João Pessoa 17/08/2018 07:11Hs

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Início do Ramadã é ofuscado por conflitos no Oriente Médio

Falta de alimentos e preços astronômicos celebração em cidades cercadas. Muçulmanos fazem jejum durante o mês sagrado.

ramadãIraquianos deslocados registram suas famílias na entrada do campo Amriyat al-Fallujah, aberto recentemente e que abriga os que fogem da violência da cidade de Fallujah, tomada pelo Estado Islâmico (Foto: JEAN MARC MOJON / AFP).

Muitas famílias fugiram para um acampamento improvisado próximo, onde dizem ter pouca eletricidade para se refrescar durante as horas em que o calor é mais forte, e um pouco de comida para entregar o jejum ao anoitecer.

“Quem pode entrar em jejum neste ano? Para entrar em jejum não é preciso comer? Não temos nada”, disse à agência Reuters Shukriya Na’im, de 75 anos, em comentários ecoados por muitos outros no acampamento.

“Costumávamos ter uma vida confortável quando estávamos em casa. Costumávamos jejuar e receber o Ramadã com felicidade, mas agora nossas vidas em tendas estão tão difíceis, doenças estão desenfreadas e está muito quente”, disse Sana Khamis, também refugiada.

Em Damasco, muitas pessoas reclamaram das dificuldades econômicas causadas pelo conflito na Síria, que já dura cinco anos e tornou difícil a criação de um espírito festivo neste mês.

Aleppo, Síria
Neste ano, mais uma vez, Ahmad Aswad, de 35 anos, que falou à AFP, não terá esta sorte em Aleppo, uma cidade síria bombardeada todos os dias.

“Aqui não há nada que se pareça com alegria. Este é o quinto Ramadã que passo durante a guerra”, lamenta este pai de três crianças que vive em um bairro controlado pelos rebeldes.

Além dos combates, a falta de alimentos e os preços astronômicos impedem a celebração do Ramadã nas cidades sírias cercadas, como em Madaya, onde uma simples alface custa 7.000 libras sírias (5 dólares).

Homem carrega criança que ficou ferida em ataque em Aleppo, no domingo (5) (Foto: George Ourfalian/AFP)
Homem carrega criança que ficou ferida em ataque em Aleppo, neste domingo (5) (Foto: George Ourfalian/AFP).

“Há poucos produtos nos mercados e quando são encontrados estão tão caros que não é possível comprá-los”, explica Mumina. Esta mulher, de 30 anos, se limita a preparar os alimentos com latas de conserva, “muito insípidas”, enviadas pela ONU.

De qualquer forma, Mumina não está animada. Deverá passar o Ramadã “sem seus filhos e sua família”, que precisaram fugir, como tantos outros sírios.

Em Daraya, outra cidade síria cercada, “os disparos para celebrar o Ramadã nunca param”, diz sarcasticamente Shadi Matar, um militante, que conta que é preciso ser muito valente para sair e procurar comida.

Outros países
O contraste é absoluto com os outros países do Golfo. Nestes países, alguns dos quais são os mais ricos do mundo, hotéis e restaurantes competem para propor os mais caros “iftars”, a refeição noturna para romper o jejum.

Em Riad, Dubai ou Abu Dhabi, o Ramadã é o mês do consumo e do excesso, apesar de algumas medidas de austeridade impostas pela queda dos preços do petróleo nos últimos meses.

Assim, o luxuoso hotel Burkh al Arab de Dubai propõe “uma variedade de iguarias tradicionais deliciosas” para o “iftar” a 400 dirhams (110 dólares) por pessoa.

O Ramadã também provoca fervor na Indonésia, o maior país muçulmano do mundo.

Na maioria do país é praticado um Islã moderado, mas em algumas regiões, vários grupos conservadores tentam impor regras rígidas durante este mês sagrado, como o fechamento de bares e de locais de lazer.

“Respeitem o caráter sagrado do Ramadã. Não nos opomos ao lazer, mas às vezes tende à imoralidade”, declarou Khafar Shodiq, responsável da Frente de Defensores do Islã.

Na Tunísia, onde nenhuma lei proíbe de comer ou beber em público durante o Ramadã, o debate sobre a tolerância também está presente.

O Coletivo para as Liberdades Individuais, no qual participam várias ONGs, pediu às autoridades que “garantam as liberdades durante o Ramadã” e não fechem restaurantes ou cafés.

Na China, na região de Xinjiang (noroeste), onde vivem 10 milhões de uigures, muçulmanos de língua turca, o Partido Comunista no poder impôs restrições para celebrar este mês do jejum.

G1.Globo