a questão da instalação de escutas em celas dentre outras.”