João Pessoa 23/05/2018 10:59Hs

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Filme conta história de boxeador do Alemão que perdeu dez parentes para a violência

Nascido e criado no Morro do Adeus, o boxeador Alan Luiz Duarte, de 29 anos, nunca perdeu um parente por causas naturais. Dez pessoas de sua família foram mortas a tiros e pelo menos 90 amigos e conhecidos já foram baleados na guerra do tráfico. Calejado pelas tragédias e decidido a se tornar um agente de transformação social, ele criou o projeto Abraço Campeão, que oferece aulas de boxe e cidadania a jovens do Complexo do Alemão. A história virou filme e ganhou o mundo: o documentário “The good fight” (“A vida é uma luta” em português), premiado em cinco festivais internacionais este ano.

A guinada na vida de Alan Luiz veio após a perda do irmão mais velho, Jackson Duarte, que ele considerava como pai. O rapaz tinha três passagens na polícia por roubo, apologia ao tráfico e lesão corporal. Em 2012, Jackson foi morto com um tiro na cabeça.

— Depois daquele dia comecei a fazer as contas e percebi que nenhum homem da minha família ficou velho. Todos foram assassinados. Vi no Mapa da Violência que jovens entre 15 e 29 anos eram os que mais morriam. Eu estava naquela faixa etária e todo dia passava por tiroteios. A diferença é que na maior parte do tempo eu estava treinando, o que me afastava da zona de risco — conta.

Alan Luiz Duarte na sede do projeto Abraço Campeão.
Alan Luiz Duarte na sede do projeto Abraço Campeão. Foto: Custódio Coimbra

Boxeador desde 2005, quando começou a treinar na ONG Luta Pela Paz, na Maré, passou a compartilhar sua experiência com outros jovens do Morro do Adeus e, em 2014, deu início ao projeto Abraço Campeão, que atende 60 crianças e adolescentes. Para participar do projeto, há uma contrapartida: uma vez por semana, é preciso assistir à aula de cidadania e desenvolvimento pessoal.

Em 2006, o boxeador viu mais um parente morrer baleado: A décima vítima da família foi um primo de apenas 12 anos:

— Ele chegou a vir no projeto duas vezes, mas foi morto pelo tráfico.

Alan participou de 54 lutas e perdeu 12. Como competidor do boxe olímpico, viajou pelo Brasil e conheceu países como África do Sul e Inglaterra. Hoje sonha com o dia em que seus alunos terão a chance de expandir seus horizontes.

Amigo inglês era a força que faltava para documentário nascer

Com a ânsia de profissionalizar o projeto, mas sem conseguir apoios ou patrocínios, Alan Luiz decidiu pedir ajuda. Entrou em contato com o inglês Benjamin Holman, diretor de filmes publicitários que morou 12 anos no Alemão. Ben, como é conhecido, teve o primeiro contato com ele nos ringues da Luta Pela Paz. O estrangeiro, que produzia vídeos para a ONG, também treinava boxe.

— Encontrei Ben e pedi que fizesse um videozinho de dois minutos para divulgar o projeto. Ele topou. Veio um dia, voltou no outro. Quando percebi, já estava filmando o projeto há quatro meses. Resolvi perguntar por que estava produzindo tanto material. Ele explicou a intenção de fazer um documentário, então caí dentro da ideia — lembra.

Em 2017, o filme rodou por dez festivais internacionais e saiu vencedor em cinco: melhor documentário curto no festival Tribeca, em Nova York, e no Festival de Cinema Brasileiro, em Los Angeles; melhor documentário estrangeiro no Atlanta Docufest e dois “Prêmios do Público” no SOUQ Film Festival em Milão e no Festival Cityfilm de Nevada.

Agora, ele sonha com a exibição no Brasil:

— Estamos programando uma mostra no ano que vem. Vamos começar a arrecadar para viabilizar isso.

Depoimento de Alan Luiz Duarte

As pessoas me perguntam se ensinar boxe na comunidade não vai deixar as pessoas mais violentas. Pelo contrário. Muitas vezes, ao longo da minha vida, senti falta de um abraço. Durante muitos anos, o único abraço que eu tinha era do meu adversário nas lutas. Daí o nome do projeto. Dentro do ringue, são duas pessoas dignas dispostas a lutar. Prefiro tomar os socos que tomei em todas as minhas lutas do que ouvir algumas coisas que ouvi ao longo da vida. Os socos deixam feridas que cicatrizam ao longo do tempo, mas algumas palavras não curam nunca.

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