João Pessoa 21/06/2018 12:17Hs

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Dólar alto muda rotina de brasileiros que estudam no exterior

Moeda chega a 3,30 e estudantes são obrigados a cortar custos com alimentação e moradia — e até mesmo antecipar a volta ao Brasil

universitário no exteriorCampus da Universidade de Harvard: dólar alto muda vida de brasileiros no exterior

Muitos estudantes brasileiros que viajaram ao exterior para fazer cursos de idiomas ou de especialização começam a rever seus planos. Com a recente disparada do dólar, que chegou esta semana aos 3,30 reais, os viajantes dizem adeus às mordomias e economizam tudo o que podem para não verem o sonho de viver em outro país se desmanchar.

Natalia Saj, estudante de publicidade, viajou a Toronto para estudar marketing, jornalismo e línguas. Ao se dar conta do caos cambial, viu-se no lucro ao constatar o valor inferior da moeda canadense: 2,57 reais. A surpresa veio com a fatura do cartão de crédito: em dólar americano. “Pesou muito no bolso do meu pai”, diz. Supérfluos foram cortados. “Uma cerveja no bar, por exemplo, custa 15 reais e um maço de cigarros, 30 reais”, analisa. Viagens no finais de semana também saíram dos planos. “Eu ia para Washington; uma amiga mora lá, mas a passagem, mesmo sendo barata, vai sair um absurdo quando eu converter para o real”, conta.

A 500 quilômetros dali, no estado de Michigan, nos Estados Unidos, o cenário não é diferente. Júlio Wehba, que estuda Ciências Ambientais na cidade de Adrian, diz que sequer sobra dólares para comprar roupas que meses atrás apresentavam um bom custo-benefício. “Não vale mais a pena. Agora os preços estão muito parecidos com os que são cobrados no Brasil”, explica. O jeito foi pensar em diferentes maneiras de driblar a situação. Uma delas foi economizando os mínimos centavos – até mesmo com lavagem de roupa. “Quarter [25 centavos de dólar] é a coisa mais valiosa na faculdade, por isso eu espero esgotar minhas roupas para lavá-las”, conta. Para ele, viagens também sumiram da rotina. “Iria passar dois dias em Chicago com um amigo, mas já desisti da ideia”.

Julio Wehba
Julio Wehba: economia de gastos com alimentação, compras e até lavagem de roupa(Arquivo Pessoal/Reprodução)

Aos finais de semana, Júlio evita sair para comer, mas quando sai procura alternativas baratas. “A partir das 21 horas, alguns restaurantes vendem aperitivos pela metade do preço.” Para poder jantar, o estudante chegou a comprar um pacote com 15 donuts por 2 dólares. “É deixar de comer saudável para comer bobagem por um preço menor”, explica. Já a publicitária Natalia almoça comida congelada de 99 centavos de dólar. No jantar, a brasileira come a comida preparada pela dona da casa onde fica. Às sextas-feiras, depois que termina sua aula e munida de uma mala, Natalia viaja 12 estações de metrô até o Walmart mais perto de sua casa para comprar comida barata e abastecer o armário.

Para diminuir o preço semestralidade, Júlio vai deixar de morar na faculdade para dividir um apartamento com três amigos. O dormitório em que mora hoje custa 4.650 dólares por semestre. Com a mudança, vai passar a pagar 4 mil dólares, ou seja, mais de 2 mil reais de economia. Quando pagou o primeiro mês de estadia, em janeiro, Natalia desembolsou aproximadamente 1,7 mil reais pelo mês de fevereiro. Agora, quando teve que renovar o contrato para março, o aluguel passou a 2,3 mil reais, uma alta de 35,29%. A disparada a fez considerar adiantar a volta para o Brasil. Mas Natalia resolveu não desistir. “Vou ficar porque já paguei o curso. Não vale a pena cancelar”, explica a publicitária, que conta com a ajuda paterna para manter-se no exterior. “Ele quer que eu aproveite tudo, mas sem abusar.”

Jomara Lopes
Jomara Lopes: disparada da moeda acarretou na volta antecipada ao Brasil (Arquivo Pessoal/Reprodução)

Mas nem todos conseguem carregar o fardo da imprevisibilidade do valor da moeda americana. É o caso de Jomara Lopes, estudante de Relações Públicas que ficou seis meses em Fort Lauderdale, na Flórida, e planejava aumentar a permanência. Com a alta da moeda e a impossibilidade de trabalhar para conseguir fazer frente à subida dos gastos fizeram com que o plano fosse cancelado. “Faria o TOEFL [teste de proficiência em inglês] para cursar faculdade de Psicologia lá, mas o dólar subiu muito. Como o visto de estudante não permite que a gente trabalhe, não consegui continuar”, conta. Ela explica que quando planejou o intercâmbio programou os gastos para cobrir os seis meses de duração da viagem, mas foi surpreendida. “Quando comprei, em agosto do ano passado, o dólar estava 2,37 reais. Não esperava essa alta”, diz a brasileira que, desde novembro, começou a usar o cartão de crédito internacional para bancar estadia e alimentação, o que fatalmente pesou no orçamento.

Durante o tempo em que ficou em Fort Lauderdale, Jomara tomava café da manhã reforçado e, para economizar no almoço, comia em redes de fast food. Na estadia, também teve de cortar gastos: deixou de pagar 1,3 mil dólares por mês e começou a morar com outros quatro estudantes, o que fez com que o aluguel caísse para 800 dólares.

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