João Pessoa 23/06/2018 11:57Hs

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Crise econômica deve afetar mercado de trabalho de forma clara, diz especialista

Cenário prejudica qualidade dos empregos, com reflexo nas negociações de sindicatos

CONSTRUÇÃO CIVILAo contrário do que aconteceu até agora, a crise econômica deve afetar o mercado de trabalho brasileiro de forma clara em 2015, destaca Marcelo Weishaupt Proni, professor e diretor associado do Instituto de Economia da Unicamp, em conversa com o JB. Haverá impacto no número de empregos ao longo do ano, assim como na qualidade deles. Os sindicatos, por exemplo, podem assistir a uma menor capacidade de pressão em negociações, e dificuldades para manter o que já foi conquistado. Os jovens seriam os mais afetados, pelo maior esforço para inserção no mercado.

Nesta semana, a Pesquisa Industrial Mensal de Emprego e Salário (Pimes) do IBGE revelou queda de 0,1% na produção industrial de janeiro, comparada ao mês anterior. Mas, em relação a janeiro do ano passado o recuo foi mais acentuado, de 4,1%. Para explicar o que leva o cenário macroeconômico atual a gerar impactos maiores que crises anteriores, Proni destaca a diferença entre uma crise conjuntural e uma crise estrutural na economia.

Setor de construção civil, por exemplo, já teve começo de ano muito ruim
Setor de construção civil, por exemplo, já teve começo de ano muito ruim

Da mesma forma que ocorre quando a economia está crescendo, em momentos de baixa na atividade econômica, os empresários esperam para verificar se aquele movimento deve persistir. “Existe um delay entre o movimento do PIB, o comportamento da atividade econômica, e o seu reflexo no mercado de trabalho.” As perspectivas atuais, contudo, são mais severas.

Quando se trata de uma crise econômica conjuntural, quando você tem uma desaceleração, as empresas não demitem imediatamente, elas aguardam uma retomada. Nos últimos anos, o Brasil teve uma trajetória de crescimento sustentado. Com a crise de 2008, houve um período de recessão e a resposta veio relativamente rápido, o impacto no mercado de trabalho foi pequeno, considerando o cenário mundial. Em 2010, já havia uma perspectiva muito positiva. “Isso é uma crise conjuntural, que é absorvida e você continua numa trajetória de crescimento.”

Nos últimos quatro anos, apesar da desaceleração, o desemprego continuava caindo e o rendimento médio aumentando, porque havia ainda um conjunto de circunstâncias positivas. A necessidade de ajustar as contas públicas agora, entretanto, gera efeitos recessivos, com forte impacto na expectativa empresarial, na maioria dos ramos de atividade econômica, em relação ao que é esperado para os próximos dois anos.

“Com esse horizonte, a tendência é que você vai abortar aquele processo de desenvolvimento econômico que vinha desde a década passada. Então, não se trata simplesmente de um movimento conjuntural desfavorável, a dúvida que a gente passa a ter é se vai ser possível sustentar ou retomar, daqui a algum tempo, aquela trajetória de crescimento sustentado. E isto, no momento em que governo tem que cortar gastos, e também a iniciativa privada adia investimentos, certamente vai ter um impacto no mercado de trabalho”, salienta Proni.

Apesar de ainda ser difícil de mensurar o peso disso, devido também a questões sazonais e ao impacto, como no caso da construção civil, da situação de grandes empreiteiras, está claro para a maioria dos especialistas, indica o professor, que ao contrário do que aconteceu até o ano passado esta crise econômica de agora deve afetar o mercado de trabalho de forma clara. O setor de comércio e de construção civil, por exemplo, já tiveram um começo de ano muito ruim, e muitos ramos industriais vêm num processo de redução de postos.

O país deve ter uma elevação da taxa de desemprego aberto ao longo do ano, que pode não ser tão forte, mas que existirá. O impacto também poderá ser visto de outras formas, como na qualidade dos empregos. Muitas vezes, quando a situação piora, piora principalmente para os jovens, pela sua dificuldade de inserção no mercado de trabalho.

“Quando você tem uma crise assim, geralmente aumenta a informalidade, aumentam estratégias de sobrevivência nos grandes centros urbanos. Então, essa piora na qualidade dos empregos provavelmente vai ser sentida ao longo do ano. A outra coisa é que os sindicatos, geralmente, veem diminuída sua capacidade de pressionar a negociação. Provavelmente, vão ter dificuldades crescentes para negociar reajustes, para manter determinadas conquistas”, aponta.

O real desvalorizado como está, por outro lado, pode ser uma esperança para a indústria nacional, com a restauração de forças de determinados setores exportadores. O problema é que muitas empresas passaram a produzir com insumos importados. Seria preciso restaurar a capacidade de produzir internamente ou se adaptar a essa nova taxa de câmbio, o que aumenta o custo de produção e pressiona a redução de gasto em outro custo, como com os salários.

“Nossas regras protegem o trabalhador por um tempo de no máximo seis meses. Esse seguro desemprego funciona quando a economia está bem, quando a economia está aquecida, que é para permitir transição de um emprego para outro. Num período de recessão, o seguro de desemprego se torna muito mais importante como um mecanismo de proteção dos trabalhadores. O seguro desemprego que a gente tem hoje no Brasil é muito limitado, não abarca esse problema de longa duração”, ressalta.

As mudanças atuais no seguro desemprego, para Proni, ajudam a reduzir gastos do governo, mas podem fragilizar ainda mais os trabalhadores mais vulneráveis. Sobre outras medidas de ajuste fiscal, ele diz que o ideal seria ter claro quanto esse movimento deve durar. “Era necessário fazer um ajuste, mas não desta maneira como está sendo feito”, acredita.

JB