João Pessoa 21/06/2018 12:08Hs

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No cardápio de acusados da Petrobras, batatas, badejo e propina

Duque e Barusco se reuniam com executivos de empreiteiras em restaurantes do Rio

badejoRIO – O pedido não costumava variar: filé de badejo ou linguado com legumes e purê de batata-baroa com brócolis, o carro-chefe do restaurante Alcaparra, na Praia do Flamengo, Zona Sul do Rio, degustado por salgados R$ 74. As reuniões informais organizadas pelo ex-diretor de Serviços da Petrobras Renato Duque e pelo ex-gerente executivo de Engenharia da estatal Pedro Barusco, com executivos de empreiteiras que prestavam serviços à Petrobras, costumavam ocorrer numa mesa redonda com vista para a praia, um dos pontos mais reservados do restaurante, apesar do sol que ilumina a parte de trás do salão branco.

Era entre garfadas de peixe fresco e goles de vinho tinto, chileno ou argentino — a média de preço de uma garrafa no Alcaparra fica na faixa de R$ 120 — que os ex-funcionários da estatal, acusados de acertar o “fluxo de pagamentos” de propinas de pelo menos três obras em curso, reuniam-se. A revelação sobre os encontros foi feita pelo executivo Júlio Camargo, da Toyo Setal, apontado pelo doleiro Alberto Youssef como o contato da empresa para participação no esquema de corrupção da Petrobras. Além de Duque e Barusco, Camargo e o executivo Augusto Ribeiro Mendonça Neto — também da Toyo Setal, e que negociou acordo de delação premiada na Operação Lava-Jato — eram figuras igualmente conhecidas no círculo gastronômico da elite carioca.

As fotos de Júlio Camargo foram reconhecidas por garçons do Alcaparra e do Esch Café do Centro da cidade. No tradicional bar de charutos, onde o preço de um prato orbita entre R$ 65 e R$ 90, e uma garrafa de tinto de qualidade mediana fica em R$ 150 — há garrafas que chegam a R$ 500 —, um funcionário recorda que o empresário esteve lá na hora do almoço “há, no máximo, dois meses”.

Três empresas em nome de Camargo — Treviso, Piemonte e Auguri — fizeram depósitos em contas de empresas de fachada usadas pelo doleiro Youssef. Elas também teriam sido usadas para esquentar dinheiro, ou seja, justificar valores que o doleiro aplicava em negócios dos setores imobiliário e hoteleiro. Para isso, eram utilizados contratos de mútuo, uma modalidade de empréstimo entre empresas no qual não é cobrado juro e a contrapartida é apenas o pagamento em data determinada.

A Toyo tem contrato de R$ 1,1 bilhão com a Petrobras no projeto do Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj) e de R$ 2,09 bilhões na montagem de uma unidade de fertilizantes em Uberaba, no Triângulo Mineiro. Outra empresa do grupo, a EBR Estaleiros do Brasil, participa da obra da plataforma P-74, e seu estaleiro deve ser feito no Rio Grande do Sul com recursos do Fundo da Marinha Mercante.

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Suspeito de receber pelo menos US$ 100 milhões em propina à frente do setor de Engenharia da Petrobras, Pedro Barusco teve sua foto fitada por funcionários dos dois restaurantes com a alegria destinada a um cliente assíduo.

— Lembro principalmente dele — contou um garçom do Alcaparra, abrindo um sorriso e apontando para a foto de Barusco: — Ele é desses simpáticos, que conversam — continuou, reconhecendo também os outros três envolvidos.

Como O GLOBO revelou, Barusco desfrutava de regalias bancadas com dinheiro da Petrobras, como viagens de primeira classe durante incursões para representar a estatal no exterior.

O Globo