João Pessoa 24/06/2018 20:47Hs

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Seções EL PAÍS CULTURA João Gilberto, a longa e lenta agonia do “inventor da bossa nova”

A vida de excentricidades vem acertar contas com um dos ícones da música brasileira, envolvido, aos 86 anos, em uma sórdida disputa financeira

A história acaba no momento em que a cantora e compositora Bebel Gilberto se apresenta às portas da casa de seu pai, o também cantor e compositor João Gilberto, acompanhada de um oficial de Justiça. Nas mãos de Bebel, a notificação oficial da sentença que lhe outorga o controle dos bens e das contas de seu pai. Durante duas horas, ela esperará ser recebida por João, sem conseguir. Voltará dali a dois dias, com o mesmo resultado.

A interdição daquele que foi referência da música e da cultura brasileiras, já com 86 anos, coloca o ponto final em um drama sórdido como poucos. O Brasil, o mundo inteiro, assiste atônito. “Como chegamos a isso?”, pergunta Marcelo, dono de uma banca de jornal em um bairro da zona sul do Rio. “É como se tivessem declarado o Pelé como louco”.

As origens do drama

Para entender o ocorrido, é preciso viajar longe no tempo. João Gilberto faz parte do núcleo fundador da bossa nova, que toda noite invadia o apartamento de Danuza e Nara Leão, em Copacabana. “João Gilberto implicava quando ouvia passarinhos cantando”, escreve a primeira em suas memórias. “Passarinhos, segundo ele, são muito desafinados”. A história mostra o que, para alguns, como Zuza Homem de Mello, cronista musical e amigo pessoal do cantor, é o sintoma de um desejo pela perfeição além de qualquer limite: “Minha imagem de João Gilberto é a de um quixote lutando para afinar um universo inevitavelmente desafinado”.

Pouco depois, o cantor emocionaria o mundo da música com sua interpretação de Chega de Saudade, composta por Antonio Carlos Jobim e Vinicius de Moraes, editada como “samba-canção”, e considerada a primeira interpretação de bossa nova da história. “Aquele disco mudou a vida de várias gerações”, recorda Homem de Mello. “Sem ele, não existiriam Caetano, Gil ou Chico Buarque”.

Do Rio a Nova York, na noite de 21 de novembro de 1962. A apresentação da bossa nova à sociedade tinha reunido “Manhattan inteira” no Carnegie Hall. Minutos antes de subir ao palco, João Gilberto entra em pânico. Sua participação no evento está por um fio, ou por uma linha. A de sua calça. Finalmente, tudo não passou de um susto… para a organização do evento. Vendido no Brasil como referência simbólica – “a música brasileira conquista o mundo” – o concerto do Carnegie Hall foi um fracasso de dimensões colossais, o que não impediu que alguns dos participantes – Sérgio Mendes, Jobim e o próprio João Gilberto – saíssem com a decisão tomada de se estabelecer nos Estados Unidos.

Um ano mais tarde, João Gilberto regressa aos estúdios de gravação junto com sua então mulher, a cantora Astrud Gilberto, para um tête-à-tête com o saxofonista de jazz Stan Getz. O disco, contendo as interpretações canônicas de Corcovado e Garota de Ipanema, vem abalar as estruturas de um mercado dominado pela beatlemania. Não importa que Astrud Gilberto não fosse, exatamente, a melhor cantora do mundo. O pianista Chick Corea, que passaria a fazer parte do quarteto de Stan Getz pouco tempo depois, contaria mais tarde: “De algum modo, o sucesso do disco foi uma maldição para seus dois protagonistas”.

Getz, a quem a bossa nova transformou no músico de jazz mais bem pago da história, investirá seu faturamento na compra de uma mansão em um bairro nobre de Nova York, à qual irá atear fogo em uma noite de vinho e algo mais do que rosas; pelo mesmo preço, viverá um sonhado romance extraconjugal com a mulher de João Gilberto, e continuará recebendo substanciosos royalties por conta de suas interpretações de bossa nova. Com uma particularidade: o saxofonista, que logo depois viria a eliminar qualquer referência à bossa nova em seu repertório, detestava o gênero.

Coincidindo com o lançamento de Getz/Gilberto, João Gilberto vai reclamar na Justiça seu direito de recuperar a propriedade das gravações máster originais de seus três primeiros discos que sua antiga gravadora, a Odeon, retém para si. O cantor se diz vítima de uma conspiração internacional à frente da qual estaria a rainha da Inglaterra. A batalha mal começou.

Em turnê

Setembro de 2003. Cláudia Faissol, socialite carioca que se apresenta como jornalista, pede autorização do artista para acompanhá-lo em sua turnê pelo Japão e filmar um documentário. Retornaria do Japão grávida de João e sem filme, que se saiba.

O círculo mais próximo ao artista distingue um antes e um depois de Cláudia Faissol na vida de JG. E alguns são muito críticos. “Da noite para o dia, o trato com João se tornou insuportável”, diz Homem de Mello. “Parecia que tudo o incomodava, o negócio, o público… qualquer coisa, o menor ruído, o tirava do sério.” É difícil estabelecer em que momento as saídas de tom, as extravagâncias, passaram a ser o sintoma do que acabou sendo diagnosticado como um transtorno obsessivo-compulsivo. “Mas também é verdade que são muito poucos os que, ao longo desse tempo, tentaram entender João. Ele é um artista, como era Thelonious Monk, que também foi chamado de louco. Mas os artistas não estão interessados na vida como nós. Para eles, tudo o que não é arte carece de importância”, diz Homem de Mello.

O comportamento imprevisível de Gilberto dentro e fora do palco afeta seu prestígio profissional. Como consequência disso, os mais importantes agentes internacionais riscam seu nome dos books. Para eles, João Gilberto é um capítulo encerrado. Por isso o violonista e cantor não se apresenta em público desde 2008.

É Cláudia Faissol quem vem tirar o mestre de seu ostracismo, com uma turnê por cinco cidades do Brasil com a qual se pretende comemorar seus 80 anos. A expectativa gerada supera todas as previsões. Em troca de sua participação, o artista recebe 1 milhão de reais como adiantamento da bilheteria. João Gilberto mudou, dizem. Dias depois de anunciada a turnê, a empresa organizadora, Maurício Pessoa Produções, comunica seu cancelamento por “problemas de saúde” não especificados. Depois de pedir em vão ao artista a devolução da quantia adiantada, Pessoa recorre aos tribunais e obtém uma sentença favorável a seus interesses. Com ele, os vários empresários locais a quem o cancelamento da turnê levou à falência. Faissol acusa as autoridades do país de inação, por deixarem desamparado um “bem imaterial da cultura brasileira e mundial”. Homem de Mello não tem dúvidas: “foi nesse exato instante que percebi nitidamente que o assunto não tinha mais volta”. Na data de hoje, Mauricio Pessoa continua esperando a devolução do dinheiro adiantado.

Os anos obscuros

Pesaroso, Gilberto vê seu patrimônio musical ser manipulado por companhias discográficas de todo o mundo em forma de reedições pouco escrupulosas. Já não é só a rainha da Inglaterra: é o universo inteiro que conspira contra ele. Todos, menos Cláudia Faissol, sua companheira sentimental agora encarregada das finanças do artista. O músico deixa seu litígio com a Odeon, agora Emi-Odeon, nas mãos do banco Opportunity, propriedade do polêmico Daniel Dantas. Por meio do acordo firmado entre as duas partes, Gilberto cede 60% dos direitos autorais sobre seus três primeiros discos e a instituição financeira assume a disputa judicial que se arrasta há mais de 20 anos. Em troca, o artista recebe um adiantamento de 5 milhões de reais sobre um total de cerca de 200 milhões a que, calcula-se, pode ter direito em caso de sentença a seu favor. A nova estratégia vai dar seus frutos.

Em 2013, o artista ganha o direito de uso das gravações máster originais de seus três primeiros discos, mesmo que a propriedade seja da gravadora. Nos escritórios do Opportunity esfregam as mãos diante da perspectiva de uma campanha publicitária de mais alto nível no televisão. Só falta um último detalhe: João Gilberto deve dar sua autorização para a remasterização a ser realizada por uma equipe de especialistas.

Em uma foto que vazou para a imprensa, o artista aparece em sua suíte do hotel Copacabana Palace falando ao interfone de pijama listado. Gilberto, dizem, quase não veste outra roupa além dessa. Apenas poucos membros de seu círculo mais próximo têm acesso ao seu refúgio pessoal. Suas refeições são deixadas por um garçom na porta do quarto. Não concede entrevistas, não fala com ninguém, não permite ser visto por ninguém. Segundo boatos, passa o tempo repassando obsessivamente as gravações máster de seus primeiros discos. Os advogados do cantor alertam: é necessário retomar sua atividade pública para aliviar o déficit de suas finanças. O Opportunity continua à espera da autorização do artista para liberar as gravações com fins publicitários, “o que também é assunto de seu interesse”, insistem. Mas mesmo os filhos do artista, tão resistentes a tudo que tenha a ver com sua nova companheira sentimental, insistem que o artista dê o braço a torcer. A resposta, em todos os casos, é a mesma: nenhuma.

Diante da realidade dos fatos, o Opportunity decide cortar o aluguel da cobertura e do estúdio de gravação que alugou para o artista. Fontes da discográfica aproveitam a conjuntura para expor seu ponto de vista: nem João Gilberto é o grande vendedor de discos que se supõe, nem existe descumprimento por parte da companhia: “o dinheiro pelos discos sempre esteve à disposição do artista, só que ele não apareceu para retirá-lo”.

Gilberto passou a viver em um apart-hotel no bairro carioca do Leblon. O misterioso desaparecimento de diversos objetos valiosos no apartamento do artista dá margem a uma nova troca de acusações entre as partes em litígio. Faissol responde às críticas: foi ela que pôs a polícia de sobreaviso. Ambas as partes dizem atuar movidas pela preocupação com o estado físico e financeiro do artista. A opinião pública continua sem saber de que lado ficar.

Diferenças à parte, os filhos do artista encomendam uma investigação sobre o estado das finanças do pai. O resultado é um Himalaia de pendências, reclamações por inadimplência, não comparecimento em juízo e até três ordens de despejo. Ao todo, Gilberto deve 160.000 reais, sem contar o 1,5 milhão como consequência dos shows não realizados. A opinião pública procura respostas: não se entende como Gilberto pôde dilapidar uma fortuna que nem sequer consta que tenha realmente chegado a suas mãos.

Maio de 2017. Um grupo de bombeiros entra no apartamento do músico depois da falta de notícias de sua parte. Em poucos dias, Gilberto deveria viajar aos Estados Unidos para receber o título de Doutor Honoris Causa em Música pela Universidade de Columbia. Sua filha mais nova, Luisa, acabaria recebendo o prêmio em seu nome. Outro dos filhos, João Marcelo, que foi ao apartamento, encontra seu pai “violado emocionalmente” e “visualmente agitado”. A imprensa sensacionalista publica uma última foto do artista em casa, ao lado da filha Bebel, “quando ainda abria a porta para ela”, esclarece a reportagem. O cantor, visivelmente envelhecido, esboça algo parecido com um sorriso. “Este é o retrato de um futuro cadáver”, sentencia Homem de Mello.

O jornal Folha de São Paulo, em sua edição de 18 de novembro de 2017, anunciava a interdição judicial do artista, cujas contas passaram a ser administradas de fato por sua filha Bebel, à espera da comunicação da sentença ao afetado. Enquanto isso, o Opportunity e a Emi-Odeon afirmam ter obtido “vitórias significativas” no litígio entre as duas entidades. Cláudia Faissol, até então aliada de Dantas-Opportunity, passou a criticar as ações da entidade bancária no processo. Um assunto em que parecem haver-se desentendido Bebel e João Marcelo, tanto como o próprio João Gilberto. Trancado em seu apartamento no Leblon, João Gilberto tem agora uma nova companheira, uma mulher luso-moçambicana chamada Maria do Céu Harris. Ali o “inventor da bossa nova” ainda espera um milagre.

Os atores do drama

João Gilberto Prado Pereira de Oliveira, violonista e cantor, 86 anos.

João Marcelo Gilberto, produtor musical, 56 anos. Filho de João e Astrud Gilberto.

Bebel Gilberto, cantora, 51 anos. Filha de João e da também cantora Miúcha, irmã de Chico Buarque.

Cláudia Faissol, empresária, 45 anos. Mãe de Luisa Carolina Faissol Gilberto de Oliveira, de 13 anos.

Maria do Céu Harris, portuguesa, de origem moçambicana, 52 anos. Atualmente mora com o artista.

Daniel Valente Dantas, empresário, 63 anos.

El País