João Pessoa 22/06/2018 17:11Hs

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Retrospectiva 2014: o cenário econômico do ano da Copa e das eleições

joaquim levy 1Economistas previam um ano difícil para o desempenho econômico do país em 2014, com eleições e Copa do Mundo. Havia aumentado a apreensão em relação às contas públicas e ao desempenho da indústria. Para completar, o mercado internacional não ia nada bem. Mas todos concordavam que o ano não seria marcado por nenhuma “tragédia”.  No decorrer, contudo, veio a recessão técnica, e as projeções foram ficando cada vez mais pessimistas — ingredientes perfeitos para a oposição na disputa eleitoral, que não poupou esforços para sugerir as “fórmulas perfeitas”. Na reta final, o PIB deve terminar o ano no azul, mas o cenário deixa desafios e cuidados importantes a serem tomados no próximo ano.

O ano de 2014 também ficou marcado pelo anúncio da criação do Novo Banco de Desenvolvimento dos Brics e do Acordo Contingente de Reserva do grupo, em uma tentativa de fortalecer o poder econômico da China, da Rússia, do Brasil, da Índia e da África do Sul. Foi também o ano das perdas das ações da Petrobras, no rastro da Operação Lava Jato. A estatal, contudo, conseguiu seu recorde de produção diária de petróleo e gás natural liquefeito (GNL), com 2,29 milhões de barris, superando a marca de 2010.

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Foi o ano ainda da fusão entre a Oi e a Portugal Telecom, que gerou prejuízo à empresa brasileira devido ao calote de 897 milhões de euros que sua parceira portuguesa recebeu de uma empresa do Grupo Espírito Santo. A brasileira chegou a ficar de fora do leilão 4G. Houve também o julgamento de Eike Batista por crimes contra o mercado financeiro. A MMX, empresa do ramo de mineração, entrou com pedido de recuperação judicial e a OGX, agora OGPar, passou definitivamente para as mãos dos credores. Houve a queda nos preços do petróleo, influenciada também pela menor demanda mundial a partir do baixo crescimento das economias.

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Quando o ano começou, a economia chinesa, dos Estados Unidos e da Europa não davam sinais muito animadores. No primeiro trimestre, os Estados Unidos registraram uma queda de 2,9%, confirmando que sua recuperação ainda seria lenta (no final do ano, contudo, o país teve uma crescimento de 5% no terceiro trimestre, após revisão, o maior resultado do país nos últimos 11 anos). A China e a Europa tampouco apontavam retomada no curto prazo. Conforme destacou o professor Alex Luiz Ferreira, professor da Universidade de São Paulo (USP), ao contrário do que se pensava, o Brasil não se desconectou de forma alguma das economias centrais, principalmente da China, com quem tem laços comerciais muito fortes, e com Estados Unidos e Europa, pelos laços financeiros.

“As economias estão muito conectadas. Se houver uma desaceleração lá fora, isso vai impactar o Brasil. Isso ocorreu em 2009. Só que, naquela época, existia a possibilidade de incentivar a economia doméstica com política monetária e política fiscal, mas os sinais dos últimos anos demostram que esses canais foram enfraquecidos. Agora há uma possibilidade menor de realizar uma política expansionista”, explicou Ferreira na ocasião.

O professor de Economia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Francisco Lopreato, ajudou a resumir a situação: “A questão é: Nós vamos crescer puxados por onde? O setor externo está difícil, o setor público, difícil – a situação não está muito favorável nas contas públicas para que o Estado amplie seus gastos; a indústria não promete muita coisa, não há perspectiva para que ela venha a ter um comportamento muito significativo no ano que vem, a ponto de trazer grande impacto no PIB. Só temos as concessões, e não sei se elas garantem uma melhora por si.” Com a disputa eleitoral, “ninguém quer se aventurar diante do quadro de incerteza que se criou”.

No início de junho, a divulgação do acréscimo de apenas 0,2% do PIB no primeiro trimestre (que ainda poderia ser revisado para uma taxa negativa), aliado à queda de 0,8% da indústria, retração do consumo das famílias em 0,1% e queda de 2,1% nos investimentos, entre outros dados, gerou expectativas pessimistas, com analistas reforçando as chances do PIB ficar negativo em dois trimestres seguidos – devido a resultado negativo no terceiro trimestre ou no primeiro, após uma revisão de seu desempenho, com o índice negativo do segundo trimestre já quase dado como certo. A queda do PIB em dois trimestres consecutivos determinaria a “recessão técnica”.

Cenário econômico e a Copa do Mundo prejudicaram as vendas no varejo em junho
Cenário econômico e a Copa do Mundo prejudicaram as vendas no varejo em junho

Veio a Copa. No início de julho, a Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) ressaltou que o cenário econômico e a Copa do Mundo prejudicaram as vendas no varejo. O comércio do Rio, por exemplo, fechou o mês de junho com menor crescimento em oito anos para o período, de acordo com dados do CDL-Rio.  “O mês de junho, que sempre foi aquecido pelas vendas do Dia dos Namorados, uma das datas fortes do comércio, este ano teve queda no crescimento, coincidindo com o jogo entre Brasil e Croácia, que abriu o Mundial. Além disso, o inverno fraco não ajudou nas vendas do comércio, também colaborando para  2,4% de crescimento, o menor dos últimos oito anos”, avaliou o presidente do CDL-Rio, Aldo Gonçalves, na ocasião.

O Mundial, entretanto, teve pontos positivos, apesar da redução da jornada de trabalho, que afetou a indústria e o comércio, devido aos feriados criados para o evento. O setor de serviços foi estimulado, principalmente os hotéis e restaurantes.

No final de agosto, o que o mercado e economistas projetavam se confirmou. O Brasil registrou a “recessão técnica”. O desempenho do PIB no primeiro trimestre foi revisado para uma queda de 0,2% no PIB, e o do segundo trimestre caiu 0,6%. A indústria de transformação e de construção civil estavam em queda constante há quatro trimestres consecutivos. “Pior não poderia ser”, ressaltou o ex-ministro do Planejamento e presidente do Fórum Nacional (Instituto Nacional de Altos Estudos – INAE), João Paulo dos Reis Veloso, em conversa com o JB por telefone.

Com a chegada das eleições, resultados de pesquisas de intenção de votos impactavam na Bolsa e no humor dos agentes econômicos na hora de investir e movimentar a economia. Conforme explicou Rafael Cortez, cientista político da Tendências Consultoria, ao JB, o desempenho da economia e as eleições são uma via de mão dupla. Expectativas acabam afetando o humor dos agentes econômicos, fenômeno típico de países em desenvolvimento, o que acaba colocando alguns pilares da política econômica em risco. “Nos países avançados, esses são dilemas resolvidos. Já que têm instituições econômicas sólidas, ficam relativamente protegidos da alternância de governos.”

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A bolsa brasileira, então, virou alvo fácil para grandes agentes do mercado financeiro. No primeiro turno, se Marina Silva subia nas pesquisas, seguia o mesmo ritmo o Ibovespa. No segundo, foi a vez de Aécio Neves assumir o papel de esperança do mercado financeiro. Os dois significavam uma mudança em relação à política econômica atual, um retorno a uma posição conservadora. A presidente Dilma, em setembro, chegou a ressaltar em coletiva quando questionada sobre o desempenho da bolsa: “Eu acho que está ficando ridículo. Especulação tem limites. Tem alguém ganhando com isso e não sou eu.”

“A história do Brasil está recheada de casos em que agentes financeiros aproveitaram os momentos eleitorais para apoiar explicitamente algum candidato, gerando profunda instabilidade nos mercados e auferindo ganhos financeiros das ondas especulativas criadas por suas próprias análises e declarações”, alertou o economista Guilherme Santos Mello, pesquisador do Cecon-IE/Unicamp e professor da Facamp, em artigo intitulado Mercado financeiro, especulação e processo eleitoral.

Após a vitória apertada de Dilma Rousseff nas urnas, nomes como Maria da Conceição Tavares, Luiz Gonzaga Belluzzo, João Sicsú e Marcio Pochmann assinaram um manifesto contra o pensamento único que estaria sendo veiculado pela imprensa tradicional, de que a austeridade fiscal e monetária seria a única solução para o país. Eles dissertaram sobre os perigos de um reforço da austeridade, a necessidade de manter as taxas de juros reais em níveis baixos e de apresentar um regime fiscal comprometido com a retomada do crescimento.

Joaquim Levy (C) foi a escolha do governo para o Ministério da Fazenda, sinalizando para maior cuidado com as contas públicas
Joaquim Levy (C) foi a escolha do governo para o Ministério da Fazenda, sinalizando para maior cuidado com as contas públicas

Na hora de o governo definir os líderes do Ministério da Fazenda e do Ministério do Planejamento no segundo mandato, nomes mais ligados ao programa desenvolvimentista do governo e outros que representavam maior austeridade e aproximação do mercado começaram a surgir. No fim das contas, Joaquim Levy, que não aparecia em nenhuma lista de cotados a princípio, surgiu como favorito e levou o Ministério da Fazenda. Nelson Barbosa, que era um dos principais cotados ao posto, foi para o Ministério do Planejamento.

Joaquim Vieira Ferreira Levy, doutor em Economia pela Universidade de Chicago (1992), já trabalhou no FMI, no Banco Central Europeu, foi secretário-adjunto de Política Econômica do Ministério da Fazenda e economista-chefe do Ministério do Planejamento do governo de FHC, e secretário do Tesouro Nacional no governo Lula. “A gente tem que olhar os gastos, os diversos gastos que já foram feitos, estancar alguns, reduzir outros. E, na medida do necessário, a gente pode considerar algum ajuste de impostos, sempre olhando a compatibilidade com aquele objetivo que a gente falou: de aumentar nossa taxa de poupança. É muito importante o Brasil poupar um pouco mais para poder investir mais e também estar preparado para este mundo, que nos últimos dias, inclusive, está claro, está mais turbulento”, disse Levy em entrevista à TV em meados de dezembro.

Um pouco depois do anúncio de Levy e Barbosa, veio a alteração do superávit. A aprovação do projeto de lei que desobriga o governo a cumprir metas de superávit primário neste ano gerou fortes reações, apesar do histórico de alterações nos últimos 20 anos. Na ocasião, o Francisco Lopreato apontou para a necessidade de continuidade dos investimentos para manter a economia funcionando, mas ressaltou a necessidade da adoção de cuidados com as contas públicas, levando em conta a trajetória de alta dos últimos anos, apesar de alertar que um “arrocho” nas contas só pioraria o cenário.

“O governo não perdeu o controle dos gastos, o que ele fez foi, como a economia deste ano desacelerou bastante, tentar evitar uma desaceleração ainda maior, sustentando um nível de gasto importante. Tentou manter o nível de investimentos. Poderia ter cortado o nível, mas aí a queda do PIB ainda seria maior, então a opção foi sustentar, apesar da evidente queda da arrecadação, provocada por uma política de que não deu certo, de desonerações”, explicou Lopreato.

A expectativa dos mais pessimistas, no final de 2013, era que o país crescesse em torno de 1,8% neste ano. A balança comercial também melhoraria e a inflação ficaria em torno de 6%. Já próximo do fim do ano, o boletim Focus publicado no dia 19 apontava para um crescimento de 0,13% do PIB e inflação de 6,38%, queda de 2,5% na produção industrial, e balança comercial com um déficit de US$ 1,8 bi. Já o Banco Central revisou sua projeção de crescimento do PIB de 0,7% para 0,2% no dia 23 de dezembro.

Sobre a situação internacional, em artigo publicado no início de dezembro, Paul Krugman, Nobel de Economia, resume a situação dos Estados Unidos e da Europa: “A economia americana parece estar finalmente saindo do buraco profundo no qual entrou durante a crise financeira mundial. Infelizmente, a Europa, o outro epicentro da crise, não pode dizer o mesmo. O desemprego na zona do euro ficou estagnado em quase o dobro do nível americano, enquanto a inflação se mantém bem abaixo da meta oficial e a deflação é um risco cada vez maior.”