João Pessoa 23/05/2018 12:56Hs

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Na China, 60 milhões de crianças são abandonadas pelos pais

crianças abandonadas chinaO governo chinês deu início nesta semana a um censo nacional para identificar crianças abandonadas, um problema de grandes proporções no país mais populoso do mundo. A iniciativa, que deve ser concluída em julho, quer identificar e buscar soluções para o que os chineses chamam de crianças “deixadas para trás”. O termo é usado para definir menores de 16 anos da zona rural da China, cujos pais trabalham e vivem longe de casa.

Luiza Duarte, correspondente da RFI em Hong Kong

O objetivo do levantamento chinês é recolher informações sobre a quantidade e a localização de crianças que não são criadas por seus pais e identificar qual a estrutura familiar, educação e saúde elas possuem. Outro foco é mapear qual é a fonte de renda de seus parentes.

A China vai criar uma base de dados sobre esses jovens para definir políticas públicas adequadas para tratar esse grave problema que atinge a juventude do país, segundo o anúncio feito pelo governo nesta terça-feira (29). Hoje eles contam com pouco assistência.

Os últimos números oficiais apontam que mais de 60 milhões de crianças da zona rural vivem com outros familiares ou mesmo sozinhas. Elas não têm nenhum ou têm apenas contatos esporádicos com seus pais. Segundo uma pesquisa conduzida pela ONG chinesa Shangxuelushang, no último ano, 15% – ou cerca de 10 milhões de crianças – viram os pais apenas uma vez por ano. O estudo indica um aumento da depressão e de outros danos psicológicos em jovens vivendo nessas condições.

Motivos do abandono dos filhos na zona rural

A China é um país de dimensões continentais e o número de pessoas vivendo com recursos limitados é grande. Essa é uma realidade que atinge principalmente as famílias mais pobres. Milhões de trabalhadores são forçados a deixar as zonais rurais do país em direção aos grandes polos industriais do leste da China em busca de melhores oportunidades.

O abandono de menores está diretamente vinculado às longas jornadas de trabalho -que não raro ultrapassam 15h diárias-, à dificuldade que esses trabalhadores migrantes têm em arcar com moradia nas metrópoles chinesas e também em garantir vagas nas escolas e no sistema de saúde da nova cidade para seus filhos.

A China tem uma reforma em curso em relação ao registro de residência, chamado de hukou, em mandarim. Cerca de 100 milhões de pessoas devem ser realocadas de forma permanente em grandes centros urbanos, nos próximos cinco anos. A transferência oficial de residência é extremamente complicada e é apontada como um dos principais fatores de exclusão de famílias mais pobres dos benefícios sociais. Desta forma, elas acabam deixando para trás filhos e também parentes idosos em suas cidades natais.

Medidas anunciadas pelo governo

Em fevereiro, o vice-ministro chinês de Assuntos Civis, Zou Ming, afirmou que aqueles que não cumprirem com suas obrigações como pais e abandonarem seus filhos serão punidos. Zou afirma que o abandono não só viola a ética da família, como fere a lei em casos mais extremos. Segundo ele, pais negligentes vão sofrer consequências que irão desde programas educativos, a punições por violações da segurança pública, investigações e mesmo a perda da custódia.

Esse comportamento vem sendo combatido publicamente e está sendo abordado pela imprensa estatal do país. Recentemente, o governo publicou uma diretriz assinada pelo primeiro-ministro chinês, Li Keqiang, para a proteção das crianças abandonadas afirmando que “alguns pais raramente vão para casa para visitar seus filhos ou mesmo entram em contato com eles, causando sérios danos ao bem-estar físico e psicológico das crianças”. O documento define as obrigações da família, da sociedade e do governo na China. O texto pede que as autoridades locais sejam mais presentes, fornecendo um acompanhamento especial para esses jovens, assegurando que eles tenham ao menos um responsável presente e acesso a cuidados básicos.

O descaso e o abandono de menores são vistos como os grandes responsáveis por tragédias envolvendo suicídio infantil, como no episódio registrado no ano passado na província de Ghizhou, no sudoeste do país, que chocou os chineses.

Noticiário Francês