João Pessoa 19/11/2017 19:33Hs

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Lula segundo Lula

O sol de Picos, no semiárido do Piauí, não é para amadores. No meio da tarde do sábado, dia 2, o calor escaldante mantém a temperatura acima dos 35 graus. A praça tem pouca gente, quase toda ela com bonés e camisetas vermelhas novinhas, que destoam da aridez da região há seis anos sob o castigo de uma seca que transformou rios em córregos, matou animais e destruiu lavouras. Os adereços foram distribuídos ao povo pelo PT, responsável também pela distribuição de água, lixeiras, banheiros químicos, pelo palanque e por um telão que projeta propagandas de programas sociais e, especificamente, de um financiamento do Banco do Brasil para a produção e exportação de mel por uma cooperativa de pequenos produtores da região. “Se preparem porque só faltam 14 meses e vamos derrotar os golpistas na eleição”, brada ao microfone o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o motivo de tamanha estrutura sob o sol abrasivo. Ele acaba de receber o título de cidadão picoense concedido pela Câmara Municipal. Aproveita o embalo e abona a ficha de filiação ao PT do estudante Alexandre Santos, que se dispõe a ser “um soldado” de Lula em uma eventual campanha eleitoral.

Lula segue sua toada no palco. “A elite pensa que vai impedir que eu seja candidato. Tenho 71 anos, mas estou com vontade de brigar como se tivesse 30”, diz, em tom emocional, com aquela voz rascante, que parece que vai sumir a qualquer momento. O ex-presidente é réu em cinco ações penais derivadas de operações contra a corrupção – três na Lava Jato, uma na Zelotes e outra na Janus. Foi condenado a nove anos de prisão pelo juiz Sergio Moro pelos crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro no caso do tríplex de Guarujá e espera um segundo julgamento no Tribunal Regional Federal. Se a sentença for confirmada, não poderá ser candidato a nada e poderá ser preso. Mas, em Picos, Lula está à vontade, nada disso importa ali. A praça de Picos é o Brasil dele, um universo de sonho, no qual Lula pode sair às ruas e dizer o que quiser. Entre 17 de agosto e a terça-feira, 5 de setembro, Lula percorreu num ônibus cerca de 4.200 quilômetros e visitou 27 cidades do Nordeste, sempre em ambientes favoráveis como o de Picos. Por 20 dias, ele frequentou palanques, sorriu, suou, vestiu chapéus de couro, tocou surdo e sanfona, abraçou e beijou todo mundo e fez discursos inflamados. Foi saudado em hotéis com músicas de campanhas passadas e com o bordão “Lula, guerreiro do povo brasileiro”. Em geral, eram pequenos públicos. Lula foi em busca de apoio, de cura para suas feridas jurídicas e de força para o futuro. Lula está novamente em campanha.

Chamadas nas rádios locais e em carros de som anunciavam a chegada de Lula em Ouricuri, no semiárido de Pernambuco, numa quinta-feira. Como em outras ocasiões, havia queima de fogos de artifício organizada pelo PT. Lula chegou de caminhonete e fez questão de visitar o prefeito Ricardo Ramos, do PSDB, em casa e levou-o ao palanque. “Mesmo sendo de outro partido, nós temos de reconhecer e ser agradecidos pelo que o senhor fez pela nossa cidade e nosso país”, disse Ramos diante da plateia. A pequena praça estava lotada. Em Ouricuri, mais de 11.310 famílias são beneficiárias do Bolsa Família, o equivalente a 46,1% dos 70 mil habitantes. “Se o PT e a Frente Brasil Popular quiserem que eu seja candidato, eu serei”, disse Lula, em sua velha tática para pedir uma ovação. Foi aplaudido por militantes e simpatizantes do PT com camisetas com dizeres como “#Lula Preso. No coração do povo” ou “Eleição sem Lula é golpe” e bandeiras vermelhas, mas também por pequenos agricultores e trabalhadores, moradores da cidade e das redondezas.

Lula discursa em Juazeiro do Norte (CE).Cidades que vivem do Bolsa Família foram seus principais palcos (Foto: Adriano Machado/ÉPOCA)

Com a voz ainda mais rouca e baixa, Lula desafiou o juiz Sergio Moro, milhares de quilômetros distante. “Se não encontrarem provas contra mim, terão de me pedir desculpas”, bradou. Com o presidente Michel Temer, Moro dividiu o posto de judas preferido de Lula em todos os seus discursos. Ainda distante das amarras das regras eleitorais, o comício terminou com um forró gospel. Lula foi embora para dormir na cidade vizinha, Araripina. Na entrada da cidade, no entanto, seu ônibus foi parado por um grupo com carro de som e bandeiras do PT. Lula desceu, recebeu flores e fez mais um discurso.

O Lula da estrada nem de longe lembra o Lula da memória recente dos brasileiros, o Lula de terno e gravata, cercado de advogados, incomodado, que responde pela metade a perguntas duras e incisivas do juiz Sergio Moro, num vídeo com imagens de média qualidade. Desde o início da Operação Lava Jato, que desnudou seu governo e o PT, Lula prometia “viajar o Brasil”, no que queria que soasse como uma ameaça aos investigadores. Fragilizado como nunca, Lula recorreu às raízes. Tenta repetir as Caravanas da Cidadania, uma série de viagens feitas entre 1993 e 1996, para reavivar sua força política.

A caravana percorreu 27 cidades no Nordeste, onde Lula ainda tem potencial de votos

A caravana foi planejada com estratégia para evitar constrangimentos e proporcionar apenas bons momentos. O Nordeste era a escolha óbvia como palco para o filme, devidamente registrado pela equipe do ex-presidente. A última pesquisa Datafolha, feita em junho, mostrou que mais de um ano antes da eleição Lula tem 48% das intenções de voto na região, em comparação com uma média de 30% para todo o Brasil. Nenhuma novidade. Historicamente,  o Nordeste salva as eleições do PT. No primeiro turno em 2006, Lula perdeu em São Paulo, mas tirou uma diferença de 10 milhões de votos no Nordeste no segundo turno. Em 2014, Dilma Rousseff ficou 4 milhões de votos atrás de Aécio Neves em São Paulo na primeira etapa, mas teve 11,5 milhões de votos a mais que o tucano nos estados nordestinos no final. O Nordeste é o maior celeiro de beneficiários de programas sociais associados aos governos petistas, em especial o Bolsa Família. Vinte das 27 cidades do roteiro eram pequenas e muito favorecidas por esses programas. O roteiro foi planejado cirurgicamente. Ao contrário do que houve nos anos 1990, desta vez Lula teve de escolher onde fazer campanha.

 Também teve mais conforto, afinal não é mais aquele político-sindicalista, é um ex-presidente, um político veterano. Ele e sua equipe viajaram em três ônibus leitos, cada um com 22 poltronas, banheiro, ar condicionado, Wi-Fi e mesas desmontáveis. Foram alugados em Salvador com seis motoristas que se revezavam nas cabines e trocavam a direção a cada quatro horas ou 120 quilômetros. Lula carregou quatro seguranças da Presidência da República a que tem direito como ex-presidente. Duas caminhonetes de cabine dupla acompanhavam os ônibus. Com exceção do Rio Grande do Norte, em todos os estados carros da Polícia Militar escoltaram o comboio. Por segurança e conforto, os trajetos eram feitos sempre durante o dia. Como nos tempos de Lula chefe de Estado, uma equipe precursora chegava antes às cidades para cuidar da organização. O PT cuidou também da imagem que deveria ser projetada. Levou jornalistas da agência de notícias do partido e uma van capaz de transmitir ao vivo os discursos de Lula para seu site. Fotógrafos e cinegrafistas do Instituto Lula registravam todos os momentos, inclusive com a ajuda de drones. Saíram de lá com horas de imagens para a futura campanha eleitoral, seja ela para empurrar Lula, um outro eventual candidato petista ou até mesmo para protestar contra uma condenação de Lula.
Família diante do ônibus de Lula,no Crato (CE) (Foto: Adriano Machado/ÉPOCA)

Olha ele aí/na rua, na luta de novo/É Lula, o Brasil e o povo/Lula, a gente nunca vai te abandonar/Lula, só você nos representa lá, dizia um dos jingles criados por marqueteiros do PT especialmente para a ocasião e tocados à exaustão antes de cada compromisso. Outra música difundida antes e depois dos comícios dizia: Os cães ainda ladram/mas a caravana passa, em alusão aos adversários políticos e à Lava Jato. Protegido por um corredor duplo de grades e tapumes que levava ao local do discurso, e acompanhado de seguranças pessoais e da Presidência, Lula foi anunciado pelo animador após as falas de diversos aliados em Juazeiro do Norte, no Ceará. A voz de Lula estava comprometida de tão rouca. Ele chegou a assoar o nariz no palanque, com sinais de um resfriado. A Rede Nacional de Médicas e Médicos Populares manteve uma equipe de médicos e enfermeiros à disposição de Lula. No sertão ressequido do Nordeste, Lula consumiu pastilhas de gengibre e própolis e teve de reduzir os discursos, dos costumeiros 15 ou 20 minutos do início, para cinco ou dez minutos, no máximo, no final.

Mulher assiste a discurso em Ouricuri (PE) (Foto: Adriano Machado/ÉPOCA)

Na região do Cariri cearense a plantação de algodão foi dizimada pelo besouro-bicudo há mais de dez anos. Após seis anos de seca não se vê sequer um rio correndo na terra esturricada e raros são os açudes que ainda guardam um pouco de água. No polígono formado pelos municípios do Crato, de Milagres, Brejo Santo, Jardim, Juazeiro e outras dez cidades, programas sociais e aposentadorias rurais hoje sustentam a economia local. Em Juazeiro, 19.347 famílias, o equivalente a 19,6% da população, vive do Bolsa Família. Numa noite quente, diante de uma pequena plateia, Lula foi agraciado com o título de doutor honoris causa da Universidade do Cariri, um dos seis que recebeu durante a viagem. Agradeceu lendo um discurso de sete minutos elaborado pela assessoria. Em seguida, tirou a beca e a cerimônia virou comício. “Eles acham caro a transposição do São Francisco, que vai custar R$ 9 bilhões, mas o Temer gastou R$ 19 bilhões em emendas de deputados para barrar a denúncia do procurador”, disse Lula, em alusão à manobra de Temer para manter-seno cargo. Essa era fácil: o Lula fortão batendo num Temer fraco.

Faixa em apoio a Lula em Ouricuri (Foto: Adriano Machado/ÉPOCA)

Em junho, o Instituto Vox Populi fez para o PT uma série de pesquisas qualitativas – aquelas nas quais pessoas com certo perfil são reunidas para uma discussão, sem saber o objetivo – em vários estados. Descobriu que os adeptos de Lula não consideram que a corrupção seja um defeito dele; acham que Lula é perseguido pela Justiça ou, no máximo, fez o que todos os políticos por aí fazem. Assim, diante de seu público, Lula não corria o risco de ser condenado como corrupto e poderia bater em outros corruptos. O problema é que a benevolência é exclusiva para Lula. Os pesquisados não acreditam naquela cascata recitada por parlamentares petistas, segundo a qual a crise econômica é culpa exclusiva do presidente Michel Temer. Os eleitores colocam parte significativa da culpa na ex-presidente Dilma Rousseff. Acham que Lula é sócio do fracasso de Dilma e, por isso, não confiam nas indicações dele. Lula, tudo bem; indicados por Lula, não. Por isso, Lula evitou falar em Dilma; nas poucas ocasiões que o fez, foi com alguma pequena crítica ou para citar o “golpe” que o PT diz ter sofrido.

 A notícia de que, depois de Dilma, Lula não tem mais o condão de eleger postes é ruim para o PT. Lula conviverá ainda por alguns meses com a dúvida se poderá ou não ser candidato a presidente da República pela sexta vez. Se não puder, poderá dizer-se injustiçado e terá de defender um candidato do PT. Mas já sabe que será dureza emplacar um novo afilhado. O ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad não gosta de ser chamado de plano B para 2018. Em rígido respeito ao manual do PT, Haddad afirma que “Lula é o plano A, B e C”. Mas desde que deixou o cargo, em janeiro, Haddad cumpre agenda pública. O PT sabe que, no momento, Haddad é a escolha de Lula caso ele mesmo não possa concorrer. Como Lula no Nordeste, Haddad tem feito aparições em seu ambiente predileto: com o figurino de professor, em aulas magnas, formaturas ou eventos de discussão. Haddad, que nunca gostou muito de dar entrevistas, passou a falar mais no segundo semestre. Passou a postar suas participações em eventos e a interagir com os internautas com mais frequência. Em maio, quando esteve no Brazil Forum, na Inglaterra, o ex-prefeito publicou o vídeo de sua fala por lá e comentou: “Mais uma excelente oportunidade para debatermos os rumos do nosso país”, disse. Frases assim só são ditas por quem pensa em ser candidato a presidente da República. Quase diariamente Haddad comenta o noticiário sobre São Paulo, num tom crítico, mas elegante, de oposição a João Doria, o tucano que o derrotou.
Petistas distribuem camisetas "Lula preso no coração do povo" (Foto: Adriano Machado/ÉPOCA)

Sabedor das dificuldades do PT, Lula se preocupou durante a caravana em ter parlamentares em seus comícios. “Você está trazendo energia à militância do PT que estava meio acanhada, meio triste”, disse a senadora Regina Souza, petista do Piauí, num discurso em Marcolândia, no semiárido do estado. Lula fez questão de mobilizar vereadores e prefeitos por onde passou e carregou consigo deputados, senadores e governadores petistas para os palanques. Ele sabe que o PT terá dificuldades para eleger deputados e senadores – e, se for malsucedido nesse desafio, vai desmilinguir-se no Congresso. Acusado de organização criminosa, com a marca da corrupção cravada em sua estrela pela Lava Jato, sem Lula o PT corre sério risco de cair no limbo. Por isso, ele faz o que pode enquanto pode fazer.

Pesquisa do PT mostra que adeptos relevam corrupção de Lula, mas não esquecem que Dilma foi um fiasco

Candidato à reeleição em 2018, o senador Humberto Costa, petista de Pernambuco, sabe quanto sua vida será difícil. Esteve em vários dos comícios de Lula. Em Ouricuri, ele lembrou a eficácia dos programas sociais dos governos petistas para fazer girar as economias locais. Nos municípios do Piauí foi a vez de o deputado federal petista Assis Carvalho discursar. Paciente, em cada comício Lula citava a presença de todos os políticos presentes, mesmo que fossem de regiões distantes, como a presidente do PT, senadora Gleisi Hoffmann, do Paraná, a deputada Benedita da Silva, do Rio de Janeiro, ou o líder da bancada petista na Câmara, Carlos Zarattini, de São Paulo. Parlamentares do PT de todas as regiões se revezaram na companhia de Lula durante a caravana. O ônibus se transformou em escritório político – ou mais exatamente em uma espécie de pré-comitê de campanha ambulante. Por lá passaram vereadores, prefeitos, deputados estaduais, federais e senadores, majoritariamente do PT, mas de vários outros partidos. Em Alagoas, Lula abraçou o senador Renan Calheiros, do PMDB, alvo de 17 inquéritos no Supremo. Em Ouricuri e Araripina, Lula foi acompanhado do deputado Silvio Costa, do PTdoB, o rouco defensor de Dilma Rousseff na votação do impeachment na Câmara.

Lula discursa em Marcolândia (PI) (Foto: Adriano Machado/ÉPOCA)

Depois de Juazeiro do Norte, Lula resolveu fazer um programa sentimental. Deixou os ônibus e a maior parte da assessoria, enfrentou de caminhonete um desvio não pavimentado de quase 30 quilômetros em uma estrada empoeirada para visitar Exu, cidade natal do sanfoneiro Luiz Gonzaga, que inspirou seu nome. Visitou o museu e o mausoléu do músico. Comprou uma camiseta com a foto de Gonzagão, que fez questão de vestir imediatamente e usar no palanque. A visita estava fora do roteiro original e oficial. Mas o PT local sabia da passagem-relâmpago e foi acionado para organizar um almoço-reunião com 12 prefeitos da região. Durante a manhã em Exu, carros de som anunciavam a presença do ex-­presidente no museu. Antes do almoço, Lula decidiu cumprimentar as cerca de 200 pessoas que o esperavam na porta e terminou fazendo um rápido discurso sob o sol escaldante do sertão. Até o improviso foi ensaiado. Belas imagens foram captadas para o futuro. Lula e o PT planejam outras caravanas. A próxima pode ser antes do final do ano, também em regiões que dependam de programas sociais, como o norte de Minas Gerais e o Vale do Jequitinhonha.

Na terça-feira, dia 5, Lula fez seu último discurso na caravana. “Eu não sei, companheiros, o que vai acontecer comigo. Só Deus. Eu não sei se eles querem impedir que eu seja candidato”, disse, gesticulando com a mão direita. “Uma coisa eles têm de saber: se eu for candidato, sou candidato para ganhar. Sou candidato para provar que um metalúrgico, torneiro mecânico, tem mais competência que grande parte da elite brasileira para recuperar o prestígio deste país, o crescimento econômico, a geração de emprego e a distribuição de renda.” Já era começo de noite. Enquanto isso, em Brasília, era divulgada a informação de que o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, entregara ao Supremo Tribunal Federal a denúncia na qual qualifica o PT como “organização criminosa” e Lula de “chefe” desta quadrilha. Àquela altura não havia mais cidades para Lula visitar, fazer campanha. No dia seguinte, o ex-ministro petista Antonio Palocci disse ao juiz Sergio Moro que Lula sabia do acordo com a Odebrecht para fornecimento de R$ 300 milhões de propina. Mais denúncias assim virão nos próximos meses. Dizer-­se candidato e perseguido politicamente é o que resta a Lula.

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