João Pessoa 25/04/2018 14:27Hs

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Atores que fazem a história da Globo, festejada no Prêmio Extra de TV 2015, apontam as belezas da profissão

atoresOs claros azuis dos olhos de Fábio Assunção contrastam com a cor de petróleo dos de Felipe Simas. A barba branca de Tony Ramos antecipa, sem urgência, o pelo castanho escuro do rosto de Cauã Reymond. As rugas desenhadas em Francisco Cuoco preveem traços futuros dos que vieram depois. Entre as muitas diferenças, uma decisão de vida os une. São atores. Popularizados nas telas da TV, eles têm um lema comum: viver o presente. O passado serve para reforçar a trajetória percorrida, dia após dia. No fim das contas, essas linhas (as de antes e as seguintes) tratam do sabor do tempo e do prazer de senti-lo ainda fresco.
Em outubro, a capa da Canal com um quinteto de atrizes deu o pontapé rumo ao Prêmio Extra 2015, que, na próxima terça-feira, homenageará os 50 anos da Globo. Agora, cinco astros de gerações distintas representam a emissora. Cuoco, o mais experiente do grupo, recorda quando notou que a fama, vibrante desde o período na TV Excelsior, havia se convertido em fenômeno. Era 1973, a emissora carioca engatinhava na tenra infância dos oito anos, e as imagens chegavam aos lares enquadradas em preto e branco. Na esteira do sucesso de “Selva de pedra” (1972), sua terceira novela na casa, ele foi o primeiro convidado do programa “Só o amor constrói”, apresentado por Heron Domingues.

Francisco Cuoco

Francisco Cuoco
Francisco Cuoco Foto: Sergio Zalis/Rede Globo/Divulgação

Para a atração, gravou passagens no Teatro Municipal de São Paulo. A notícia correu e, em minutos, a imponente construção parecia uma ilha, cercada de fãs por todos os lados. Sem contar as janelas, abrigo de tantos curiosos. Tinha até polícia, ele pontua. Ao entrar no carro, uma mão, como que atravessando a pequena multidão, foi ao encontro da sua e a pegou forte. Guiada pelos fios elétricos da memória, esse retrato viajou 42 anos e, transformado em verbo, é narrado com o tom grave habitual de Cuoco, hoje com 81. “Eu não sei o que é ser mito, eu só quis ser um bom ator”, declarou ele à atração de Domingues.
— Não sou saudosista. Acho que é uma fase bonita, em termos do vigor e da juventude. Para mim, a tendência é a gente só melhorar. Claro, não vou fazer mais os galãs do horário nobre. Mas sempre haverá um papel para um velho senhor. Vejo os perigos em volta. Não somos invencíveis nem infalíveis, mas nada me impede de viver intensamente o meu presente — assegura.

Claro, não vou fazer mais os galãs do horário nobre. Mas sempre haverá um papel para um velho senhor

Francisco Cuoco

Criado no catolicismo, o pioneiro vagueia ao descrever a relação com a espiritualidade. Lamenta a morte recente de colegas, pinça tragédias e ressalta que a soma de idades o faz questionar: “Deus comanda tudo isso?”. A fé, porém, o tornou homem forte, num belo elo com Tony Ramos. O sentimento religioso também faz o carismático ator, o Zé Maria de “A regra do jogo”, reagir diante das incertezas da vida como quem mergulha num rio de águas mansas.
— Meu grau de religiosidade me leva a lidar com a finitude da vida em paz, mais do que pensam. Não tenho isso de “Será que vou acordar amanhã?”. O importante é desejar o melhor ao próximo. A única pessoa que gostaria que tivesse um fim trágico teve: Hitler — garante Tony.

Tony Ramos
Tony Ramos Foto: Sergio Zalis/Rede Globo/Divulgação

O ator cresceu sob a supervisão firme e carinhosa da mãe, professora primária, abraçou o ofício caçando ecos lúdicos de Oscarito, responsável por fazer o ainda garoto se apaixonar pela arte. Ao se embrenhar no exercício de inventar ser outros, ouviu da matriarca: “Não seja um ator burro”. Talvez por isso, goste tanto de ler, e o faz com a satisfação adicional de folhear com as próprias mãos as páginas, eventualmente manchando-as com tinta. O paranaense de Arapongas já estava na Globo quando passou a ser capa das publicações que antes reservavam-lhe apenas o miolo. Esse movimento o fez entender a dimensão do seu nome. Não foram poucas as tentativas de tirá-lo da emissora da qual se firmou como protagonista e porta-voz. Tony gostou de receber os convites, mas não sentiu dificuldades ao recusá-los. Se quiserem um divórcio, ele continua em tom jocoso, está apto a negociar as condições. Mas quem aceitaria esses termos e, assim, perdê-lo de vez?A única pessoa que gostaria que tivesse um fim trágico teve: Hitler
Tony Ramos

Tony Ramos

O admirador da filosofia de São Francisco de Assis fez televisão ao vivo, presenciou o frisson da chegada do videoteipe (quando surgiram os folhetins com gêmeos idênticos) e das cores, sem nunca ceder a uma visão pessimista. Aos que vociferam a morte da TV, ele se apega aos ossos da experiência para despistar os rumores. Realça ser um homem do seu tempo, atento às tecnologias que modificam as maneiras de ver, ouvir e sentir uma história, mas seu norte ainda é o contato humano. E ele evoca vida longa ao feitiço das novelas. O ator estende os braços ao novo. É referência. Quando virou coqueluche na pele de Márcio Hayala — em “O astro” (1977), protagonizada por Cuoco — Cauã Reymond não era nem um projeto de gente. Hoje, homem feito e de sorriso largo, interpreta o filho revoltado do veterano na atual novela das nove — os dois concorrem ao Prêmio Extra na categoria Ator.

Cauã Reymond

Cauã Reymond

Cauã Reymond Foto: Sergio Zalis/Rede Globo/Divulgação

E, olha, esse encontro foi precedido por escolhas que jamais se concretizaram. Antes da fama, Cauã quis ser político. A preferência, no entanto, era uma leitura equivocada do que imaginava ser o trabalho do avô, economista empregado num banco. Adolescente, cogitou ser piloto de helicóptero tamanha a identificação com o personagem de Eduardo Moscovis em “Por amor” (1998). Mas, assim como Felipe Simas, guiou sua juventude através da disciplina dos esportes. A primeira novela a fisgá-lo como espectador foi “Renascer” (1993), acompanhada diariamente ao lado dos avós, quase uma década antes de ele mesmo aparecer na TV e, assim, ser visto e apreciado pela família. Claro, o sucesso rompeu o simples incentivo dos mais próximos. Não demorou até que o

jovem ator fosse reconhecido.
Eu vivo o agora. Não penso em deixar legado. Meu objetivo é entreter
Cauã Reymond

De primeira, um grupo de mulheres exaltava a beleza do jovem. Previsível. Cauã gostou de ser notado e desejado, mas a fim de não viver emoldurado em rígidas vitrines, tratou de trilhar caminhos para ser admirado também pelo trabalho. Os elogios, desraigados de segundas intenções, logo vieram. Ele percebe a mudança. Para além da casca polida, é sondado pelos colegas para opinar e dar dicas sobre filmes e livros, e já ouve sobre personagens seus que marcaram parceiros de cena. O som dessas conversas o anima, é como um bálsamo, e reveste o desejo de se aprimorar cada vez mais na profissão. Sobre o porvir, indagações: como estaremos daqui a novos 50 anos? Ainda assistiremos televisão e acompanharemos folhetins? Toda interrogação é também uma chave para um futuro possível.
— As coisas estão se modificando muito. Qual o lugar que a gente vai ocupar daqui a dez anos? Qual espaço do celular, do vídeo on demand, da internet? Quais as possibilidades? A gente não vai desaparecer, isso para mim é uma certeza. Mas eu vivo o agora. Não penso em deixar legado. Meu objetivo é entreter. Se algo ficar, ficou, como as memórias que tenho de “Renascer” — enfatiza Cauã, de 35 anos, revelado como o Maumau de “Malhação”.

Felipe Simas

Felipe Simas

Felipe Simas Foto: Sergio Zalis/Rede Globo/Divulgação
A novela vespertina, no ar há duas décadas, foi também essencial para Simas. Ele estava no hospital quando recebeu a notícia de que, enfim, faria parte do elenco da nova temporada. Foi em 15 de abril de 2014, dia seguinte ao nascimento de Joaquim, seu filho. “Não podia nem gritar para não acordá-lo”, lembra o jovem, de 22, um dos protagonistas de “Totalmente demais”.
E a criança é o ser mais puro que existe, o que mais consegue estar no presente. Aprendo isso com Joaquim
Felipe Simas

A realidade artística, embora em uníssono com os sonhos germinados na família, rompeu bruscamente com sua vivência no futebol, praticado desde os 12 — o rapaz jogou no juvenil do Botafogo e do Nova Iguaçu. A bisavó Elzinha, morta em 2011, não viu a ascensão do moço bom de bola nas novelas. Em homenagem a ela, tatuou no braço esquerdo o ano 1921, que marca o nascimento da senhora. “Ela viveu, os outros só sobrevivem”, enaltece o jovem de olhos expressivos. Irrigados pela memória, eles ganham mais brilho ao falar do filho.

— O ator tem o desafio de viver o agora, acreditar que a cena é real e ao mesmo tempo saber que tudo é mentira. E a criança é o ser mais puro que existe, o que mais consegue estar no presente. Aprendo isso com Joaquim — salienta, com habitual sorriso no rosto.
Fabio Assunção

Fabio Assunção

Fabio Assunção Foto: Sergio Zalis/Rede Globo/Divulgação

O presente. Desembrulhá-lo é necessário. Ao olhar para trás, Fábio Assunção reencontra um garoto de 19 anos, inexperiente, em sua estreia em novelas, “Meu bem, meu mal” (1990). De lá, traz a ressonância das palavras de Guilherme Karan, o primeiro a dizer: “Você veio para ficar”. De volta às novelas após um hiato de sete anos — nesse período fez “Tapas & beijos”, indicado na categoria Programa de Humor —, o Arthur de “Totalmente demais” tem consciência de que ficou e mudou. O aprendizado o deixou mais silencioso e atento nos estúdios. Antes, avalia, brincava muito em cena. Se a alcunha de galã o incomodava, atualmente o título brota como elogio bruto, afinal “o conteúdo do meu trabalho está claro”. A beleza persiste na estampa, mas reluz mesmo no desejo que o mantém ator aos 44:

Tenho uma relação carinhosa com meu trabalho. Comecei por afeto e continuo trabalhando por afeto
Fábio Assunção

— Lembro da minha primeira aula de teatro, um curso em que todo mundo se abraçou e se beijou respeitosamente. Fiquei fascinado, achei incrível a entrega daquelas pessoas que não se conheciam. Havia descoberto o afeto. Os atores têm isso. Tenho uma relação carinhosa com meu trabalho. Comecei por afeto e continuo trabalhando por afeto.

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