João Pessoa 22/05/2018 05:55Hs

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‘Atenção: prenderam o Maluf errado’, diz Mario Rosa

‘Justiça não é instrumento de martírio’

Dep. Paulo Maluf na CCJ – Sessão da CCJ-Câmara para a leitura do relatório do deputado Bonifácio de Andrada, da segunda denúncia contra o presidente Michel Temer. Brasília, 10-10-2017Foto: Sérgio Lima/PODER 360

Durante anos, décadas, Paulo Maluf foi o símbolo da corrupção sistêmica no Brasil. Isso faz tanto tempo que hoje quase ninguém se da conta de que ele foi o vilão número 1 do país e ninguém é capaz de sentir por ele a mesma mistura de rejeição e nojo que despertava no passado. O auge do anti-malufismo foi na campanha contra Tancredo Neves no Colégio Eleitoral, que elegeria o primeiro presidente civil de maneira indireta, após seu o ciclo militar. Tancredo, ao lado de seu neto Aécio Neves, era o bem absoluto. Maluf o demônio de plantão. Mas isso faz muito tempo.

Nessa época, a má fama de Maluf era tão onipresente que ele se tornou um caso raro de pessoa que virou verbo. Malufar era sinônimo de afanar. Como os ódios passam, hoje ninguém de vinte anos, ninguém que sabe tudo sobre como usar todos os aplicativos ou o último celular da moda, faz a menor ideia de que já existiu um dia o verbo malufar. Então é o caso de nos perguntarmos: o que significaria malufar hoje?

A imagem de um senhor de 86 anos, com bengala e com câncer de próstata sendo levado à prisão é um retrato do fim da impunidade? Ou significa quase um martírio imposto a um inválido, por mais culpa que ele tenha acumulado durante a vida? Será que malufar hoje significa sacrificar?

Claro, desvio de dinheiro público é sempre imperdoável. E a punição desse tipo de crime deve ser implacável. Mas há um velho ditado que diz que a Justiça tarda mas não falha. Será? Será que a justiça quando tarda ela já não é uma falha? E será que Maluf não é um exemplo disso? Será que sua prisão, se tivesse de acontecer, não deveria ter sido noutro momento, não deveria ter sido outro Maluf o detento?

Então, uma pergunta torna-se inevitável ao ver o flagelo de um senhor trôpego a caminho do cárcere: será que tudo isso não faz parte de uma pulsão inconsciente de uma época para nos deixar com sede de vingança? Assim como a perguntar: se tivéssemos prendido o Maluf jovem, se tivéssemos atropelado prazos, garantias, recursos, nenhum de nós teria de testemunhar esse padecimento? Ou seja, a culpa do martírio de Maluf na velhice não foi não o termos martirizado quando jovem?

Não. A Justiça não é um instrumento de martírio. A comoção de penalizar um senhor de 86 anos, com câncer, não deve servir de justificativa para praticarmos uma Justiça meteórica, justiceira, como solução para evitarmos situações como essa. É triste a impunidade. Mas a cena de Maluf preso não é menos melancólica. E seu antídoto não é o jacobinismo.

Poder360