João Pessoa 26/05/2018 12:10Hs

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Mesadas de até R$ 500 mil eram pagas em dinheiro

Integrantes da cúpula do PP recebiam entre R$ 250 mil e R$ 300 mil por mês, segundo delação

Mario-NegromonteBRASÍLIA – O inquérito que narra a disputa por propinas dentro do PP é o maior entre os 23 abertos na noite de sexta-feira pelo ministro Teori Zavascki, relator dos autos da Operação Lava-Jato no Supremo Tribunal Federal (STF). São, ao todo, 39 investigados, dos quais 32 são parlamentares e ex-parlamentares do PP. E os trechos das delações premiadas usados para embasar o pedido de abertura do inquérito revelam como funcionava o suposto pagamento de propina aos políticos. Segundo o doleiro Alberto Youssef, o dinheiro desviado de contratos da Petrobras para o pagamento de mesada a parlamentares era transportado em espécie e colado ao próprio corpo de operadores quando o valor não ultrapassava R$ 500 mil. O próprio doleiro teria adotado essa prática. Para montantes maiores, o dinheiro era levado em aeronaves fretadas.

Integrantes da cúpula do partido, conforme as delações, recebiam entre R$ 250 mil e R$ 300 mil por mês. Os outros parlamentares, entre R$ 30 mil e R$ 150 mil. Havia casos de pagamentos quinzenais e até semanais. Repasses extras ocorriam na escolha do líder da legenda, todos os anos, para que o grupo interno que operava o esquema fosse escolhido para comandar a sigla. Outro relato dos delatores aponta que a defesa jurídica de parlamentares pepistas foi paga com dinheiro desviado da Petrobras.

O ex-ministro das Cidades Mário Negromonte recebeu dinheiro em casa, segundo Youssef. Além disso, quando era ministro, teve os custos de uma aeronave bancados por dinheiro do esquema, como consta no depoimento.

Um dos deputados citados recebeu repasses no valor de R$ 150 mil para custear vacina para o tratamento de hepatite C, conforme o depoimento do doleiro. Parlamentares do PP organizaram uma homenagem a Paulo Roberto Costa, quando ele estava no exercício da diretoria de Abastecimento da Petrobras. Costa era uma indicação do partido, e os contratos de sua área foram a fonte para a propina distribuída aos políticos, conforme as investigações. Na homenagem, o diretor foi presenteado com um relógio de marca Rolex, conforme relato de Costa na delação premiada.

O procurador-geral da República, Rodrigo Janot, apontou no pedido de inquérito uma “simbiose entre os grupos de políticos que comandavam o esquema ilícito implantado nas diretorias da Petrobras”. Foi por essa razão que o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), e mais três expoentes do partido acabaram avocados para esse inquérito. A bancada do PMDB no Senado — mais especificamente Renan, Edison Lobão (MA), Romero Jucá (RR) e Valdir Raupp (RO) — movimentou-se para manter Costa na diretoria de Abastecimento.

Inquérito mais demorado

O diretor era da cota do PP e, depois de ficar doente, correu risco de perder o cargo, segundo os depoimentos reproduzidos na petição de Janot. Foi quando a bancada do Senado se movimentou para bancá-lo no cargo, em troca da entrada do PMDB no esquema de propinas, por meio do operador Fernando Baiano, conforme os depoimentos. As conversas com o diretor teriam ocorrido nas casas e nos gabinetes de Renan e Jucá em Brasília, ocasião em que se mencionou a troca do apoio a Costa por “apoio ao partido”, segundo as delações.

O inquérito investiga três crimes: corrupção passiva, lavagem de dinheiro e formação de quadrilha. Por ser o maior entre os procedimentos abertos pelo STF, deve ser também o mais demorado. Esse inquérito é o único que vai apurar o crime de quadrilha envolvendo políticos no esquema de desvio de recursos da Petrobras.

O Globo