João Pessoa 24/06/2018 14:33Hs

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Todos querem ser o Comendador

ze alfredo morre

Desce sempre pela minha rua, sem periodicidade definida, um sujeito todo de preto, cabelo bem partido e grudado na cabeça levando uma carrocinha de amolador de facas e objetos cortantes em geral. Sei que ele passa porque começo a ouvir lá longe seu bordão: “chama a moça”. “Ô, moça! Chama a moça”, grita ele, para alguém que só pode ser fruto de imaginação, eu concluía. Para tirar a prova, juntei um alicate e uma faca de bifes e esperei.

Até que um dia lá estava eu, levando bronca do amolador pelo desleixo com o fio. “Olhe, madame… Vamos ver se dou um jeito aqui”, disse, desdenhando do serviço. “Certo, moço. Só não me chame de madame”, respondi, em tom de brincadeira. “E quem está em casa às três da tarde é o quê?”, devolveu ele, nos cascos. “Eu trabalho em casa, moço”, expliquei, surpresa com a autencidade da rispidez. “Ah, já sei!”, disse ele. “É ‘rome ófice’!”

Eu ri. Ele riu. E se gabou de saber “um pouco” de inglês. Questionei se ajuda nos negócios, e ele concordou com a cabeça. Mas gringo manda amolar faca? “Quase nunca, madame. Mas o inglês valoriza o cabra, sabe como é?” Respondi que sim, ô se sei. “É como o Comendador da novela”, brinquei. O rosto do homem se iluminou. “E não é, dona? A senhora sabe por quê?”, perguntou por cima dos óculos de lentes verdes, doido para dar a resposta. “O Comendador sou eu!”

Comendador. Há 8 meses, a gente mal ouvia esse termo. Hoje, depois do trabalho de Alexandre Nero como protagonista de Império (Globo, 21h15), todos querem ser o Comendador ou ter um Comendador para si – é a revanche do macho alfa no horário nobre, depois de um período de Tufões pacientes demais e Laertes doidos de pedra. Na próxima sexta, o “abominável homem de preto” vai deixar o posto de “divo” vago. Se bobear, fará muita gente chorar. Andam comentando que Aguinaldo Silva matará o personagem de verdade desta vez, pelas mãos do filho dele, José Pedro (Caio Blat).

“Lembra quando ele foi pro garimpo em Minas?”, continuou o amolador. “Pois então. Eu fui garimpeiro!”

Quis saber se houve um diamante cor-de-rosa e se ele é dono de um império como o da novela. “Catei umas pedrinhas boas. Mas não foi o caso de, vamos dizer assim, ficar rico”, respondeu ele, jurando que, apesar de “uma diferença ou outra”, tem para si que a novela das 9 é baseada na sua pessoa. “Desde que a novela começou eu só chamo a patroa lá em casa de Maria Marta. Ela odeia.”

E como Aguinaldo teria descoberto essa história? O cabra ficou um tanto sem paciência. “Olhe, conhecer o homem eu não conheço. Mas a madame não conhece a Teoria dos Seis Graus de Separação?”, desafiou, enquanto cobrava pelo serviço – e só me restou um “pois é, pode ser”.

Pus os cinco reais do troco no bolso pensando em como a novela é capaz de mexer com a imaginação do brasileiro, quando me dei conta de que não perguntei dela, a moça. Ele já ia ligeiro pela calçada, tomando fôlego para voltar a gritar o bordão. “Mas que moça é essa, afinal?”, interrompi. Como José Alfredo faria, ele deu um sorriso apaixonado e respondeu: “É a sweet child, dona! A madame não vê a novela?”

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