João Pessoa 25/06/2018 04:01Hs

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A reinvenção de Deborah Secco

Atriz segue roteiro parecido com o do americano Matthew McConaughey, que trocou uma sucessão de papéis de galã em comédias românticas por personagens densos e conquistou um Oscar. No ótimo ‘Boa Sorte’, que tem estreia nacional na próxima quinta-feira, Deborah perde 11 quilos para viver uma soropositiva drogadita e deixa para trás um rol de periguetes

filme debora seco Deborah Seco não é só um rostinho bonito e um corpo esculpido por horas (e horas) de malhação. É o que quer provar a atriz carioca, prestes a completar 35 anos, idade que alcança na próxima quarta-feira. E Deborah vai fazê-lo já no dia seguinte ao seu aniversário. É quando entra em circuito nacional Boa Sorte, filme que marca não apenas a ótima estreia na direção de Carolina Jabor, filha de Arnaldo (de filmes como o horrendo Eu te Amo), mas também a planejada virada na carreira da atriz. “O meu começo foi difícil, mas em certo momento atuar ficou fácil e eu passei a dirigir no piloto automático”, diz Deborah. “A zona de conforto, no entanto, não é o meu lugar. E Boa Sorte é o primeiro passo para uma nova estrada.”

Na trama baseada no conto Frontal com Fanta, do livro Tarja Preta (Objetiva), de Jorge Furtado, Deborah vive uma mulher de 30 anos que é soropositiva e usuária de diversas drogas. Em uma clínica de recuperação, Judite conhece João (João Pedro Zappa), um adolescente perturbado que acredita ficar invisível sempre que toma remédio para ansiedade, o Frontal do titulo do conto, com refrigerante. O casal improvável desenvolve o raro tipo de amor que salva vidas, mesmo com a morte à espreita. E sem cair no piegas. Tanto que saiu aplaudido do Festival de Paulínia, onde ganhou o prêmio do público, e da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, por onde acaba de passar. “É melhor que A Culpa É das Estrelas”, brinca Deborah sobre a comparação com o drama adaptado da obra de John Green.

Longa sobre fins e recomeços, qualquer semelhança entre Boa Sorte e os novos caminhos de Deborah não é mera coincidência. “Não sei se eu vou para um lugar melhor ou pior, mas eu vou arriscar. Quero sair de casa com o coração disparado, perder noites de sono. Quero voltar a sentir a palpitação que eu tinha quando comecei a trabalhar, que era o que me movia na profissão”, diz a atriz.

Deborah Secco se apaixonou pelo conto e disse ao autor que gostaria de fazer a personagem se um dia ele virasse filme. Anos depois, Carolina Jabor teve a bênção do escritor para adaptar a história. Quando Deborah soube, perseguiu a diretora, que, relutante — ela não queria uma atriz tão mainstream —, permitiu que ela fizesse um teste. “Quando fiz a primeira leitura com a Deborah, fiquei impressionada com a sua força e como havia uma vibração nela, uma energia forte de que a personagem precisava. Ela leu o texto e eu saí rindo. Liguei para o Jorge e falei: ‘É ela, é a Deborah, ela é a Judite’”, conta Carolina.

Contramão – Quem está acostumado a ver Deborah como a “gostosa de novela”, rótulo que aderiu a ela depois de papéis como as periguetes Darlene, de Celebridade (2003), e Natalie Lamour, de Insensato Coração (2011), pode se chocar ao ver Boa Sorte. No filme, a atriz aparece onze quilos mais magra e com pouca maquiagem. A aparência serve como complemento à sua excelente atuação, assim como aconteceu com o americano Matthew McConaughey – outro que deixou os músculos murcharem para viver um soropositivo – em Clube de Compras Dallas, filme que lhe rendeu o Oscar este ano.

Por coincidência, Deborah e McConaughey vêm trabalhando em dar novo rumo à carreira desde 2011, ele com o thriller policial O Poder e a Lei, de Brad Furman, e ela com Bruna Surfistinha, drama de Marcus Baldini que lhe rendeu o troféu de melhor atriz no Grande Prêmio do Cinema Brasileiro. Mas as transformações de ambos só saltaram aos olhos anos depois. No caso dele, com o já citado Clube de Compras, lançado em 2013 nos Estados Unidos. No dela, é Boa Sorte que confirma e consolida a guinada. “A Bruna foi um grito de virada”, diz Deborah, como quem identifica o momento em que a vida começou a mudar.

Disposição para levar a transformação adiante não falta. Terminadas as filmagens, Deborah recuperou o peso normal, de 55 quilos distribuídos em 1,64 metro, para logo descobrir que outro projeto que faria, o longa O Troco, tinha conseguido verba para iniciar as filmagens. Para o papel de Laura, uma ex-apresentadora infantil, ela precisou ganhar catorze quilos em pouco mais de um mês. Na época, ela fez uma participação no Vídeo Show e se tornou assunto na internet. No Twitter, ela entrou para os Trending Topics, a lista dos assuntos mais comentados da rede, com as palavras “Deborah Gorda”. “As pessoas me olhavam como se eu fosse uma aberração da natureza. O Brasil é um país muito apegado à estética e pouco ligado em arte. Temos que mudar isso. Dar mais valor à arte que à aparência”, reclama a atriz, que quase viu a carreira condenada por personagens que viviam justamente da imagem exterior.

Carol, de ‘Confissões de Adolescente’A pré-adolescente Carol, da série Confissões de Adolescentes, foi um dos primeiros papéis de Deborah na televisão. A atriz já havia feito comerciais, teatro e pontas em novelas, além de uma participação no programa Você Decide (1992), da Globo, como filha de Cássia Kiss, uma indigente que tinha de escolher se vendia um dos filhos para que o restante da família tivesse como sobreviver. Mas foi com o seriado exibido nos anos 1990 na TV Cultura que ela ganha fama e aprende a ser uma atriz. No programa adaptado da obra de Maria Mariana e dirigido por Daniel Filho, Carol é a mais nova de quatro irmãs, que passam pelas experiências de formação da adolescência.
 A virada – Segundo Deborah, o desejo por papéis desafiadores sempre existiu, mas as condições financeiras da família não permitiam que ela se desse ao luxo de escolher. Criada no subúrbio de Jacarepaguá, zona oeste do Rio, Deborah começou a atuar aos 8 anos e logo destinou boa parte do seu salário para o sustento da família, composta por mais dois irmãos e os pais, que se divorciaram quando ela tinha 12.

Foi por essa situação que em 2009, já com desejo de mudar, a atriz convocou uma reunião familiar para avisar que a sua renda poderia diminuir. “Eu disse: ‘Agora estamos bem, de fome ninguém morre mais. Vou ganhar menos, mas quero desafios’.” A inflexão teve o apoio de Paula Colucci, sua empresária há 18 anos. “Com a maturidade, veio a necessidade de fazer algo que dê prazer e não dinheiro”, conta Paula. “Depois de tantos anos de trabalho, hoje ela pode se apaixonar por uma personagem de um filme de baixo orçamento e até trabalhar de graça.”

Dinheiro é um assunto que acabou custando caro para Deborah nos últimos anos. Em 2010, ela e sua família se viram envoltas em um caso de corrupção, depois de serem apontadas como laranjas de Ricardo Tindó Ribeiro Secco, pai da atriz e chefe de um esquema que desviava verbas públicas por meio de ONGs fantasmas e de empresas de fachada. A família foi condenada em 2013 a restituir 446.455 reais aos cofres públicos, mas Deborah se defende, afirmando que desconhecia os erros do pai. Procurada pela reportagem de VEJA, a mãe da atriz, Silvia Secco, e a assessoria de imprensa de Deborah não comentaram o caso.

O ano de 2013 foi, aliás, bastante conturbado para Deborah Secco. Além do problema com a Justiça, ela oficializou o divórcio com Roger Flores, com quem se casou em 2009, em meio a notícias de traição do jogador. Pouco depois, engatou namoro com um cantor católico, representante de uma religião que a atriz, abstêmia autodeclarada, frequenta. O namoro chegou ao fim no mesmo ano e Deborah segue solteira, um perfil que absolutamente não bate com a imagem voluptuosa fabricada para ela pela TV.

“Atualmente, estou bem feliz. A Judite de Boa Sorte me ensinou que não importa para onde a vida vai me levar, pois a gente não sabe se vai estar aqui amanhã. Quero envelhecer, ficar enrugadinha, porque só não fica quem morre antes. Quero casar, ter filhos e netos”, diz.  “Aprendi a lidar com a vida e perder o medo da morte. A viver verdadeiramente e não apenas existir.” Pelo jeito, Judite foi uma boa professora. E o público do cinema agradece.

Os atores que decidiram sair da mesmice

Matthew McConaughey

Corpo malhado, sorriso sedutor e uma relação amorosa envolta por percalços absurdos. Esta era a fórmula requentada por Matthew McConaughey em filmes do naipe de Como Perder um Homem em 10 Dias (2003) e Minhas Adoráveis Ex-Namoradas (2009). Até que o ator decidiu buscar novos desafios. Passou um ano de molho, só recusando roteiros melosos. A mudança veio então em 2011, quando ele estrelou os filmes O Poder e a Lei, Bernie: Quase um Anjo e Killer Joe – Matador de Aluguel, que serviram de prelúdio para o que estava por vir, o impactante Clube de Compras Dallas, de 2013, ano em que o ator ainda fez uma ponta em O Lobo de Wall Street, igualmente aclamado no Oscar deste ano. Em Clube de Compras, McConaughey faz um cowboy homofóbico e soropositivo. O papel o fez perder 19 quilos e ganhar o seu primeiro Oscar.

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