João Pessoa 26/04/2018 03:52Hs

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O futuro na linha do tiro

Este ano, 310 colégios da rede municipal tiveram aulas suspensas devido a tiroteios

escola umTrancados atrás de grades, os alunos de uma escola municipal da Pavuna esperavam um tiroteio acabar para poder ir embora, na manhã da última quarta-feira. Ainda se ouviam os estampidos vindos do Complexo do Chapadão enquanto a diretora da unidade decidia se as aulas da tarde seriam canceladas. Do lado de fora, pais desesperados apareciam em busca de notícias dos estudantes. “Onde vou achar esse moleque? Vim debaixo de tiro buscá-lo”, disse um pai ao saber que o filho tinha saído mais cedo. Um dia depois, a tensão se repetia em Santa Cruz. Os confrontos, dessa vez, eram na Favela do Rola. Agarrado à mão da avó, um menino deixava às pressas uma das duas escolas da região que acabaram tendo que suspender parte das atividades. E manifestava o medo que virou rotina: “Vão metralhar o colégio todo!”

No cotidiano do terror carioca, esses estão longe de ser casos isolados, como mostra a série “O futuro na linha de tiro”, que revela os desafios de ensinar e aprender em territórios conflagrados da cidade. Na guerra entre facções e em meio a operações policiais, os alunos dessas áreas têm sido atingidos em cheio. Apenas no ano letivo que terminou na última sexta-feira, um levantamento da Secretaria municipal de Educação, feito a pedido do GLOBO, aponta que 128.915 alunos (19,7% dos 654.454 adolescentes e crianças atendidos pelas redes própria e conveniada da prefeitura) foram diretamente afetados pelos confrontos. Eles estudam nas 310 escolas (ou 19% do total de 1.625) que, até o fim de outubro, tiveram de fechar por pelo menos um turno devido à violência.
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Ciep com portão fechado em Acari, na Zona Norte do Rio – Custódio Coimbra / Agência O Globo

O problema é mais grave do que o contabilizado pela prefeitura em 2009. Na época, 13,6% dos matriculados na rede (100.267 dos 735.996 alunos) ficaram sem aulas por causa de confrontos em comunidades. Há seis anos, o Complexo do Alemão — antes da instalação das UPPs — era a área mais afetada. Já em 2010, Wesley Gilbert Rodrigues de Andrade, de 11 anos, foi morto por uma bala perdida durante uma aula de matemática em outro ponto da cidade: o Ciep Rubens Gomes, em Costa Barros. É nas proximidades desse Ciep que ficam a escola e a creche públicas municipais mais prejudicadas este ano pelas paralisações provocadas pelos tiroteios. Em cada uma delas, foram 49 turnos sem aula, o que corresponde a 24,5 dias do ano letivo perdidos.

ARTIGO: O PREJUÍZO É DE TODOS

As duas unidades ficam na 6ª Coordenadoria Regional de Educação (CRE), onde estão o Complexo do Chapadão, o Morro da Pedreira e a Favela de Acari, além de bairros como Pavuna, Anchieta, Barros Filho e Costa Barros. Das 11 CREs da cidade, a 6ª foi a que mais sofreu com as paralisações: 62 das 107 unidades da região tiveram aulas interrompidas. Mais do que na 4ª CRE, onde estão os complexos da Maré e de Manguinhos, na qual os efeitos dos tiroteios foram igualmente devastadores: 61 dos 148 colégios vinculados à coordenadoria pararam devido a confrontos.

No entorno do Chapadão, estudantes, professores e pais de alunos contam que a situação piorou nos últimos dois anos. Em setembro passado, Kaic Maycon, de 15 anos, aluno de uma das escolas da região, estava num ponto de ônibus quando foi baleado e morreu. O mês seguinte (outubro), chegou a ser descrito como o “inferno”. Um pesadelo que voltou a ser vivido semana passada, com mais uma manhã de tiroteios no complexo de favelas.

— A dificuldade é não deixar que os alunos fiquem na janela. Os professores tentam dar aula. Só tentam, porque os alunos ficam muito agitados — disse a coordenadora de uma escola nas proximidades do confronto da última quarta-feira. — Ficamos esgotadas. Parece que toda a alma da gente vai embora, é arrancada.

No momento do tiroteio, uma mãe de aluno procurava a escola para se queixar de que o filho tinha sofrido ameaças, inclusive de morte, de outro estudante. A todo instante, como estopins, reflexos da violência como esse explodem dentro dos muros do colégio.

— Os alunos estão muito violentos, brigam à toa. Aqui, acabamos fazendo o trabalho de advogado, psicólogo, delegado, babá. Esses alunos não têm acompanhamento psicológico, nem de assistentes sociais. Nós, professores, também precisamos de apoio. Não temos — afirma a diretora de uma escola, cujo nome, assim como os de outras vítimas da violência próxima aos colégios, será omitido por questão de segurança.

TRAFICANTES FAZEM BLITZ

Também no Chapadão, professores de outra unidade contam que são submetidos, inclusive, a revistas feitas por traficantes para entrar na comunidade.

— A situação nunca foi tão crítica. Nosso carro tem um selo para identificar que somos professores. Eles fazem uma revista minuciosa, como se fossem policias. Hoje (no último dia 17), o carro de um colega foi alvejado. Uma professora teve que ficar deitada no ônibus para fugir de tiros — contou um professor.

Perto dali, em Anchieta, numa escola cercada por ruas com barricadas, um inspetor perguntava quarta-feira aos alunos como estava o clima do lado de fora. Esse é um dos colégios municipais de ensino fundamental que mais fecharam este ano devido à violência: 31 turnos até o fim de outubro.

Ali, embora aparentemente lidassem até com uma certa naturalidade com a tensão da violência, uma cena deixava claro que não era bem assim. Um menino de 10 anos abraçou uma colega, que pediu a ele que a soltasse. O garoto não obedeceu e ouviu da menina: “Você vai morrer, vou te matar”. Foi o que bastou para que sua fisionomia mudasse e ele caísse em pranto.

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Embora a escola seja uma das mais tranquilas na Maré, já fechou seis vezes este ano devido à violência: fé de dias melhores – Márcia Foletto / Agência O Globo

Apesar de o Complexo da Maré estar ocupado por forças de segurança para a instalação de UPPs, o dia a dia de violência já fez mudar até o horário escolar. Das 30 unidades da rede municipal de ensino localizadas dentro e na periferia do conjunto de favelas, 20 passaram a abrir as portas meia hora mais tarde (às 8h) e a fechar 30 minutos mais cedo (às 16h). O pedido foi feito por um grupo de diretores à secretária municipal de Educação, Helena Bomeny, para reduzir efeitos de possíveis confrontos na rotina de estudantes e professores — medida que vigora desde agosto.

— Os diretores contaram que as incursões policiais nas comunidades começam muito cedo ou no fim da tarde. Disseram que, se a escola abrisse às 8h, as operações já teriam acabado. Com os alunos saindo mais cedo, eles também chegariam em casa antes das ações do fim da tarde. Combinamos que, mensalmente, a iniciativa seria reavaliada — afirmou a secretária. — Para que a carga escolar dos alunos nessas unidades não fosse prejudicada, mudamos também o horário das refeições. O aluno que entra de manhã almoça na saída, e o pessoal da tarde chega mais cedo para almoçar antes de a aula começar.

AS IMAGENS DAS ESCOLAS NA LINHA DE TIRO

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  • Aluna de uma escola no Complexo da Maré, menina de 11 anos não brinca na rua porque tem medo dos tiroteiosFoto: Márcia Foletto / Agência O Globo

  • Embora a escola seja uma das mais tranquilas na Maré, já fechou seis vezes este ano devido à violência: fé de dias melhoresFoto: Márcia Foletto / Agência O Globo

  • Alunos em fila: os estudantes de colégio na Maré participam de uma conversa com a diretoria da escola antes da entrada em sala de aulaFoto: Márcia Foletto / Agência O Globo

  • Mãe com três dos quatro filhos em frente a escola na Maré: além de estudarem, as crianças acompanham a mãe no trabalho e não ficam sozinhas em casaFoto: Márcia Foletto / Agência O Globo

  • Alunos em sala de aula na Maré: quando ocorre algum episódio de violência na área externa, os estudantes ficam nos corredores Foto: Márcia Foletto / Agência O Globo

  • Em toda a área da 4ª Coordenadoria Regional de Educação, que inclui a Maré, 61 escolas fecharam ao menos uma vez este ano devido a confrontos na comunidadeFoto: Márcia Foletto / Agência O Globo

Para uma professora de uma escola que fica na chamada “Faixa de Gaza” da Maré — entre as comunidades da Nova Holanda e da Baixa do Sapateiro, dominadas por facções rivais —, a mudança de horário era necessária, mas não soluciona o problema:

— Agora, as crianças faltam menos às aulas. Mas a mudança é um paliativo. Não são raros os casos em que os alunos e nós mesmos somos surpreendidos por tiroteios estando dentro das salas de aula. As crianças já sabem o que fazer: elas se abaixam e vão para o corredor, onde é mais seguro.

AGOSTO FOI O MÊS MAIS VIOLENTO

Nos dez primeiros meses deste ano, na 4ª Coordenadoria Regional de Educação (CRE), que inclui a Maré, setembro foi o que mais teve escolas fechadas ao menos uma vez devido à violência: um total de 41 unidades. Mas, se considerado todo o Rio, foi o mês de agosto o recordista do ano em colégios e creches que tiveram de dispensar os alunos por causa dos confrontos em comunidades próximas. Foram 173, sendo que 50 apenas na 6ª CRE (região da Pavuna e Costa Barros), 30 na 4ª CRE e 24 na 7ª CRE (área de Jacarepaguá, Rio das Pedras, Cidade de Deus e Barra da Tijuca).

Na Maré, alunos, professores e outros funcionários de uma escola que fica entre as comunidades do Timbau e da Baixa do Sapateiro ainda têm nítido na memória o dia 12 de março deste ano. Policiais militares ocuparam a rua e passaram a manhã trocando tiros com traficantes. Quase todos já estavam nas salas de aulas e foram para os corredores. Menos uma turma, que estava no refeitório, no primeiro andar, e ficou encurralada com a professora durante toda a manhã.

— Fiz até uma foto deitada no chão, apavorada. Achei que seria a última. Foi a pior situação que já passei na vida — lembrou a professora, que leciona na unidade há oito anos. — Foram muitos tiros, durante muito tempo. Só conseguimos sair da escola por volta das 14h. Eu chorava muito. Achei que fosse morrer.

No colégio, estudam 510 crianças e adolescentes do 1º ao 6º ano do ensino fundamental, moradores de diferentes comunidades do complexo. Quando a guerra começa em qualquer canto da Maré, eles se comunicam por WhatsApp e sabem se haverá aula ou não. Mas, quando já estão na escola, o jeito é encontrar uma maneira de se proteger.

— Fico com muito medo, mas me agacho e espero passar. Geralmente é rápido — contou um menino de 12 anos, do 6º ano.

Um dos maiores problemas, segundo a diretora da escola, é que a violência na comunidade também acarreta baixa frequência de alunos:

— Eles não conseguem chegar porque passaram a noite sem dormir devido aos tiroteios ou porque o confronto começou na hora de vir para o colégio.

Ela conta que procura realizar projetos que reduzam o impacto dessa realidade. Além disso, a cada entrada de turno, as crianças rezam o pai-nosso no pátio.

— Mas vivemos sobressaltados. Teve um dia de agosto deste ano em que o simples ronco de uma moto assustou. Levamos as crianças para o corredor. Eu corri para a porta na tentativa de saber o tamanho do problema. Chegando lá, descobri que era só uma moto — diz.

CRIANÇAS CONVIVEM COM TRAUMAS

Mãe de três alunos da escola, uma dona de casa conhece bem a rotina de violência na comunidade onde mora, a Vila Esperança. O marido já foi vítima de uma bala perdida quando voltava do mercado. Sobreviveu, mas, desde então, os filhos não brincam mais nas ruas e, com frequência, são obrigados a faltar às aulas por causa de tiroteios.

— Basta eu ver o helicóptero da polícia para não levá-los para o colégio. Lá é até mais seguro, mas não sei o que podemos encontrar pelo caminho — conta a mãe.

Moradora da Nova Holanda, na Maré, outra mãe, de 29 anos, tem que lidar com a violência do local onde mora e com os traumas dos quatro filhos, que só aceitam sair de casa se for para ir à escola (fora da comunidade) ou algum outro lugar longe da favela. Ela mesma já se viu presa no meio do fogo cruzado, tentando retornar para casa com três dos filhos:

— Eles estudam fora da favela. Voltávamos do colégio quando começou o tiroteio, no meio da manhã. Ficamos passando de beco em beco. As pessoas, com medo, não abriam suas portas. A gente só ouvia os gritos de “não vai por aí” e “cuidado”. Eles não podiam fazer operações assim no meio da manhã. Quando consegui chegar em casa, já passava das 13h. Foram quase três horas de fogo cruzado — diz ela.

A mulher conta ainda que chegou a tentar matricular os filhos na escola do lado de casa. Mas, após um tiroteio que perfurou o muro da unidade, o filho mais velho, de 13 anos, não aceitou ir para lá.

— Por mim, eu nem morava na comunidade. Daqui, só gosto dos cursos de música que faço na (organização da sociedade civil) Redes da Maré — disse o adolescente, que prefere pegar uma condução para a escola a estudar a alguns metros de casa.

‘REPOSIÇÃO É DE CONTEÚDO’
Helena Bomeny, secretária municipal de Educação – Márcio Alves / Agência O Globo

Secretária de Educação do Rio, Helena Bomeny, diz que ‘a reposição é de conteúdo’. Para ela, o importante é ‘garantir que o aluno tenha o aprendizado’.

Como a secretaria lida com tantas escolas tendo que fechar devidos aos tiroteios?

Lamentamos, mas estamos imersos num contexto da cidade que repercute dentro das escolas. Dependendo de onde as unidades estejam localizadas, a situação fica menos ou mais complicada. Agora, temos um time de diretores e professores muito comprometido. Eles compram a causa da escola.

Existe um déficit de professores em escolas de áreas de risco?

Pelo contrário. A quantidade de pessoas que participam de nossos concursos é enorme. E eles são localizados. A pessoa sabe, quando faz um concurso, que está escolhendo uma escola numa determinada área. Então, o jogo está posto.

Existe atendimento psicológico para os profissionais que trabalham nessas escolas?

Em cada CRE temos uma equipe do Niape (Núcleo Interdisciplinar de Apoio às Escolas), formada por educadores, psicólogos e assistentes sociais, que faz atendimento às escolas. Não ao professor, mas à escola que passa por algum problema emocional.

De que forma as polícias podem minimizar o impacto dos confrontos nas escolas?

A polícia sempre se compromete a não fazer incursões em horário escolar. Mas, quando a bandidagem age em horário escolar, como é que os policiais não vão agir?

Como é feita a reposição de aulas perdidas quando a escola tem que fechar?

A reposição é de conteúdo. A escola não deve esperar até o fim do ano para fazer o reforço. Cada uma escolhe a melhor maneira de repor, trabalhando em grupos nas salas, estendendo o horário, dando aulas aos sábados… O importante é garantir que o aluno tenha o aprendizado que ele deva ter.

Mas essas escolas não ficariam com pendências junto ao MEC?

Aí é um problema específico de violência, extrapola a nossa possibilidade de impedir que aconteça. Não tem como. Cada escola tem sua estratégia.

O Globo