João Pessoa 21/06/2018 12:12Hs

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A classe política à espera do 15 de março

Milhares de brasileiros expressarão neste domingo sua repulsa à corrupção e ao abuso de poder, o que deve aumentar a fragilidade do Executivo

impeachmentecontra dilmaManifestantes em ato contra Dilma em São Paulo(Ricardo Matsukawa/VEJA.com)

No último domingo, uma das frases marcantes do desastroso pronunciamento da presidente Dilma Rousseff foi a que ela admitia que o brasileiro “tem todo o direito de ficar irritado e preocupado” com o futuro do país. O resultado prático dessa irritação e preocupação serão conhecidos neste domingo, quando estão agendados protestos contra Dilma em mais de 200 capitais e cidades em regiões metropolitanas. O sucesso ou o fracasso dessas mobilizações deixaram a classe política em alerta na última semana. Para o Palácio do Planalto e o Partido dos Trabalhadores, o temor é óbvio: uma mobilização em massa levará a pressão contra o governo a níveis até hoje não testados. O contrário será usado pelo PT para martelar o discurso de que o panelaço da semana anterior foi uma reação da elite.

Do outro lado, setores da própria oposição hesitam sobre os rumos da crise, especialmente na economia. Mas a avaliação final foi que o embarque na onda dos protestos era inevitável. Na quarta-feira, o PSDB decidiu apoiar oficialmente as manifestações – desde que elas não levantem a bandeira do impeachment de Dilma por enquanto. Líderes da sigla como o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e o senador José Serra (SP) adotaram discursos cautelosos. Só na sexta-feira o senador Aécio Neves (MG), derrotado por Dilma nas eleições do ano passado, divulgou um vídeo no qual declarava apoio às passeatas: “O próximo domingo será lembrado para sempre como o Dia da Democracia”, disse.

A memória do estrago produzido pelos atos de junho de 2013 ainda é viva para a classe política. No início daquele mês, a popularidade da presidente Dilma Rousseff era de 57%. Ao término de junho, era de apenas 30%. A explicação para a derrocada repentina são os protestos que se espalharam rapidamente pelo país na ocasião. As manifestações começaram para marcar posição contra o aumento da tarifa do transporte público em algumas capitais, mas cresceram gradualmente e acabaram por ganhar uma pauta ampla e impossível de ser unificada. O governo, que não previra a insatisfação popular e se viu paralisado diante dos primeiros protestos, foi obrigado a reagir e traçou um plano de emergência que incluía o endurecimento do combate à corrupção e um plebiscito para a reforma política. Fracassou de ponta a ponta.

Desde que os protestos de 2013 arrefeceram, o país não havia voltado a presenciar grandes manifestações de rua. O hiato vai acabar neste 15 de março, quando dezenas de protestos ocorrerão em cidades de todas as regiões brasileiras. Na comparação com 2013, o cenário é muito diverso e ainda pior para o governo, que tem bom motivos para se preocupar. Três diferenças são determinantes. Primeira: a popularidade de Dilma Rousseff está no seu ponto mais baixo desde que a petista assumiu o Planalto, em 2011. Segunda: o movimento atual é voltado primordialmente contra o governo, ao contrário do de 2013, quando tinha alvos diversos. Terceira: a

Sem sustentação popular, o governo fica ainda mais exposto em tempos de instabilidade. Além do escândalo do petrolão, os brasileiros têm tomado consciência das mentiras usadas na campanha para reeleger Dilma – a mais suja da história do país. Mesmo antes do início do segundo mandato, os números da economia deixavam evidente que o governo gastou demais, maquiou dados e mentiu para justificar o discurso eleitoral da presidente. Agora, com a inflação em alta, o dólar disparando, a perspectiva de um PIB negativo e uma piora nos índices de emprego, os efeitos da crise econômica afetam diretamente o contribuinte.

O ato do dia 15 de março foi agendado com mais de um mês de antecedência. Por isso, o PT e o governo puderam se preparar. O partido, mais ou menos de forma organizada, ensaiou uma fracassada demonstração de força nesta sexta-feira, quando grupos ligados ao partido e a sindicatos aparelhados fizeram um ato em defesa de Dilma – ou uma manifestação em defesa dos saqueadores da estatal.

Mas o contraste entre um lado e outro deve se tornar evidente neste domingo. Sem serem convocados por partidos ou entidades organizadas, sem receber auxílio financeiro para comparecer aos atos, os manifestantes contrários ao governo não são militantes profissionais e se mobilizaram sobretudo por meio do Facebook e do Whatsapp.Também por isso, os partidos de oposição foram cautelosos e só declararam seu apoio ao movimento poucos dias antes da passeata do dia 15. Nenhum deles quer passar a imagem de que está se apropriando ou financiando o movimento. Ou reforçar o discurso petista de que os protestos são meramente uma tentativa de forçar um “terceiro turno” eleitoral.

Petistas tentam desqualificar os novos manifestantes como se o protesto deste domingo expressasse apenas a incompreensão de uma parcela economicamente favorecida dos brasileiros. Mas a velha fórmula da luta de classes já é incapaz de explicar a mobiliação espontânea e sincera dos manifestantes. O discurso batido demonstra como a lógica petista perdeu totalmente a capacidade de explicar o país.

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