João Pessoa 21/06/2018 23:23Hs

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Escutas mostram que tráfico interferiu no sorteio dos beneficiados pelo ‘Minha casa, minha vida’ na Cidade de Deus

minha-casa- interferencia do tráficoNa Cidade de Deus, Zona Oeste do Rio, a construção de quase mil apartamentos do programa “Minha casa, minha vida” tinha como objetivo, segundo o governo do estado, a realocação de famílias que viviam “em áreas de risco e condições insalubres”. O sorteio, no entanto, pode ter beneficiado o crime. Segundo uma investigação da Polícia Civil, bandidos interferiram na escolha dos agraciados. No quarto capítulo da série “Minha casa, minha sina”, o EXTRA mostra diferentes formas de influência exercidas pelo tráfico de drogas na vida dos moradores.

Numa escuta feita pela 32ª DP (Taquara), uma mulher, identificada pela polícia como “uma das pessoas responsáveis pela triagem dos beneficiados” pelo projeto na Cidade de Deus, convence um gerente do tráfico da favela a cadastrar uma pessoa morta entre os postulantes a um apartamento no Residencial Itamar Franco. A ligação, gravada em 18 de julho do ano passado, faz parte de um inquérito que culminou com a prisão de dez traficantes em janeiro deste ano.

“Você tinha que pegar o nome dela que já tá pronto (…) e, depois que tiver morando, trocar pro nome dele”, diz a mulher. Segundo funcionárias da 23ª Região Administrativa da prefeitura que trabalham na Cidade de Deus, o cadastro foi feito por associações de moradores da favela. O governo do estado entregou as unidades.

“Mas não daria problema não?”, responde Deilson Ribeiro da Silva, o Deidei, preso desde 21 de agosto de 2014 na Penitenciária Gabriel Ferreira Castilho, em Bangu. “Não dá problema não, eu falei com sua cunhada que depois eu quero mostrar o óbito e transferir, entendeu?”, argumenta a mulher.

Ao fim do inquérito, Deidei foi denunciado pelo promotor Eduardo Paes Fernandes como o “responsável pela ingerência do tráfico no ‘Minha casa, minha vida’”. A mulher não foi identificada, e as investigações sobre a fraude no cadastro não avançaram. Um morador, entretanto, procurou a 32ª DP no ano passado para denunciar que “pessoas da associação de moradores, a mando de traficantes, estão cobrando o valor de R$5 mil para moradores conseguirem o benefício”.

Deidei: segundo MP, ele fraudou sorteio do
Deidei: segundo MP, ele fraudou sorteio do “Minha casa, minha vida” Foto: Reprodução

A Cidade de Deus tem uma UPP desde fevereiro de 2009. A presença do crime no Itamar Franco, contudo, não é discreta. Em todos os prédios, há uma inscrição assinada pela facção que controla o tráfico no Caratê, localidade mais conflagrada da favela: “Quem for pego roubando vai morrer”.

— A venda de drogas acontece nas garagens. Quando a polícia chega, os bandidos fogem para os condomínios — diz Francisco*, dono de um imóvel no conjunto.

Confira a nota da Coordenadoria de Polícia Pacificadora:

O policiamento nessas comunidades é planejado a partir de informações do Setor de Inteligência da Coordenadoria de Polícia Pacificadora (CPP), Disque-Denúncia e também com base nas manchas criminais de cada região. Além do policiamento diário, operações são planejadas estrategicamente, inclusive com o apoio do Comando de Operações Especiais (COE).

Os comandos das Unidades de Polícia Pacificadoras (UPPs) citados não foram informados oficialmente sobre denúncias de tráfico de drogas nessas comunidades. No entanto, ações já estão planejadas nessas áreas em parceria com a Polícia Civil.

As UPPs possuem um canal para receber denúncias, que é a “Ouvidoria Paz com Voz”. O telefone para contato é o 2334-7599 ou pelo sitewww.ouvidoriaupp.com.br. Os dados também podem ser repassados para o Disque-Denúncia (2253-1177). O anonimato, em todos os canais, é garantido.

‘Minha casa, minha sina’

Após três meses de apuração, o EXTRA constatou que todos, absolutamente todos, os 64 condomínios do “Minha casa, minha vida” destinados aos beneficiários mais pobres — a chamada faixa 1 de financiamento — no município do Rio são alvo da ação de grupos criminosos. Neles, moram 18.834 famílias submetidas a situações como expulsões, reuniões de condomínio feitas por bandidos, bocas de fumo em apartamentos, interferência do tráfico no sorteio dos novos moradores, espancamentos e homicídios.

Mais de 200 pessoas foram ouvidas, entre moradores, síndicos, policiais civis e militares, promotores, funcionários públicos e terceirizados, pesquisadores e autoridades. Além disso, foram analisados documentos da Polícia Civil, do Ministério Público, da Secretaria de Habitação, do Disque-Denúncia, da Caixa Econômica e do Ministério das Cidades, parte deles obtidos por meio da Lei de Acesso à Informação. O material deu origem à série “Minha casa, minha sina”.

Extra Online