João Pessoa 17/08/2018 04:05Hs

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Setor elétrico brasileiro tem uma ‘Belo Monte’ à venda

Pelo menos dez grandes grupos nacionais e estrangeiros tentam encontrar compradores para usinas, parques eólicos, linhas de transmissão e comercializadoras

usina-belo-monte-20130124-0061-originalVista aérea da construção da barragem de Belo Monte, próximo de Altamira, Pará(Juan Doblas/ISA/Reuters/VEJA)

Um ano depois de enfrentar uma grave crise hídrica e financeira, o setor elétrico brasileiro vive uma forte onda de ativos à venda. Pelo menos dez grandes grupos nacionais e estrangeiros, que incluem Odebrecht, Petrobras e Queiroz Galvão, tentam encontrar compradores para usinas, parques eólicos, linhas de transmissão e comercializadoras. Apenas na área de geração, a capacidade instalada à venda equivale a quase uma Hidrelétrica de Belo Monte, de 11.233 megawatts (MW).

O movimento de venda no setor é reflexo de uma conjunção de fatores. Um deles é a fragilidade da atividade econômica, que no ano passado recuou 3,8% e ajudou a derrubar o consumo de energia em 2,1%. Além disso, o crédito se tornou mais restritivo e caro, especialmente para empresas envolvidas na Operação Lava Jato, que ficaram com caixa debilitado para fazer frente a investimentos. Outro fator envolve a saúde financeira de companhias estrangeiras em suas matrizes, o que tem obrigado as subsidiárias a diminuir suas estruturas.

Apesar do cenário econômico e político desfavorável, consultores e advogados afirmam que há interessados nas ofertas do setor. Com a desvalorização do real, os ativos brasileiros ficaram muito baratos para os estrangeiros, que estão em negociação com várias empresas. Alguns já atuam no Brasil, como é o caso da canadense Brookfield, da franco-belga Engie (ex-GDF Suez), da italiana Enel, da francesa EDF e das chinesas State Gride e China Three Gorges (CTG). Outros ainda estão sondando o mercado brasileiro.

Com tantos ativos à venda, quem tem dinheiro e disposição para investir no Brasil está em vantagem. De um lado, os vendedores têm feito inúmeras exigências e jogado o valor dos ativos ainda mais pra baixo. Do outro, boa parte dos vendedores precisa fazer caixa com urgência para honrar compromissos.

 

Reforço de caixa – Entre as empresas envolvidas na Lava Jato, a venda de ativos é um dos caminhos para superar as dificuldades na obtenção de crédito. Na Odebrecht, o dinheiro arrecadado com a venda do Complexo Eólico de Senades, no Rio Grande do Sul, deverá ser usado para reforçar outros negócios da companhia.

Outra construtora que procura parceiros para sua unidade de energia é a Queiroz Galvão. Desde o ano passado, a empresa tenta negociar a entrada de capital de terceiros ou a venda de quatro parques eólicos em operação e dois em construção, além de quatro hidrelétricas e duas térmicas. O valor total dos ativos beira os 2 bilhões de reais, segundo fontes do setor.

Segundo o advogado Raphael Gomes, sócio da Demarest Advogados, a área de energias renováveis tem recebido bastante procura. Alguns projetos de eólicas, que foram negociados em leilões, mas não tiveram as construções iniciadas, estão em negociações avançadas. Além de americanos, alemães e espanhóis também estão de olho nos empreendimentos.

 

Térmicas – O advogado da L.O. Baptista, Guilherme Schmidt, especialista na área de energia, afirma que as termoelétricas também têm movimentado o mercado. Só a Petrobrás tem 6,15 mil MW de energia térmica à venda. Além dos chineses, investidores ingleses também estão sondando os ativos da estatal. “As térmicas são boas e atraentes para investidores que estão dispostos a correr um risco um pouco maior (no Brasil, as térmicas não operam o tempo todo e têm regras diferentes de outros países).”

O único entrave, por enquanto, tem sido os prazos estabelecidos pela estatal para fazer due diligence – processo de investigação e auditoria dos ativos à venda. “A quantidade e complexidade dos ativos exige um tempo maior de análise”, completa Raphael Gomes, da Demarest, que tem clientes interessados nas térmicas da Petrobras.

(Com Estadão Conteúdo)