João Pessoa 17/08/2018 07:10Hs

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Risco-país cai 42% no ano, mas nível baixo em 2018 depende da Previdência

Cenário externo benigno colaborou - Melhora econômica do país também - Eleições devem causar incertezas

Presidente Michel Temer, Sen. Eunicio Oliveira, Min. Henrique Meirelles e o mininstro Eliseu Padilha, durante encontro com representantes dos empresários e Centrias Sindicais. Brasilia, 12-09-2017 Foto: Sergio Lima.

Risco-país caiu em 2017, mas desempenho em 2018 depende de reforma da Previdência

O principal indicador utilizado para medir o risco de crédito a que investidores estrangeiros estão submetidos quando investem no Brasil, o CDS (Credit Default Swap), recuou 42,3% em 2017. O risco-país, como é conhecido, passou de 281 pontos no final de 2016 para 162 pontos em 28 de dezembro de 2017.

O CDS é uma espécie de seguro contra calotes. Quanto maior a probabilidade de falência, maior será seu prêmio. Logo, quanto menor o valor do CDS, mais seguro para investir é considerado o país.

Na avaliação de economistas ouvidos pelo Poder360, o ambiente internacional favorável aos mercados emergentes e a recuperação gradual da economia brasileira, que fez com que confiança no país crescesse, estimularam a queda do risco-país neste ano. Mas não é certo que ele permaneça em patamares baixos em 2018.

O pesquisador da área de Economia Aplicada do Ibre (Instituto Brasileiro de Economia) da FGV (Fundação Getulio Vargas) Marcel Balassiano explica que o risco-país é impactado tanto por fatores externos como domésticos.

No cenário doméstico, a recuperação da economia –com taxa de juros no patamar mais baixo da história, inflação encerrando o ano abaixo do piso da meta, desempenho acima do esperado para a safra de grãos e crescimento econômico nos 3 últimos trimestres– aumenta a confiança de investidores estrangeiros e alimenta as esperanças de uma retomada das atividades.

Para o ano que vem, o principal risco no radar é a não aprovação da reforma da Previdência, cuja votação está marcada para 19 de fevereiro. Para garantir os 308 votos necessários para que o texto vá ao Senado, o presidente Michel Temer terá de se articular no decorrer de janeiro. A proposta é a mais aguardada entre os ajustes estruturantes propostos pelo governo. Mercado, investidores e agências de classificação de risco estão atentos a esse processo.

Recentemente, a Fitch Rating alertou que a janela de oportunidade para uma reforma significativa da Previdência antes do ciclo eleitoral está se reduzindo. O atraso em votar o texto, segundo o diretor da Fitch Todd Martinez, enfatiza os riscos incorporados à perspectiva negativa atribuída ao rating soberano do Brasil, hoje em “BB”.

A vice-presidente e analista sênior da Moody’s, Samar Maziad, também adverte que o adiamento da reforma da Previdência para fevereiro é 1 fator de crédito negativo para o Brasil e indica falta de apoio político para a proposta.

Na avaliação do economista-chefe da Austin Rating, Alex Agostini, quanto mais o tempo passa e mais o governo adia a votação do texto, a tendência de piora nas expectativas futuras em relação à solvência do país se intensifica. “Sabemos que o governo só conseguiu fechar as contas porque teve concessões, mas uma hora elas acabam e não terá mais o que se fazer. O jogo político, ainda mais em ano eleitoral, é extremamente incerto. Apesar de ter a caneta na mão, o governo não tem apoio suficiente para negociar com o Congresso.”


Mesmo com a aprovação da reforma da Previdência, ressalta Agostini, o governo precisará gerir melhor as contas públicas. “O impacto efetivo da aprovação virá no médio e no longo prazo. No curto, o governo tem demonstrado gestão de despesa atabalhoada: segura no começo do ano e solta no meio. Não há esforço para conter despesa. A reforma é importante, mas o governo precisa fazer gestão.”

Outro fator que preocupa o mercado e que pode afetar o risco-país é a eleição presidencial, em outubro de 2018. Jason Vieira, economista-chefe da Infinity Management, acredita que a consolidação do cenário eleitoral, com a definição de candidatos e a formação de programas de governo, trará mais certezas.

Há apenas 1 único player [o deputado Jair Bolsonaro] e não se sabe o impacto dele na competição com outros. E ele ainda não tem partido. Ou seja, o único definido não tem definição.”

Agostini diz ainda que o aumento do endividamento brasileiro sem uma contrapartida, como o crescimento econômico, é 1 fator preocupante. “Nossa dívida bruta é de 74,4% do PIB. Nos Estados Unidos, é de mais de 100%. Mas os EUA crescem de 2% a 3% ao ano, têm solvência. Já o Brasil tem aumento da dívida e não cresce.”

No cenário internacional, a eleição do presidente norte-americano Donald Trump era motivo de preocupação, bem como a mudança da política monetária do Fed (Federal Reserve, o banco central do país), com uma possível elevação da taxa de juros.

Em 2018, os olhares estarão atentos à aprovação ou não da reforma tributária nos Estados Unidos. “Se ela não for aprovada reduz-se a possibilidade de elevação dos juros norte-americanos”, explica Vieira. Alex Agostini, da Austin Rating, também sugere atenção a 1 possível conflito geopolítico envolvendo Estados Unidos e Coreia do Norte.

ECONOMIAS EMERGENTES

Em seu mais recente relatório sobre a conjuntura econômica brasileira (íntegra), o Ipea ( Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) destaca que o CDS brasileiro apresenta elevada correlação com as taxas de outros países emergentes.

Marcel Balassiano, do Ibre, explica que o cenário externo benigno possibilitou que os países emergentes, mais vulneráveis e dependentes das economias avançadas, reduzissem o risco-país. “Os fatores externos têm peso. Observa-se uma queda generalizada do CDS nos outros emergentes, não foi apenas o Brasil.”

O gráfico abaixo, elaborado pelo Poder360, com informações da Bloomberg, mostra a evolução do risco-país brasileiro e das taxas CDS de economias emergentes, como Turquia, México, Colômbia, Peru e Chile, nos últimos 5 anos. Apesar da relevância dos fatores domésticos na determinação do risco-país, fica clara a influência do cenário externo na taxa.

O RISCO-PAÍS SOB TEMER

O Brasil iniciou 2016 com CDS acima dos 500 pontos. O afastamento da ex-presidente Dilma Rousseff, em maio daquele ano, tranquilizou o mercado. Quando Michel Temer assumiu interinamente a Presidência da República a taxa estava em 327 pontos.

Com duas semanas no cargo, o presidente interino conseguiu sua 1ª vitória: a revisão da meta fiscal com a elevação do deficit primário para R$ 170,5 bilhões em 2016. O CDS registrava 356 pontos.

Em 2 de agosto, o relator do processo de impeachment de Dilma, o senador Antonio Anastasia (PSDB-MG), apresentou relatório favorável ao impedimento da ex-presidente. O risco-país estava em 292 pontos. Dois dias depois, quando a comissão do Senado aprovou o relatório do senador, o CDS caiu 4,45%, para 279 pontos.

Menos de uma semana depois, no dia 10 de agosto, o plenário do Senado aprovou o relatório e Dilma foi a julgamento. A notícia fez o risco-país cair ainda mais, para 262 pontos. Em 31 de agosto, a ex-presidente teve o mandato cassado. A taxa chegou aos 260 pontos.

Em 13 de dezembro daquele ano, o governo Temer, agora devidamente empossado, conseguiu sua 1ª vitória como presidente da República: a aprovação da PEC do teto dos gastos, uma emenda constitucional que limita os gastos públicos à inflação do ano anterior. O CDS, que chegou a atingir 322 pontos em novembro, registrava 292 pontos.


Em maio deste ano, os donos do grupo JBS gravaram o presidente Michel Temer concordando com a compra do silêncio do deputado cassado Eduardo Cunha. O caso “FriboiGate” fez com que a incerteza política e a desconfiança se instaurasse no país. O CDS disparou e a taxa registrou alta de 29,1% em 1 dia, passando de 206 pontos a 266 pontos.

A aprovação da reforma trabalhista, uma das prioridades do governo, em julho deste ano, fez com  que o CDS caísse para 236 pontos.

O Planalto corre agora para conseguir os votos necessários para reformar a Previdência, seu principal objetivo. As atenções estão todas voltadas a ela. A aprovação é uma sinalização de que o governo está se esforçando para fazer o dever de casa e manter as contas no azul. Caso isso aconteça, uma queda do risco-país poderá se repetir com maior intensidade em 2018.

EMBI+BR

Calculado pelo banco J.P. Morgan Chase, o EMBI+Br (Emerging Markets Bond Index Plus Brazil), é 1
índice que corresponde à média ponderada dos prêmios pagos pelos títulos da dívida externa brasileira em relação a papéis de prazo equivalente do Tesouro dos Estados Unidos, de acordo com o Banco Central.

O economista-chefe da Infinity, Jason Vieira, acredita que o EMBI+Br caiu em desuso. Sua utilização pode não mensurar o risco de maneira completa, avalia. “O EMBI não é mais relevante hoje em dia como o CDS. O ciclo constante de queda de juros não mede tanto a confiança do investidor no Brasil. O indicador fica distorcido por causa do nosso diferencial de juros. Ele pode dar a falsa ideia de que o risco está mais baixo do que deveria estar.”

Abaixo, a série histórica do risco-país, calculado pelo J.P. Morgan:

 Poder360