João Pessoa 14/08/2018 15:42Hs

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O ano em que o grupo Estado Islâmico perdeu seu “califado”

Membros do exército iraquiano com a bandeira do grupo Estado Islâmico depois de vitórias em Mossul em 17 de junho 2017.REUTERS/Alkis Konstantinidis/File Photo

Em 2017, o grupo Estado Islâmico (EI) perdeu a quase totalidade do seu território, começando com as duas principais capitais de seu autoproclamado califado: Mossul, no Iraque e Raqa, na Síria. Hoje, os jihadistas estão enraizados em alguns bolsões na fronteira sírio-iraquiana, o que levanta questões  sobre o futuro do grupo EI, agora sem uma base territorial.

Reportagem de Nicolas Falez

2017 testemunhou uma série de derrotas para a organização jihadista EI. Depois de nove meses de luta, no início de julho, as autoridades iraquianas anunciaram o fim da batalha de Mossul, a segunda maior cidade do Iraque, conquistada três anos antes pelo grupo EI.

Em 2017, os enviados especiais da RFI cobriram os combates e o retorno gradual de civis à cidade: “Sim, fomos ameaçados, o Estado Islâmico nos matou, nos bateu e nos roubou; Fugi com minha família, ” lembra Ahmed, comerciante de Mossul, à Murielle Paradon em outubro de 2017. “Agora, a situação é boa, mas eu gostaria de voltar para casa. Não podemos ir, tudo está destruído. Nós tentamos, mas as autoridades não nos deixam, ainda não é seguro.”

O grupo Estado Islâmico já não tem uma base territorial no Iraque, mas ainda pode cometer ataques: 45 pessoas, entre eles civis e soldados, foram mortos pelos jihadistas desde outubro, quando a organização perdeu Hawija, seu último reduto no país.

A queda de Raqqa

No Iraque, foi o exército nacional e as milícias xiitas apoiadas pela coalizão internacional anti-jihadista que derrotaram os terroristas. Na Síria, a coalizão dependia dos SDFs (Forças Democráticas Sírias), dominadas pelos curdos.

Desde o início dos bombardeios aéreos contra o grupo EI em 2014, a coalizão admitiu matar 801 civis no Iraque e na Síria. A organização independente Airwars, no entanto, dá um número muito mais alto de vítimas, perto de 6 mil.

Em outubro de 2017, depois de meses de bombardeios e um acordo para evacuar alguns de seus combatentes, o grupo EI é expulso de Raqa, sua autoproclamada capital na Síria. A luta foi violenta e as forças curdas sírias agora controlam um campo de ruínas.

Em novembro, os enviados especiais da RFI, Sami Boukhelifa e Boris Vichith, visitaram um acampamento perto de Raqa, onde as famílias dos jihadistas foram detidas: crianças e mulheres, como, por exemplo, Khadidja, uma mulher tunisiana de 29 anos, que se juntou ao marido em 2014, na Síria. A jovem descreve “o pesadelo” que viveu. “O Estado Islâmico não tem nada a ver com o Islã”, diz Khadidja hoje, que admite ter respondido ao “chamado” da organização. “A principal preocupação do EI é o dinheiro e o poder. E eles os conseguiram aterrorizando as pessoas. Não tem nada a ver com a religião “, disse a jovem, para a RFI.

Futuro dos Jihadistas

O futuro dos jihadistas e suas famílias é uma das apostas do “pós-EI” no Iraque e na Síria. No início de dezembro, o ministro das Relações Exteriores francês estimou que cerca de 500 franceses ainda estavam na Síria ou no Iraque.

Sem território, o grupo Estado Islâmico não tem infraestrutura e recursos financeiros (principalmente receitas vindas do petróleo) que lhe permitiram reivindicar o termo “Estado”. Esta base territorial também lhe permitiu organizar ataques, em particular, os de novembro de 2015 em Paris.

Após o declínio registrado pela organização jihadista em 2017, “ficam o projeto, a ideologia e alguns combatentes”, resume o pesquisador e consultor Romain Caillet. “O grupo Estado Islâmico havia antecipado a perda de seu território”, disse o pesquisador que descreve o movimento que agora substitui a Al Qaeda. Paradoxo: “No início, quando jovens franceses, russos, tunisianos ou sauditas foram para a Síria, o EI era um grupo regional e a Al-Qaeda uma organização transnacional. Atualmente, as filiais locais da al-Qaeda estão cada vez mais próximas da lógica nacional, enquanto o grupo Estado Islâmico toma seu lugar como um grupo transnacional envolvido em uma guerra total contra o mundo inteiro “, explica Romain Caillet.

Destino do líder do grupo EI é desconhecido

Ainda não sabemos o que aconteceu com o chefe do grupo Estado Islâmico, Abu Bakr al-Baghdadi, que, em junho de 2014, proclamou o califado em uma mesquita em Mossul. Sua morte foi anunciada e, em seguida, desmentida, várias vezes, inclusive por ele mesmo, pois, apesar do desastre de sua organização, ele conseguiu gravar e transmitir uma gravação de áudio em setembro passado.

Noticiário Francês