João Pessoa 20/06/2018 21:03Hs

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Galãs da TV contam como é romper com a homofobia

Eles quebram o preconceito em cenas de sexo e beijo gays, violência e discriminação contra homossexuais

galansRio – Eles vendem a imagem de galãs, másculos, desejados pelas mulheres, mas agora assumem outro tipo de papel. Cauã Reymond deixou de lado sua figura viril e subiu no salto, colocou peruca loura e usou maquiagem para dar vida à transexual Clara, no clipe ‘Your Armies’, de Barbara Ohana, sobrinha da atriz Claudia Ohana. Já Caio Blat e Ricardo Pereira vão protagonizar a primeira transa entre dois homens na dramaturgia brasileira, bem ao estilo ‘O Segredo de Brokeback Mountain’ (filme de 2006, dirigido por Ang Lee). São desafios que tocam em temas delicados, ampliam os horizontes artísticos e provocam grande parte dos espectadores.

Travestido, Cauã fez com que o clipe de Barbara — dirigido por Daniel Rezende e Allexia Galvão — ultrapassasse um milhão de visualizações no YouTube. Por sinal, não foi a primeira vez que o ator se travestiu: ano passado, o bonitão encarnou Courtney Love, viúva de Kurt Cobain (líder do Nirvana), em protesto contra a homofobia. Desta vez, o preparo foi maior. “Parei de malhar, fiz uma grande preparação para buscar a delicadeza dos gestos. Também fiquei andando de salto alto em casa para me acostumar. E era um salto grande, cara. Maior que um salto 10!”, espanta-se Cauã. O ator também foi um dos produtores do clipe de Barbara, que conheceu por intermédio de amigos. “Gravamos madrugada adentro e foi tenso, precisei me acostumar com a maquiagem. Só não caí do salto porque treinei bastante”.

Depilado, usando rendas e de cabelos louros (e interpretando um travesti que reage a uma agressão, situação comum no dia a dia da comunidade trans), Cauã incomodou. Mas não apenas à parcela mais conservadora do público, já que nas redes sociais, muitas pessoas reclamaram que a produção deveria ter escolhido um ator trans, e não um galã travestido. “Reclamaram de mim como reclamaram do (ator) Jared Leto no filme ‘Clube de Compras Dallas’. Tem gente que reclama quando um ator hétero faz um gay, ou trans. Mas esse é o meu ofício. Trabalho com ficção, é um desafio artístico, não é um reality show. O que chama para o clipe é a mensagem de respeito às diferenças, da tolerância”, acredita Cauã. “O que me atrai é mergulhar em universos que não sejam os meus. Seria monótono se eu interpretasse a mim mesmo o tempo todo”.

Barbara Ohana e Cauã nos bastidores do clipe de ‘Your Armies’

Foto: Reprodução

Barbara Ohana lança o single ‘Your Armies’ amanhã às 19h30 em show gratuito no Teatro Rival. E se diz feliz pela repercussão do clipe. “Tentamos retratar com sutileza um assunto delicado”, conta ela, afirmando não dar importância para o fato de ter sido um galã de TV que encarnou Clara. “Bons atores representam bons papéis. O importante foi que Cauã se entregou e emocionou todo mundo que estava fazendo o clipe. Ele virou realmente outra pessoa. É importante que todo tipo de personagem seja retratado”.

Voltando à TV, em ‘Liberdade, Liberdade’, o personagem de Caio, André, será condenado à forca depois de ser flagrado na intimidade com o coronel Tolentino, papel de Ricardo. “Estou muito feliz de estar representando essa história. Contribui num sentimento geral da novela de tratar de diversas formas de preconceito, de discriminação”, afirma Caio, contando com a maturidade do público e apostando no texto. “Eu acho que esta é uma novela madura, as pessoas percebem que são temas contemporâneos que estão sendo tratados com um pano de fundo histórico. Tenho muito orgulho de estar representando esse personagem que é comovente, lindo.”

Para o português Ricardo, a história do casal de época não se resume a um beijo. “O que eles sentem um pelo outro pode ser visto ao longo da trama, um sentimento que vem sendo explorado dentro do que se podia viver perante a sociedade naquela época, dentro do que ensinaram para eles que é certo ou errado. Esse crescente da relação é visível. O amor que existe ali é lindo e traz muito do que a novela defende: a luta contra o preconceito, contra a intolerância e pela igualdade entre todas as pessoas”, reforça o ator.

Neste caso, a intenção do diretor Vinícius Coimbra não é apenas entreter. Se há 200 anos a relação homossexual era punida com morte, hoje não é muito diferente, vide o massacre na boate gay Pulse, em Orlando, nos Estados Unidos. “A cena (da novela), creio eu, deve ir além do desejo represado. Ela deve refletir o drama de cada pessoa que sofre algum tipo de repressão ou condenação social, seja por sexo, cor, religião ou qualquer outra forma de segregação”, esclarece Vinícius.

Caio Blat e Ricardo Pereira em ‘Liberdade, Liberdade’

Antes do take de sexo, Mateus Solano (Félix, hoje o Rubião de ‘Liberdade, Liberdade’) e Thiago Fragoso (Niko) foram os precursores do beijo gay no horário nobre da Globo, em ‘Amor à Vida’ (2013). Apesar de terem revolucionado a dramaturgia brasileira, Solano não acredita que foi suficiente para quebrar preconceitos. “Os homossexuais continuam sendo maltratados por uma grande maioria retrógrada. O que eu acho muito legal de André e Tolentino, e eu falei isso para o Ricardo, é que ele tem a oportunidade de fazer a primeira bicha sem pinta da TV. Isso é muito importante porque a gente coloca o gay sempre no lugar da comédia, no lugar afetado. É um lugar mais ‘Brokeback Mountain’, dois machos se pegando, não dois machos afeminados. Até queria ter tido essa oportunidade com o Félix, mas salgando a Santa Ceia (bordão do personagem), não dava (risos). Eles estão com tudo e o público vai assinando embaixo”, vibra o ator.

O Dia