João Pessoa 21/11/2018

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Catástrofe sobre golfo Pérsico: com que objetivo americanos derrubaram avião iraniano?

Em 3 de julho de 1988, sob o golfo Pérsico ocorreu uma das maiores catástrofes na história da aviação mundial. Morreram 290 passageiros, entre os quais 66 crianças e 16 tripulantes que estavam a bordo do avião iraniano Airbus A300B2, atingido por mísseis dos EUA. A Sputnik revela as causas desta tragédia.

Dois mísseis

Naquele dia o avião da companhia aérea Iran Air fazia um voo de Teerã com destino a Dubai e com escala na cidade iraniana de Bandar Abbas, onde também se baseava a aviação militar do Irã. Dois mísseis de defesa antiaérea disparados do cruzador USS Vincennes da Marinha norte-americana atingiram o avião à altitude de quatro quilômetros, praticamente partindo a aeronave em duas partes.

C-17, avião de transporte militar da Força Aérea dos EUA, foto de arquivo
Conforme o relatório governamental dos EUA, a tripulação norte-americana identificou erroneamente o Airbus civil, tomando-o por um caça F-14 Tomcat da Força Aérea iraniana.

Ao se justificar, os marinheiros diziam que o avião não respondeu a vários pedidos de mudar o rumo, sem mencionar que tentaram entrar em contato com o avião civil em uma frequência militar que lhe era desconhecida.

Medida de intimidação

Segundo o analista militar Yuri Lyamin, o Irã e os EUA na época estavam à beira da guerra, e os navios da Marinha dos EUA estavam sempre em estado de alerta. “Nos últimos meses do conflito americano-iraniano, os EUA atacaram repetidamente os navios do Irã. Os americanos afundaram várias lanchas, destruíram uma plataforma petroleira iraniana, danificaram uma fragata militar”, conta.

Navio USS McCampbell (DDG 85) dos EUA no Golfo Pérsico
Para ele, os EUA atingiram o avião de propósito, a fim de demonstrar ao Irã que iriam derrubar quaisquer aeronaves que considerassem ameaça para os seus navios. “Foi mais uma medida de força”. Claro que, após a catástrofe, no Irã receou-se um conflito de grande escala com Washington. Em muitos aspetos é por isso que o Irã parou a guerra com o Iraque por não ter possibilidade de travar a guerra em duas frentes. Naquele momento o conflito militar entre o Irã e Iraque continuava há oito anos.

O cruzador USS Vincennes fazia parte do grupo de navios norte-americanos que protegiam os petroleiros e caravanas comerciais de possíveis investidas da Marinha iraniana. Apoiando o Iraque, em meados de 1988 os EUA enviaram navios à região do golfo Pérsico. O cruzador era dotado de mísseis de cruzeiro Tomahawk, armas de artilharia, torpedos e mísseis guiados SM-2MR.

Difícil de errar

Levando em conta a situação na região na época, claro que não se pode excluir um erro nas ações dos norte-americanos, mas os analistas afirmam que um operador experiente pode determinar com facilidade o tipo de aeronave.

O especialista militar Mikhail Khodarenok explica: “Sim, os erros são inevitáveis, em especial nas regiões de ações militares. Mas tomar um avião civil por um avião militar — isso pesa na consciência dos norte-americanos”.

Lançamento de um míssil balístico pelo Irã
Ele ressalta que se pode culpar os EUA de pouco profissionalismo, deficiente cálculo e pouca preparação para identificar a aeronave.

Em épocas de paz, acrescenta, nas regiões com ativa movimentação civil, tentam não atacar os aviões que violam e espaço aéreo só com base nos dados de radares. Em primeiro lugar, um caça levanta voo e se aproxima da aeronave intrusa para estabelecer contato visual. O piloto comunica com este avião nas frequências internacionais e revela as suas intenções. Nada disso foi feito, embora os norte-americanos tivessem tudo o que era necessário para o fazer.

Condecorações dos heróis

O governo dos EUA não reconhece até hoje quaisquer violações por parte da tripulação do cruzador USS Vincennes. Nenhum marinheiro foi reconhecido responsável pelo derrube do avião civil. Além do mais, a tripulação foi galardoada com prémios pela execução rápida e organizada da missão.

A Casa Branca expressou pêsames na sequência da catástrofe, mas o então presidente, Ronald Reagan, chamou o assassinato de quase 300 pessoas de “ações de defesa necessárias”.

No entanto, mais tarde, em 1996, os norte-americanos acabaram por concordar em pagar às famílias das vítimas cerca de 62 milhões de dólares (242 milhões de reais) no âmbito do acordo com o Irã sobre a retirada da demanda contra os EUA no Tribunal Internacional de Justiça da ONU.

Sputnik