João Pessoa 20/07/2018 05:08Hs

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Rússia se diz ameaçada por ataques na Síria: ‘Insultar Putin é inaceitável’

Moscou afirma que EUA 'não têm moral para culpar outros países' com arsenal químico

Em novembro de 2017, presidente russo, Vladimir Putin, e seu homólogo americano, Donald Trump, caminham lado a lado no Vietnã – JORGE SILVA / AFP

WASHINGTON, RIO E MOSCOU – A Embaixada da Rússia em Washington protestou contra os ataques conjuntos de EUA, França e Reino Unido ao que seriam instalações do programa de armas químicas da Síria. Moscou acusou os países ocidentais de ameaçarem Damasco e seu próprio governo.

“Nossos avisos foram ignorados”, protestou em nota a Embaixada da Rússia nos EUA. “Um cenário pré-desenhado está sendo implementado.” “Insultar o presidente da Rússia é inaceitável e inadmissível. Os EUA – donos do maior arsenal de armas químicas – não têm moral para culpar outros países”, continuou.

No comunicado, o embaixador Anatoly Antonov adverte que “estas ações não ficarão sem consequências. Toda a responsabilidade cai sobre Washington, Londres e Paris.”

A porta-voz do Ministério das Relações Exteriores russo, Maria Zakharova, escreveu no Facebook: “Os que estão por trás de tudo isto afirmam ter a liderança moral no mundo e declaram ser excepcionais, e realmente têm que ser muito excepcionais para bombardear a capital da Síria no momento em que havia a oportunidade de se ter um futuro pacífico”.

Negociador-chefe da oposição síria no exterior, Nasra al-Hariri pediu um fim a todos os tipos de ataque pelo regime, não só químicos.

“Talvez o regime não use armas químicas de novo, mas não hesitará em usar armas que a comunidade internacional lhe permitiu usar, como bombas de barril e bombas de fragmentação”, escreveu al-Hariri no Twitter.

 

O secretário-geral da Otan, Jens Stoltenberg, manifestou neste sábado seu apoio aos bombardeios de Estados Unidos, França e Reino Unido.

“Isto vai reduzir a capacidade do regime de voltar a atacar o povo da Síria com armas químicas”, disse o secretário-geral da aliança militar em um comunicado divulgado após o anúncio da operação.

David Schultz, professor da Hamline University, em Minnesota, afirma que há um grande potencial de piora da situação global.

Washington e Moscou. Agora não vemos muita disposição ou estratégia para isso.

Erick Langer, professor de história da Georgetown University, afirma que este anúncio de Trump, com muito mais pompa que no ataque à Síria há um ano, pode fazer parte de uma estratégia para minimizar seus graves problemas internos.

— Essa é uma regra clássica, quando um presidente está com graves problemas internos inicia uma guerra — afirmou. — Essa nova crise externa é muito conveniente para Trump.

ENTENDA

O presidente Donald Trump anunciou na noite desta sexta-feira o ataque militar à Síria, em represália ao suposto ataque com armas químicas lançado no último sábado contra Douma, na região de Ghouta Oriental, subúrbio de Damasco. Os Estados Unidos e vários países ocidentais culparam o regime de Bashar al-Assad pelo ataque. Segundo o secretário da Defesa americano, James Mattis, o ataque foi único, “preciso” e limitado a alvos relacionados ao que seria o programa de armas químicas do regime de Assad, e que se procurou reduzir o risco de envolvimento de forças da Rússia, que apoiam Damasco.

Em pronunciamento pela TV, Trump disse que os ataques tiveram o apoio militar da França e do Reino Unido. Ele se dirigiu diretamente ao Irã e a Rússia, que apoiam o governo de Bashar al-Assad, e perguntou “que tipo de nação quer estar associada diretamente com matanças massivas de homens, mulheres e crianças”.

— A pergunta que eu faço ao Irã e e à Rússia é que nação quer estar associada a um regime que mata mulheres, crianças e homens de forma massiva? Em 2013 Putin prometeu ao mundo que iria acabar com os ataques químicos na Síria e fracassou. Talvez possamos agir junto com a Rússia.

Míssil americano corta o céu de Damasco: EUA, França e Reino Unido lançam ataque contra instalações de armas químicas na Síria – Hassan Ammar / AP

A primeira-ministra britânica, Theresa May, em um comunicado, disse que o objetivo da ofensiva não é interromper a guerra civil que entrou em seu oitavo ano na Síria nem derrubar o regime de Assad. Segundo ela, é um ataque limitado, com a intenção de poupar a população civil. Logo em seguida, o presidente da França, Emmanuel Macron, disse que era uma ofensiva restrita ao “arsenal químico clandestino” da Síria.

Logo depois do anúncio de Trump, seis explosões foram ouvidas em Damasco. O ataque acontece a partir de navios e aviões de combate, que no entanto não entram no espaço aéreo sírio, segundo a emissora CNN. Segundo a agência Reuters, foram usados mísseis de longo alcance Tomahawk.

  • Pessoas fogem do Kosovo em meio a conflitos em 1999 Foto: Goran Tomasevic / REUTERS

    Kosovo

    Com a repressão sérvia contra os separatistas albaneses na província de Kosovo, a Otan fez bombardeios sem autorização da ONU em 1999 e forçou a Sérvia, aliada russa, a se retirar. Moscou congelou a cooperação com a Otan. A tensão renasceu com a independência do Kosovo (2008), não reconhecida por Moscou.

A TV estatal síria disse que as defesas aéreas do país estavam reagindo ao ataque. Outra testemunha, citada pela agência Reuters, disse que um dos locais atacados foi o distrito de Barzah, onde fica um centro de pesquisa científica. O Observatório Sírio de Direitos Humanos, ONG de monitoramento da guerra baseada em Londres, disse que três centros de pesquisa científica foram atingidos no ataque, dois em Damasco e um Homs. Além disso, teriam sido atingidas bases de unidades de elite das Forças Armadas sírias, como a Guarda Republicana e a 4ª Divisão.

O chefe do Comando Conjunto dos EUA, general Joe Dunford, disse que os alvos foram escolhidos de modo a “reduzir o risco de envolver as forças russas” que apoiam militarmente Assad.

Forças oponentes na região
Várias bases podem ser usadas para
ataques ou virar alvos
Detalhe
Bases aliadas
200km
N
Base aérea de Incirlik
 
Base aérea de Akrotiri
 
Mísseis Patriot da Otan
 
TURQUIA
CHIPRE
Frota liderada pelo porta-aviões USS Nimitz
 
KUWAIT
SÍRIA
MAR
MEDITERRÂNEO
Base militar Ali a-Salem
JORDÂNIA
Destróier USS Donald Cook teria partido de Chipre, equipado com 60 mísseis de cruzeiro Tomahawk
BAHREIN
EMIRADOS
ÁRABES
Base militar Sheikh Isa
Base militar al-Dhafra
 
QATAR
Base militar al-Dhafra
(FRA)
 
Esquadrão de caças F-16 dos EUA
Mísseis Patriot dos EUA
al-Udeid, base de operações de bombardeiros B-1
 
2.000
AS FORÇAS RUSSAS
Posições dos EUA e aliados
3.000
Soldados
americanos
estão na síria
Posições da Rússia
Efetivo
Posições do Irã e aliados
Militares nas bases
Turquia
Base Naval de Tartus
mísseis
S-300
SÍRIA
Base Aérea de Hmeimim
SÍRIA
mísseis
S-400
LÍBANO
(Além de Pantsir e TOR M1)
Douma
Local do suposto
ataque químico
Irã
33 aviões
Ao menos
Jordânia
Israel
100km
Com capacidade de disparar mísseis, explosivos guiados a laser e bombas de fragmentação.
 
Fontes: Guardian, Business Insider, Syria Live Map, Sputnik e New York