João Pessoa 23/07/2018 17:23Hs

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‘Parecia que o mundo estava acabando’, diz sobrevivente em MG.

Em ginásio de Mariana, desabrigados contam histórias de horror e heroísmo

barragem 2Vitimas da tragédia estão provisoriamente em um ginásio da cidade de Mariana, a Arena Mariana, como a dona de casa Zélia Ana Batista 

MARIANA (MG) – As primeiras vítimas do rompimento de duas barragens que chegaram à Arena Mariana, no município mineiro de mesmo nome, a cerca de 100km de Belo Horizonte, narraram cenas de medo e heroísmo na madrugada desta sexta-feira. O ginásio está acolhendo desabrigados pela tragédia, que deixou pelo menos um morto.

— Começou um barulho e parecia que o mundo estava acabando – lembrou a dona de casa Zélia Ana Batista, de 58 anos, moradora de um dos distritos atingidos pela avalanche de lama e pedras.

A tragédia ocorreu na tarde de quinta, quando as barragens de rejeitos da empresa Samarco romperam. O número de vítimas ainda está sendo calculado, e as causas investigadas.

Zélia foi avisada pela Defesa Civil de que sua casa estava dentro da área de risco. Ela fugiu com o filho de 35 e conseguiu levar consigo apenas as roupas que vestia e documentos.

— Subimos um morro e lá em cima tinha um ônibus esperando. Perdi tudo: máquina de lavar, fogão novo, dois televisores, DVD… – contabiliza a mulher, que ficou viúva há um mês.

Funcionária de uma escola municipal em Bento Rodrigues, primeiro distrito a ser atingido, Lucinélia Euzébio, de 36 anos, contou que a tragédia revelou também histórias de heroísmo.

— O filho da minha vizinha, de 3 anos, foi salvo graças aos latidos desse cachorro, que é de um outro vizinho. Ele indicou onde o garotinho estava, e o pessoal tirou a criança de dentro da lama – disse, apontando um cão malhado que foi acolhido na Arena.

Segundo ela, mãe e filho foram encaminhados para um hospital local. Lucinélia afirmou que suas próprias filhas, duas meninas de 4 e 9 anos, foram salvas graças à sua irmã. A casa de Lucineia foi invadida pela lama sem que nem seus documentos pudessem ser encontrados.

barragem 1

De acordo com o guarda municipal Alisson Santos, dezenas de famílias ainda são esperadas na Arena, onde pilhas de roupas, sapatos, material de higiene pessoal e alimentos os aguardam. As doações foram feitas por moradores da região e empresas locais. Santos, que afirma ter visto um cenário “assustador” no local atingido, disse que muitas famílias ainda estão ilhadas e devem ser resgatadas apenas pela manhã.

ALTURA DA LAMA CHEGA A 3 METROS

– Eu só tenho isso aqui, ó! -, dizia Maria Irene de Deus, de 75 anos, puxando a camiseta suja que lhe cobria o corpo. A cerca de 100 metros dela, sua filha, Leila, de 50 anos, chorava copiosamente. Depois de uma noite ilhada em meio ao barro, as duas se reencontraram às 8h30 de hoje, no ginásio da cidade de Mariana.

Maria foi resgatado em um lance de sorte, quando um amigo passou com uma caminhonete e a levou na caçamba. Junto com outras 15 pessoas, Maria se abrigou próximo à Igreja Nossa Senhora das Mercês que, graças à altura do terreno, ficou de pé. Ao longo da noite, retroescavadeiras conseguiram abrir trilhas na lama, que em alguns pontos atinge mais de 3 metros e encobriu a maioria das casas do distrito de Bento Rodrigues.

O movimento de ambulâncias, carros e ônibus de resgate é intenso na manhã dessa sexta-feira. O ritmo de resgate de pessoas ilhadas aumentou graças à abertura de estradas em meio ao lamaçal. A cada ônibus de socorridos que chega, as pessoas que aguardam por notícias se lançam em frente aos veículos. Durante a madrugada, todo o trabalho tinha que ser feito de helicóptero, em um ritmo muito mais lento. Desespero e alívio se misturam conforme as notícias chegam.

 

– Minha mãe morreu! Minha mãe morreu – gritava aos prantos Marcelo José Felício, operário da Samarco, em frente à Arena. Felício afirma que trabalhava na barragem que rompeu apenas 20 minutos antes do acidente. Foi liberado porque “havia algum problema”, pra ir “cuidar da família”. Não deu tempo. A lama atingiu a casa de sua mãe, Maria, antes que ele chegasse. Até o meio dessa manhã, Maria não havia sido localizada pelas equipes de resgate. Felício tinha certeza de que ela estava morta entre os rejeitos das duas barragens rompidas.

Os sobreviventes descreviam cenas de horror, com crianças, adultos, animais sendo arrastados pela correnteza de areia, argila e água que compunha os rejeitos da barragem. Uma mãe, que aguardava o resgate do filho de 8 anos, disse que muitas pessoas se afogavam na mistura, vomitaram o rejeito que engoliam, gritavam por socorro. Muitos dos que se salvaram, passaram a noite em uma mata que circunda o bairro.

– Das mais de 180 casas de Bento, sobraram umas 30 em pé. Bento acabou, não vai ter nunca mais – disse José do Nascimento Jesus, presidente da associação de moradores do distrito e que também foi resgatado nesta manhã. Como os vizinhos, Jesus perdeu a casa que ele mesmo construiu, o carro, tudo o que tinha.

– Mas pra mim é uma nova data de aniversário, nasci de novo.

O Hospital Monsenhor Horta informou que será divulgado um boletim sobre o número de vítimas atendidas na unidade na manhã desta sexta-feira.

 O Globo