João Pessoa 21/06/2018 21:38Hs

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Depois de foto polêmica, Letícia Sabatella se torna musa inspiradora nas redes sociais

Atriz de 42 anos fala da imagem em que aparece deitada no chão, privacidade, casamento e de seu lado cantora

leticia sabatelaRIO – A sala de Letícia Sabatella parece o palco de uma peça — ou de um show. Pelo aconchegante apartamento térreo na Gávea, destacam-se um cabideiro cheio de chapéus, um casal de bicicletas, um livro de I-Ching com três moedas sobre a capa, uma estátua de Buda, luminárias japonesas, uma dúzia de instrumentos de corda e percussão, um piano numa parede, um teclado noutra, um acordeão no chão e um trompete vermelho sobre a mesa de jantar, onde está sentado o ator e músico Fernando Alves Pinto, 44 anos, marido da atriz. Remexendo a barba e o cabelo enormes (são para o filme “A floresta que se move”), ele avisa:

Do pátio surge uma cachorrinha preta — Nyx, como a deusa grega da noite. A vira-lata pede colo até ser chamada por uma voz suave. Letícia chega de calça e camiseta confortáveis, sorrindo como quem acordou de um sonho. Tira os chinelos, se ajoelha como o Buda e aconchega Nyx entre as pernas.
Os animais têm muita sensibilidade — ela diz, comentando em seguida que é fã do canal a cabo Animal Planet. — Olha como ela está com saudade. A gente nunca fica em casa.

Mesmo num hiato de TV e cinema, Letícia, 42 anos, nunca fica parada. Naquela tarde de 20 de novembro, um feriado, embarcou para Porto Alegre, onde foi encontrar a filha, Clara, de 21 anos. De lá seguiu para um fim de semana em Brasília, onde está em cartaz; e emendou uns dias em Curitiba, onde vivem seus pais. E esteve o tempo todo no Facebook, curtindo e repercutindo o apoio que os fãs lhe deram depois que caiu na rede uma foto em que a atriz aparece deitada no chão, no estacionamento de um restaurante, em clima de festa. O movimento terá seu auge hoje, quando a própria Letícia participará de um deitaço em Brasília.

A CAIPIRINHA PERUANA

Tudo começou no Dia das Bruxas e, para Letícia Sabatella, noite de estreia. A peça “Trágica.3” chegava à capital federal naquela sexta-feira, 31 de outubro. Depois do teatro, a atriz foi com amigos ao Taypa, restaurante de culinária andina no Lago Sul. Como de costume em Brasília, o céu estava estrelado, e o ar, seco. Clima perfeito para um pisco sour, a caipirinha peruana. Para um, para dois, para três…

engraçado, porque eu não bebo, mas toda vez que eu vou no Taypa acontece isso. O pisco te deixa alegre, não te deixa mal — diz Letícia. — E é a quarta vez que eu vou lá. E irei de novo, lógico.

Moradora de Brasília e amiga da atriz há 20 anos, a dentista Ana Lúcia Caetano Pereira estava lá:

Começamos a cantar, o bar fechou, continuamos cantando no estacionamento. Demos muita risada, ficamos animados. Num dado momento, Letícia sentou no chão e ficou vendo as estrelas, uma amiga se aproximou, as duas se abraçaram e logo depois fomos embora — conta Ana. — Uma pessoa que estava conosco tirou fotos e passou para a coluna de fofocas de um jornal.

Os sites de celebridades fizeram a festa no dia 3, especialmente com o retrato de Letícia no estacionamento — que virou “meio da rua”, assim como sua posição, deitada (segundo os presentes, voluntária), virou coma alcoólico. Dia 5, ela postou no Facebook: “Que auê por causa de uma noitada de cantoria e pisco sauer (sic) com os amigos! Deitar no chão de tanto rir, e beber do céu as estrelas! Quem não precisa rir de si mesmo de vez em quando? Me recuso a sentir vergonha com esta pedra (bosta) moralista com que tentam me atingir. A vocês, queridos acusadores, ofereço Um Brinde!

Essas 60 palavras mobilizaram milhares. Ao lê-las, a jornalista Silvia Amélia de Araújo criou no Facebook o evento virtual “Quero deitar na BR com Letícia Sabatella”, logo rebatizado para “Deitaço no asfalto com Letícia Sabatella”.

Uma coisa que eu admiro nela é que ela dá a cara. Ela mesma fala, ela mesma se posiciona — diz Silvia Amélia. — Acho que vários artistas no seu lugar iam acionar a assessoria de imprensa, soltar uma nota lamentando ter bebido e deitado no chão. Quando vejo a resposta que ela deu, eu tenho é vontade de beber com ela! Que legal que Letícia tem essa vida, mesmo sendo uma pessoa pública se permite ter uma vida comum.

Em alguns dias, o evento fictício já contabilizava o equivalente ao número de habitantes da cidade de Silvia Amélia, Goiás Velho (GO): 25 mil pessoas. Na página do evento começaram a ser postadas fotos de deitaços em solidariedade a Letícia, de todo o país — imagens de grupos grandes e pequenos posando no chão, sempre com mensagens de incentivo ao gesto e à resposta da atriz. Vários fãs mandaram o poema “A flor e a náusea”, de Carlos Drummond de Andrade, aquele dos versos “Uma flor nasceu na rua! (…) É feia. Mas é flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio”. E as homenagens continuam chegando.

O deitaço virou uma coisa bacana. Longe do “vamos beber até cair”. Ficou um respeito ao espírito dionisíaco, a alguém que ri de si, que ri com os amigos, que se encontra numa festa e canta até o final. Não é apoiar a personalidade, a Letícia, a deitar no chão. É apoiar um direito essencial de existência. Parar com essa coisa fascista, moralista, de repressão, de poder oprimir alguém porque essa pessoa faz alguma coisa fora do… fora do quê exatamente? — pergunta Letícia.

A atriz lembra que houve outro momento em que experimentou o apoio do público: em 1993, quando sua filha Clara nasceu prematura, com pouco mais de seis meses de gestação.

MEDO DA REPRISE DE ‘O DONO DO MUNDO’

Única filha de Letícia, Clara passou três meses e meio na UTI sob vigília da mãe e do pai, o ator Ângelo Antônio — o casal se separou em 2003.

Algumas vezes experimentei das pessoas essa coisa que eu acho que é solidariedade, amplificada por eu ser uma pessoa pública — diz Letícia.

Na época, a atriz nascida em Belo Horizonte e criada em Curitiba ainda estava se acostumando com a fama.

Descoberta numa montagem paranaense da ópera “O barbeiro de Sevilha”, a atriz estreou na TV Globo em 1991, aos 19 anos, num especial do diretor Luiz Fernando Carvalho chamado “Os homens querem paz”. Agradou e, no mesmo ano, foi escalada para a novela “O dono do mundo”. Ali Letícia conheceu Ângelo — os dois formavam o par romântico Taís e Beija-Flor. Gilberto Braga, autor do folhetim, elogia o trabalho da atriz:

la foi absolutamente o máximo. E já era, na minha opinião, o rosto mais bonito da televisão brasileira.

Já Letícia não tem uma opinião tão boa sobre sua estreia em novelas. Ao ser lembrada que “O dono do mundo’’ está sendo reprisada no canal a cabo Viva, ela dispara.

ão assistam! Tenho medo, não posso nem me olhar — diz, levando as mãos à face. — Era uma loucura, não conhecia a velocidade de uma novela. Por sorte, fui acolhida pela Malu Mader, pelo resto do elenco. Saí vacinada. Recusei muitos convites, fiz questão que minha carreira não fosse sempre “global”.

‘UMA ATRIZ QUE SE ENTREGA’

De fato, após despontar, Letícia andou um pouco sumida da TV. A década de 90 foi marcada por participações em episódios do extinto programa “Você decide” e minisséries como “Agosto”. Ela só voltaria a ganhar destaque em “A muralha” (2000). Na série de Maria Adelaide Amaral, ambientada no Brasil colonial, Letícia era Ana, uma cristã-nova recém-casada com um bandeirante psicopata vivido por Tarcísio Meira. Maria Adelaide explica porque escolheu Letícia para esse papel difícil, considerado um ponto alto da carreira da atriz:

O que determinou foi o talento, a beleza, a fragilidade, o entendimento das personagens que ela interpreta. Ela se entregou de tal forma que o espectador não tinha dúvidas de que ela era Ana. Sempre que houver um personagem à sua altura, ela será convidada — diz a autora, que a escalou novamente em “Um só coração” (2004), “JK” (2006) e “Sangue bom” (2013).

O sucesso seguinte foi a novela “O clone” (2001), de Glória Perez, trabalho que ela lembra de ter sido muito divertido. Ela fazia a marroquina Latiffa, casada com Mohammed, interpretado por Antonio Calloni — que a conhecera em “O dono do mundo”.

Na primeira novela ela já demonstrava um grande talento. Em “O clone”, anos depois, fez um trabalho primoroso. Aproveitou bem o tempo — lembra o ator. — Sempre que trabalhei com ela foi com prazer e curiosidade. Letícia tem uma coisa etérea que é muito engraçada e estimulante.

Em 2005, foi a vez de reencontrar Luiz Fernando Carvalho em outro trabalho marcante: a série “Hoje é dia de Maria”, onde Letícia fazia a versão adulta da personagem principal.

Ela não era parecida com a Carolina de Oliveira (a Maria criança), mas se encaixava em como eu entendia Maria: o amor visto pelo olhar de uma mulher — justifica Carvalho. — Em “Os homens querem paz”, antes de rodar cada cena, Letícia nunca me dava garantias. Chegava a dizer para mim mesmo que ela não conseguiria. Que nada! Ela sempre surpreendia. E, pelo menos comigo, é assim até hoje. Letícia trabalha numa região misteriosa. Tem coragem de se entregar ao desconhecido.

A atriz define seu trabalho mais recente na televisão de forma curiosa:

Nem parecia TV — diz, se referindo à série do GNT “Sessão de terapia”.

Na terceira temporada, que foi ao ar este ano, Letícia vivia uma personagem em crise no casamento.

A série reproduz a dinâmica de um consultório, eram cenas longas, muito texto, quase monólogos. Eu saía sensível, inabitável. E, no final, foi uma catarse, como um banho de cachoeira — diz ela, que foi convidada pelo diretor da série, Selton Mello, para estar em seu próximo filme.

Na TV, o ano de 2015 ainda está indefinido — e seu passe, disputado. Primeiro, foi anunciado que ela faria a série “Dois irmãos”, adaptação de Luiz Fernando Carvalho para o romance de Milton Hatoum. Depois, surgiu a notícia de que ela deixaria a série para estar em “Rio Babilônia”, de Gilberto Braga. Mas Gilberto diz que ela não está na sua novela e Carvalho diz que não pode contar com a atriz porque “ela está reservada para a Beth (Elizabeth) Jhin” — a autora prepara um folhetim das seis com o nome provisório de “Encontro marcado”. A Central Globo de Comunicação diz que não comenta escalações de atores, só divulga os elencos quando estão confirmados.

Queridinha dos autores, em 2008 Letícia realizou o sonho de ser diretora. Foi com “Hotxuá”, documentário sobre a cultura dos índios krahô — o hotxuá é uma espécie de “mestre de cerimônias” da tribo. O filme é fruto do envolvimento de Letícia em causas ambientais. Ela também ganhou destaque por defender a população ribeirinha da Amazônia e os sem-terra e por atacar a construção da hidrelétrica de Belo Monte e a transposição do Rio São Francisco.

Acho estranho minha postura ser encarada como exceção. Para mim é natural, uma função social, somos todos cidadãos — justifica Letícia, que recentemente reviu sua posição de não fazer publicidade. — Hoje as empresas têm uma postura mais consciente. Nesses casos, acho que não há problema.

Atualmente, Letícia tem priorizado a carreira musical. Com amigos de Curitiba (“poetas, malucos, filósofos”, ela define) já havia formado as bandas Tuba Intimista e Abominável Sebastião das Neves. Desde 2013, se apresenta pelo Brasil com a Caravana Tonteria, grupo de som eclético e pegada teatral formado por ela, pelo marido Fernando e por um grande elenco rotativo — daí a porção de instrumentos espalhados pela sala de seu apartamento.

— Se gravarmos alguma coisa com a Caravana, não deve ser um disco, mas um DVD, para pegar tudo que acontece no palco — diz Letícia.

Em sua última novela, “Sangue bom”(2013), as carreiras de cantora e atriz se encontraram num lance metalinguístico. Sua personagem, Verônica, interpretou uma canção composta pela própria Letícia, “Silent kindness’’. Para completar a guinada musical, na hora de voltar ao teatro, pensou:

Preciso ir pro palco, e preciso ir pro palco cantando. Escolhi “Trágica.3” pela oportunidade de fazer uma Antígona que canta — diz Letícia, que divide o palco com Fernando, responsável por executar a trilha ao vivo.

Fernando conheceu Letícia através de, veja só, Ângelo Antônio, com quem fez uma peça em 1988.

Mas só fomos ficar amigos mesmo num sarau musical, em 2010. Eu fui tocar serrote. A partir daí, a gente começou a se encontrar para fazer música. A gente tava tão junto, que resolveu casar. E aí foi isso — conta Fernando, num tom tímido e direto.

O casamento foi em 16 de dezembro de 2013, com direito a véu e grinalda

Também teve um hotxuá abrindo a cerimônia. Foi uma festa com a nossa cara — diz Letícia, girando a cabeça para enxergar Fernando.

O casal estará hoje em Brasília para quatro eventos. À tarde, a Caravana Tonteria se apresenta no hospital Sarah Kubistchek. Às 20h, no CCBB, acontece a última apresentação de “Trágica.3”. Às 22h, a Caravana toca de novo no Clube do Choro. Após a performance, a banda convida a plateia e quem mais chegar para aquele que deve ser o “deitaço’’ definitivo, com participação da própria Letícia. Que diz:

Viva a liberdade dos corpos.

 

O Globo