João Pessoa 22/06/2018 05:28Hs

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Dirigentes sindicais se eternizam no poder

Dados do Ministério do Trabalho mostram que 8,5 mil dirigentes estão há mais de dez anos à frente de organizações

sindicatoEm 1990, Collor substituiu Sarney como presidente, trocando o Cruzado Novo pelo Cruzeiro e fazendo o confisco da poupança. A música mais tocada era “Evidências”, de Chitãozinho & Xororó, enquanto “Tieta” e “Rainha da Sucata” brilhavam na TV. No esporte: o Brasil sequer era tetracampeão do mundo e Neymar ainda nem tinha nascido. Em 1990, Alfredo Sampaio assumia a presidência do Sindicato dos Atletas de Futebol do Estado do Rio de Janeiro (Saferj). Onde está até hoje.

Mais que um caso isolado, a situação de Alfredo é um dos retratos dos problemas que assolam o sindicalismo no país, tema da série de reportagens que O GLOBO inicia hoje, mostrando que as entidades criadas para a defesa de interesses coletivos dos trabalhadores muitas vezes têm sido usadas para objetivos particulares.

Dados do Ministério do Trabalho apontam que havia, em 2014, ao menos 8.518 sindicalistas, incluindo cargos de presidente e diretores em geral, com mais de dez anos de mandato — no Poder Executivo só podem ficar oito anos no cargo. O número pode ser maior, pois falta transparência e uma série de entidades não fornece seus dados. Mais de 25 anos após a Constituição ter avançado para garantir a liberdade sindical, fundamental para lutas e conquistas dos trabalhadores, lacunas como a falta de transparência, fiscalização frouxa e a pouca representatividade deixam um caminho aberto para os abusos. Algumas centrais sindicais já reconhecem que é necessário pensar em novas normas. O próprio Supremo Tribunal Federal (STF) indica que as entidades não tem salvo-conduto e precisam ser fiscalizadas.

O sindicato dos atletas esbarra em outros problemas: falta de representatividade (Alfredo Sampaio é técnico e não atleta); nepotismo (seu filho é o diretor da academia da Saferj), e conflito de interesses (ele tem uma empresa de marketing esportivo).

Há casos também de enriquecimento ilícito e desvios de sindicatos, que muitas vezes são verdadeiras máquinas de ganhar dinheiro. Isso num universo de 10.620 entidades por onde, no ano passado, circularam R$ 3,18 bilhões apenas de Contribuição Sindical — o chamado Imposto Sindical — obtida com um dia de salário de todos os trabalhadores com carteira assinada.

“SÓ 30% DOS SINDICATOS SÃO SÉRIOS”

— Infelizmente, apenas uns 30% das entidades sindicais são sérias, e as demais têm uma série de problemas. Defendem melhorias, mas fazem coisas erradas. São contraditórias, incoerentes — afirma Marco Ribeiro, coordenador-geral do Sindicato dos Trabalhadores em Entidades Sindicais de Niterói e São Gonçalo (Sintesnit), cuja própria existência reforça os problemas do setor sindical.

Recentemente, o setor esteve na berlinda com o caso do Sindicato dos Comerciários do Rio, controlado por mais de 50 anos pela família Mata Roma, que, após denúncias de desvios e nepotismo, deixou a entidade sob intervenção.

Os sindicalistas se defendem. Muitas vezes, é fato, nada fazem de ilegal — não há limites para os mandatos, por exemplo. Em outros casos, os problemas convivem com lutas trabalhistas legítimas. Alfredo Sampaio, por exemplo, alega que o órgão precisa ser presidido por um ex-atleta pois um jogador tem treinos e viagens, “além do desgaste do embate com os dirigentes”. Ele salienta que estão no conselho fiscal atletas em atividade como Jefferson e Léo Moura. Ele conta que a academia do sindicato, dirigida pelo filho, tem 1.150 alunos. Sampaio afirma que “preenche todos requisitos necessários para o cargo”. E nega que se perpetue no poder:

— No ano passado, quando quis sair da presidência, para definitivamente me aprofundar na carreira de treinador, meus companheiros me convenceram a permanecer num último mandato. Vamos fazer um CT (centro de treinamento), um projeto definitivo para a categoria.

O Globo