João Pessoa 19/07/2018 15:09Hs

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“Nem sei se serei candidato em 2018”, afirma Lula

Lula chega a Salvador e fará encontro com movimentos sociaEm entrevista exclusiva ao A TARDE, o ex-presidente Lula, que chega a Salvador nesta quinta-feira, 17, nega que a peregrinação política pelo seu principal reduto eleitoral faça parte de uma estratégia de construção de candidatura para a eleição de 2018.  Apesar disso,  o evento na capital baiana dá o start extraoficial da campanha de Lula, que percorrerá outros oito estados do nordeste. Além disso, o petista afirmou que “o PT sofreu um golpe” e que o DEM, do prefeito ACM Neto e do presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, “não está crescendo nas eleições. Está se beneficiando de um golpe”.

A política econômica dos governos Dilma fracassou e foi um dos impulsos para o impeachment. O senhor chegou a criticar a postura intransigente de Dilma na economia. Além disso, Ciro Gomes, que se coloca como alternativa ao senhor para 2018, tem tido posições fortes, de críticas ao mercado. O que exatamente o senhor faria na política econômica, hoje, se fosse presidente?

O Brasil não vai se recuperar economicamente sem um governo legítimo, eleito, com a credibilidade conquistada nas urnas. A falta de  legitimidade do governo e a instabilidade política trazem desconfiança para a sociedade. Quando assumi em 2003 a situação econômica do país era muito ruim, com desemprego alto e sem reservas internacionais. Oito anos depois, o Brasil já tinha crescido o dobro do período anterior, gerado 20 milhões de novos empregos, erradicado a fome e criado enormes oportunidades educacionais para a juventude. Quando entrei, o Brasil devia 20 bilhões de dólares ao FMI. Quando saí, tínhamos reservas de US$ 370 bilhões. Hoje, o país está em recessão, e o nosso maior trunfo, que é o mercado interno, está completamente deprimido. O desemprego atingiu patamares absurdos. O país precisa retomar o crescimento econômico com inclusão social, olhar com atenção para o seu mercado interno, oferecer crédito para os consumidores comprarem e as empresas investirem, ampliar seus mercados internacionais e concluir as obras que estão paradas. Isso com certeza dará novo impulso à economia. Não é cortando direitos dos pobres, dos trabalhadores e das classes médias, que são as pessoas que consomem, que vamos retomar o crescimento econômico.  Quanto a Dilma, que é uma pessoa digna e séria, e que foi afastada do poder de modo ilegal e injusto, é preciso lembrar que a política econômica do seu governo foi permanentemente sabotada pela oposição conservadora e pelas forças que queriam inviabilizar o seu governo para derrubá-la.

O PT sofreu um golpe. O DEM não está crescendo nas eleições. Está se beneficiando de um golpe

Lula, ex-presidente

 A reforma política que está se desenhando na Câmara, apesar de ser considerada tímida, torna o financiamento de campanha público, com um fundo de R$ 3,6 bilhões; cria a cláusula de barreira; e muda o modelo de eleição do proporcional para o distritão. Qual a posição do senhor sobre esses pontos? 

Não sei se o valor deve ser este, mas o PT sempre defendeu o financiamento público de campanha. A democracia não pode estar submetida ao poder econômico dos mais ricos. O Brasil hoje tem uma situação política muito complicada, com mais de 30 partidos, muitos dos quais sem nenhuma identidade programática. Para que a democracia funcione plenamente, é preciso que haja partidos verdadeiros, qualquer que seja a sua ideologia. As pessoas gostam de criticar os partidos, mas não há democracia sem eles. É importante que se as pessoas acham que a política está ruim, entrem na política para mudá-la. Porque se a maioria desiste da política, ela será governada pela minoria que gosta.

O senhor disse, lá atrás, que varreria o PFL do mapa. Depois, veio o DEM, e o PT perdeu espaço após a Lava Jato, o que inclui 60% das prefeituras e o cinturão vermelho em SP. O prefeito ACM Neto outro dia citou essa sua fala ironizando o PT. Hoje, o DEM cresce, e Neto deve ser o adversário do governador Rui Costa em 2018. Como o senhor avalia esse enfrentamento DEM x PT, após a quase extinção do PFL e o abalo eleitoral do PT?

É preciso lembrar que, naquela ocasião, o presidente nacional do DEM  declarou publicamente que iria extinguir a “raça petista”. O que eu disse foi que iríamos derrotá-los nas urnas  e derrotamos. Eleições você pode perder ou ganhar, e alternância de poder é normal na democracia. Mas o PT não perdeu a eleição presidencial. O PT sofreu um golpe. O DEM não está crescendo nas eleições. Está se beneficiando de um golpe. E cada vez mais pessoas percebem que o golpe não foi contra a Dilma, o Lula ou o PT. Foi contra seus direitos trabalhistas e previdenciários. Foi para cortar programas como o Farmácia Popular, Minha Casa, Minha Vida, o Fies e o Bolsa Família. Hoje muita gente percebe isso, que a vítima do golpe foi a própria população. E enquanto hoje nas pesquisas o PT aparece com 20% da preferência partidária, o DEM não aparece nem com 1%. Eu não sei se hoje o PT perderia tantas prefeituras, ou se no ano que vem o ACM Neto irá mesmo abandonar a prefeitura para tentar disputar o governo do estado contra um governador competente e bem avaliado.

O juiz Sérgio Moro, que o senhor acusa de perseguição política, diz que a força-tarefa provou imparcialidade ao implicar adversários do PT, como o senador Aécio Neves (PSDB), o presidente Michel Temer (PMDB) e o ex-ministro Geddel Vieira Lima (PMDB) e outros. A injustiça da qual o senhor reclama também vale no caso dos outros políticos afetados pela Lava Jato ou só se aplica nos seus processos? 

Eu não posso admitir, depois de 40 anos de vida pública, e oito anos como presidente do Brasil, que mintam sobre mim

Lula, ex-presidente

O que eu sei é que, no meu caso, eu já provei a minha inocência. Ela está provada no processo. Eu não sou dono do apartamento no Guarujá, e isso inclusive está dito na sentença do juiz. Nunca cometi nenhuma ilegalidade na minha vida. Eles não conseguiram apontar um ato ilegal meu como presidente. Isso depois de invadirem minha casa, vasculharem as minhas contas e da minha família, grampearem meu telefone, constrangerem mais de 150 delatores a citarem meu nome. Apesar disso, de não haver no processo uma única prova contra mim, o juiz me condenou.  Eu disse em meu depoimento que o juiz seria obrigado a me condenar após ter subordinado as decisões da Justiça à imprensa conservadora. Não há justificativa jurídica para isso, só política. Como o Jornal Nacional iria anunciar minha inocência após dezenas e dezenas de horas, durante anos, falando mentiras a meu respeito? Eu não posso admitir, depois de 40 anos de vida pública, e oito anos como presidente do Brasil, que mintam sobre mim, que ofendam a memória da minha esposa e me acusem de coisas que eu não fiz. Se outros fizeram coisas erradas, que respondam por seus erros. Caso haja provas contra eles, que sejam condenados. O que não é possível é que a Justiça aja de modo arbitrário para servir aos interesses antidemocráticos e antipopulares da Rede Globo.

A caravana do senhor pelo Nordeste é claramente uma construção da candidatura de 2018, ao mesmo tempo que grupos de esquerda constroem um programa alternativo. O senhor tem tido um discurso mais radical, mas terá que fazer uma coligação forte para as eleições, como fez nos outros anos com a direita, evangélicos e siglas fisiológicas do ‘Centrão’. Quais são as forças que devem compor a coalizão de 2018? O eleitor deve esperar uma nova Carta ao Povo Brasileiro ou será uma campanha diferente?

Não é construção de candidatura porque eu nem sei se serei candidato em 2018. Eu estou fazendo a caravana para reencontrar o Brasil e conversar com o povo, o que faço desde que comecei na política. Eu sempre fiz política conversando com as pessoas, olhando nos olhos, conhecendo a realidade de cada região, buscando soluções  para os problemas das pessoas e das comunidades. Infelizmente nossos adversários não reconheceram o resultado das eleições de 2014, promovendo uma sabotagem sistemática do segundo mandato da presidenta Dilma. Ao tirar uma presidenta eleita do poder, o maior prejudicado foi o trabalhador, foram as crianças, foram as verbas para educação, saúde e ciência. Foi o futuro do Brasil. O país precisa de eleições para ter um verdadeiro debate de  ideias e projetos  e dele nascer um governo legítimo e que corresponda às expectativas da sociedade.

A Tarde