João Pessoa 28/05/2018 05:23Hs

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Em 2012, emissões de dióxido de carbono subirão 2,6%

Projeção revela que 35,6 bilhões de toneladas de CO2 serão jogados na atmosfera este ano. Curva das emissões indica planeta até 5ºC mais quente

aquecimento global emissão de co2Os maiores poluidores de 2011 foram China, Estados Unidos, União Europeia e Índia (iStockpho)

As emissões de dióxido de carbono (CO2) continuarão subindo significativamente em 2012, revela uma projeção divulgada neste domingo pela nova edição do Global Carbon Project (projeto conduzido por cientistas de todo o planeta para produzir dados sobre o aquecimento global). Cientistas do Tyndall Centre for Climate Change Research, da Universidade de East Anglia, no Reino Unido, que ajudaram a coordenar o projeto, afirmam que, em relação ao ano passado, as emissões do principal gás de efeito estufa devem crescer 2,6%, chegando a um recorde de 35,6 bilhões de toneladas jogados na atmosfera.

O estudo considera apenas as emissões de dióxido de carbono. Deixa de fora o metano e o óxido nitroso, que, em menor proporção, também contribuem com o efeito estufa.

Os resultados, publicados nos portais científicos Nature Climate Change e Earth System Science Data, revelam que as emissões provenientes da queima de combustíveis fósseis estão 58% acima dos níveis de 1990, ano base do Protocolo de Kyoto. “Esse novo estudo chega durante a conferência do clima em Doha”, afirma a principal autora do estudo, professora Corinne Le Quéré, da Universidade de East Anglia, referindo-se à Conferência sobre Mudanças Climáticas das Nações Unidas (COP-18), em andamento no Catar. “Mas com as emissões continuando a crescer, é como se ninguém estivesse escutando a comunidade científica.”

Os números das emissões divulgados neste domingo são compatíveis com cenários de aquecimento do globo superiores ao limite de aumento de temperatura de dois graus Celsius, estabelecido como meta na COP de 2009, em Copenhague. “Essa situação de mudança de composição da atmosfera pelas emissões da queima de combustíveis fósseis já está tendo impactos hoje, com um aumento médio da temperatura de um grau Celsius, e com projeções de aumento de temperatura que variam de dois graus Celsius a cinco graus Celsius ao longo deste século”, analisa o físico Paulo Artaxo, um dos maiores especialistas brasileiros na área e membro do IPCC, o painel da ONU sobre mudanças climáticas.

Opinião do especialista

Paulo ArtaxoProfessor do Laboratório de Física Atmosférica do Instituto de Física da USP e membro do IPCC, o painel da ONU sobre mudanças climáticas.


“Em vista da enorme dificuldade que a Rio+20 e as reuniões climáticos (COPs) dos últimos cinco anos tiveram em implementar políticas de redução de emissões de carbono, a comunidade científica alerta para o fato de que estamos caminhando para cenários que alguns anos atrás eram impensáveis. É absolutamente fundamental implementar políticas de controle de emissões de gases de efeito estufa o mais rápido possível. Uma demora de oito a dez anos para iniciar a implementação dessas estratégias de redução vai fazer com que os impactos socioeconômicos sejam maiores e que os custos também aumentem significativamente.”

Os possíveis efeitos de um aquecimento amplo em um espaço de tempo tão curto deixam a comunidade científica preocupada. “Conseguimos dizer com alguma certeza com o que o mundo se parecerá num cenário dois graus Celsius mais quente. Mas quando passamos a falar em mudanças de cinco graus Celsius ou até mesmo de seis graus Celsius, tudo fica muito acima das barreiras do que vivemos no passado recente”, diz Le Quéré ao site da Universidade de East Anglia. “É difícil prever as consequências na vegetação, no derretimento das calotas polares, no solo que produz nossos alimentos e na ocorrência de fenômenos naturais extremos. Da mesma forma, é impossível garantir que esse mundo seria seguro para uma população de sete bilhões de pessoas.”

Atores de peso – Reunindo dados de 2011, o Global Carbon Project mostra que os maiores atores das emissões em 2011 foram China (28%), Estados Unidos (16%), União Europeia (11%) e Índia (7%). Dessa forma, qualquer esforço de redução de emissões passa pela adoção de ações imediatas e duradouras nessas quatro regiões, que juntas respondem por quase metade do total de emissões globais, de acordo a pesquisa.

Os dados mostram, no entanto, que os dois gigantes asiáticos intensificaram suas emissões significativamente em 2011, em relação ao ano imediatamente anterior (9,9% para a China e 7,5% para a Índia). Os EUA e a União Europeia, por outro lado, alcançaram cortes de 1,8% e 2,8%, respectivamente.

Cobrindo o gargalo – Para os pesquisadores, apesar das emissões atuais apontarem para os cenários mais extremos, ainda é possível uma transição para alternativas consistentes em manter o aquecimento global abaixo dos dois graus Celsius. Como exemplo, eles citam alguns casos de países que lograram cortes graduais e constantes na liberação de carbono por longos períodos.

“Uma substituição contínua de carvão e petróleo por gás natural levou a reduções de 1% a 2% ao ano na década de 70 – e novamente nos anos 2000 – no Reino Unido”, exemplificam. Situações semelhantes foram observadas na Dinamarca, França e Suécia, o que revela, segundo os autores, a viabilidade real da redução de emissões por meio da substituição de combustíveis e melhoras em eficiência energética.

“O trabalho conclui que é possível limitar o aquecimento global abaixo de dois graus Celsius. Mas, para tanto, teremos que mudar rapidamente o sistema energético que move a economia do nosso planeta e investir  em energias renováveis como a solar e a eólica, além de aumentar significativamente a eficiência energética de processos industriais e do setor de transporte, entre outras medidas necessárias”, resume Paulo Artaxo.

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