João Pessoa 21/06/2018 17:31Hs

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Infraestrutra Rio 2016: Caretos e erros da Olímpiada

parque olímpiadasEm outubro de 2009, o Brasil vibrou com o anúncio do Comitê Olímpico Internacional (COI) de que o Rio seria a sede dos Jogos Olímpicos de 2016. De lá para cá, enquanto se preparava para receber o evento, o país enfrentou sucessivas crises – econômicas e políticas –, que chegaram ao auge no ano da Olimpíada. Mesmo com o sucesso da Copa do Mundo em 2014, compartilhada entre várias cidades, pairava a dúvida sobre a Rio 2016: vai dar certo?

Foram cerca de R$ 25 bilhões em investimentos nas áreas de infraestrutura e mobilidade. Às vésperas do evento, o atraso na entrega de algumas obras, o fracasso da meta de despoluição de 80% da Baía de Guanabara – local de competições esportivas –, a epidemia de zika e os frequentes episódios de violência na cidade despertaram críticas crescentes na imprensa internacional. No ambiente interno, a opinião pública questionava os investimentos e colocava em dúvida o sucesso do evento.

A três meses do início dos Jogos, nem tudo estava pronto. A queda de um trecho da recém-inaugurada ciclovia de São Conrado, obra paralela às de mobilidade, colocou em xeque a segurança da infraestrutura olímpica. O principal legado na área de transporte, a Linha 4 do metrô, esperada há mais de 30 anos, gerava apreensão por causa do atraso para a conclusão da obra. Quando faltava apenas um mês para a abertura da Olimpíada, o governo do Rio decretou estado de calamidade pública – faltava dinheiro em caixa, principalmente para garantir a segurança na cidade durante o evento.

O mundo elogiou, e o Brasil ficou orgulhoso, quando os Jogos foram declarados abertos, no dia 5 de agosto. Mas nem os desafios foram vencidos completamente.

Parque Olímpico fica na Barrra da Tijuca, principal área de competições da Rio 2016 (Foto: Renato Sette Câmara/Parque Olímpico/Divulgação)

INFRAESTRUTURA

ORio passou por diversas transformações para receber os Jogos Olímpicos. Obras de infraestrutura e mobilidade alteraram a rotina da cidade, com a promessa de legado após o evento. Em abril, o COI conferiu “selo de aprovação” das obras, que estavam 98% concluídas.

PONTOS ALTOS:

– Entrega de todas as obras das arenas olímpicas

Todas as obras de infraestrutura esportiva foram entregues a tempo da realização dos Jogos. Estavam incluídas a revitalização temporária do entorno do Engenhão, o Parque Olímpico, o Complexo Esportivo de Deodoro, a Arena do Futuro, o Estádio Aquático, o Centro Internacional de Transmissão, a Vila Olímpica e o Campo de Golfe.

Piscina de aquecimento do Estádio Aquático (Foto: Renato Sette Câmara/Parque Olímpico/Divulgação)

– Revitalização da Zona Portuária

Iniciada no fim de 2013, com a implosão do Elevado da Perimetral, a revitalização da Zona Portuária garantiu ao Rio uma orla repaginada na região. A instalação do Boulevard Olímpico atraiu uma média de público estimada em mais de 80 mil pessoas por dia. O público misturou crianças e idosos, cariocas e turistas, brasileiros e estrangeiros.

– Limpeza total nas instalações olímpicas

O público elogiou o serviço de limpeza nas áreas olímpicas. De acordo com a Comlurb, a média de coleta de lixo foi de 104 toneladas por dia, inferior à do réveillon de Copacabana. Para a empresa pública responsável pela limpeza, o público foi “consciente” e colaborou com a manutenção dos espaços limpos.

PONTOS BAIXOS:

– Problemas pontuais na entrega da Vila Olímpica

A Vila Olímpica, que hospedou os atletas, foi alvo de críticas logo que as delegações começaram a chegar para os Jogos. O time da Austrália reprovou as instalações e chegou a se recusar a ocupar o local. Falaram em vazamento de gás e água, entulho acumulado e defeitos na instalação elétrica. Os suecos também se queixaram. Os problemas foram resolvidos em caráter emergencial, demandando força-tarefa de mais de 500 operários e gastos extras de cerca de R$ 1 milhão.

– Incidentes com ventos e ressacas do mar

Já com a Olimpíada em andamento, algumas estruturas erguidas para os Jogos não suportaram a ação do vento e da ressaca do mar. Grades foram derrubadas no Parque Olímpico, a rampa de acesso à Marina da Glória cedeu, vidros da fachada do Centro de Transmissão dos Jogos (IBC) foram quebrados, tapumes caíram. Não houve vítimas em nenhum desses episódios.

– Falha no tratamento da água da piscina

A mudança na coloração da água na piscina do Estádio Aquático repercutiu negativamente. Em vez do azul cristalino, atletas e público se surpreenderam com a água em tom verde e turvo. De acordo com a organização, o problema foi causado por falhas no sistema de tratamento da piscina.

MOBILIDADE

As obras de infraestrutura de mobilidade urbana estão na lista dos principais legados da Olimpíada. Ampliação de vias, como a do Elevado do Joá, criação de corredores exclusivos para ônibus, novo sistema de transporte de massa e ampliação do sistema metroviário estão entre os principais benefícios para a cidade no setor.

PONTOS ALTOS:

– Inauguração da Linha 4 do Metrô

Depois de quase 30 anos de espera, o carioca viu sair do papel a ligação entre a Zona Sul e a Barra da Tijuca, na Zona Oeste, por metrô. A Linha 4 foi inaugurada às vésperas dos Jogos, com atendimento exclusivo ao público que se dirigia ao Parque Olímpico. Mesmo sem testes prévios com passageiros, a Linha 4 operou prontamente, sem intercorrências, e garantiu acesso fácil ao BRT Transolímpico, corredor exclusivo de ônibus para transporte até o Parque Olímpico.

– Construção do VLT

Inaugurado pouco mais de um mês antes da Olimpíada como uma opção de sistema moderno de transporte para o Centro do Rio, o Veículo Leve Sobre Trilhos (VLT) liga o Aeroporto Santos Dumont à Rodoviária, passando pela Zona Portuária. O serviço transportou passageiros gratuitamente na fase de testes e, apesar de alguns incidentes, foi elogiado pelos usuários.

– Transporte público atendendo ao público olímpico

O sistema de ônibus, metrô e BRT garantiu o atendimento ao público das áreas de competições. Uma das poucas críticas foi o fechamento da Linha 4 do metrô e da Linha 2 antes da saída de todo o público do Parque Olímpico. O problema foi parcialmente solucionado com a implantação do serviço especial do BRT entre a Barra e a Zona Sul após o fim do horário de operação do metrô.

– Apoio da população

A prefeitura do Rio fez reiterados apelos para que a população priorizasse o transporte público durante a Olimpíada. O apoio foi apontado pelo governo municipal como fator que contribuiu para a mobilidade durante o evento. Embora congestionamentos façam parte da rotina da cidade, não foram verificados engarrafamentos atípicos durante os Jogos.

PONTOS BAIXOS:

– Congestionamento causado pelas faixas olímpicas

Às vésperas do início dos Jogos, entraram em operação as faixas olímpicas em vias importantes da cidade. Destinadas ao tráfego da chamada “família olímpica”, elas restringiram a circulação de veículos. O resultado foi cerca de 120 km de congestionamento no primeiro dia de operação – e o trânsito ruim continuou em várias regiões do Rio. As faixas olímpicas ainda foram alvo de disputa jurídica: a prefeitura queria multar em R$ 1,5 mil quem circulasse por elas. A Justiça barrou a aplicação das multas, consideradas inconstitucionais. O caso chegou até ao Supremo Tribunal Federal, que manteve decisão do juiz.

– Comércio citou prejuízo devido à ampliação de feriados

Por causa da Olimpíada, a Prefeitura do Rio havia decretado três dias de feriados na cidade. Às vésperas da abertura dos Jogos, o prefeito decidiu decretar um quarto feriado. Ele justificou a medida citando o congestionamento que a passagem da tocha olímpica provocou em uma segunda-feira de dia útil. Os feriados foram motivos de reclamação de comerciantes, que citaram prejuízos.

SEGURANÇA

AOlimpíada do Rio demandou o maior esquema de segurança para megaeventos já realizado no país, de acordo com o ministério da Defesa. O reforço no setor incluiuum aporte emergencial do governo federal de R$ 2,9 milhões. Foram mobilizadosmais de 80 mil agentes de segurança, incluindo as polícias Militar, Civil e Federal, além da Força Nacional e das tropas das Forças Armadas (Marinha, Exército e Aeronáutica).

PONTOS ALTOS

– Nenhuma ameaça real de terrorismo

A 15 dias do início da Olimpíada, a Polícia Federal deflagrou uma operação em nível nacional batizada de Hashtag, na qual foram presas 12 pessoas suspeitas de algum tipo de ligação com o grupo extremista Estado Islâmico. Mas, num ano em que atentados terroristas deixaram vítimas em pelo menos 17 países, o Brasil seguiu imune durante os Jogos. Alguns alertas de supostas bombas chegaram a mobilizar equipes especializadas. Na Arena Carioca 1, por exemplo, um pacote suspeito chegou a ser detonado, atrasando a entrada do público para o jogo de basquete entre Nigéria e Espanha. Mas nenhuma ameaça real foi identificada durante todo o evento.

– Esclarecimento do caso Ryan Lochte

O maior escândalo envolvendo a segurança pública do Rio foi a farsa protagonizada por um astro da natação dos Estados Unidos. Ryan Lochte declarou ter sido assaltado ao lado de outros três companheiros de equipe quando eles voltavam à Vila Olímpica vindos de uma festa na Lagoa. Na versão inicial de Lochte, os criminosos eram homens com distintivos que apontaram uma arma para a cabeça do nadador. A Polícia Civil concluiu na investigação que tudo não passou de uma farsa. Os nadadores, na verdade, se envolveram uma confusão num posto de combustíveis. Lochte acabou pedindo desculpas, dizendo que não foi cuidadoso nem sincero. Ao Jornal Nacional, reconheceu ter sido imaturo e impreciso. Pediu desculpas ao povo brasileiro e disse que o país não merecia. A polícia indiciou Lochte e Feigen por falsa comunicação de crime. Feigen pagou multa de R$ 35 mil.

– Protestos liberados

Em meio à crise política pela qual passa o Brasil, o Comitê Rio 2016 proibiu qualquer tipo de protesto nas arenas olímpicas. Por causa de uma lei sancionada pela presidente afastada, Dilma Rousseff, pessoas que portavam cartazes de protesto e com a inscrição “Fora, Temer”foram retiradas das arenas pelas forças de segurança. Mas, no dia 8 de agosto, uma liminar da Justiça Federal vetou a proibição de protestos nas arenas e estabeleceu multa para o Estado do Rio, a União e o Comitê Olímpico caso a medida fosse descumprida. Os protestos foram, então, liberados.

PONTOS BAIXOS:

– Morte de agente da Força Nacional

O caso de violência mais grave foi cometido justamente contra agentes de segurança. Um veículo da Força Nacional foi metralhado ao entrar, por engano, na Vila do João, uma das comunidades que compõe o Conjunto de Favelas da Maré, na Zona Norte do Rio. Três agentes ocupavam o carro. Um morreu baleado na cabeça e outro ficou ferido sem gravidade. O terceiro escapou ileso.

Soldado Hélio Andrade morreu ao atuar Força Nacional durante a Olimpíada (Foto: Reprodução/TV Globo)

– Assédio sexual contra mulheres

Atletas de quatro delegações são investigados por estupro, agressão ou assédio sexual contra camareiras na Vila Olímpica. Dois deles chegaram a ser presos por estupro. No dia 5 de agosto, o pugilista marroquino Hassan Sada foi preso por suspeita de estuprar duas camareiras. O atleta negou ter cometido o crime. A polícia informou que ele atacou as duas, apalpando uma das vítimas e apertando os seios da outra. Sada deixou o presídio de Banguapós conseguir habeas corpus no dia 12, mas teve de entregar o passaporte e não poderá deixar o Brasil sem autorização judicial.

O pugilista da Namíbia Jonas Junias Jonas também foi preso por suspeita de estuprar uma camareira, que ele teria tentado agarrar e beijar. Na denúncia, ela citou que o pugilista ofereceu dinheiro em troca de sexo. Jonas deixou Bangu no dia 11 após conseguir alvará de soltura.

Antes do início da Olimpíada, o segurança Genival Ferreira Mendes, funcionário da empresa Gocil, que prestou serviços ao Comitê Rio 2016, foi autuado em flagrante no dia 31 de julho por estupro de vulnerável. De acordo com a polícia, a vítima dormia no alojamento do velódromo, no Parque Olímpico, quando ocorreu o ataque.

O pugilista da Namíbia Jonas Junias Jonas, que preso suspeito de estupro, durante o desfile de abertura, em que foi porta-bandeira de seu país (Foto: Pedro Ugarte/AFP)

– Ataque a ônibus com jornalistas estrangeiros

Um ônibus que transportava jornalistas estrangeiros teve os vidros quebrados em um ataque no trajeto entre o Complexo Esportivo de Deodoro e o Parque Olímpico. A suspeita inicial foi de que o veículo tivesse sido alvo de tiros. A polícia afirmou, no entanto, que o estrago foi provocado na verdade por pedradas. Ninguém ficou ferido. De acordo com o Comitê Rio 2016, os tiros ouvidos no momento do ataque partiram de um local de treinamento na mesma região do incidente.

– Tiros no Centro Olímpico de hipismo

Um projétil atingiu a sala de imprensa do Centro Olímpico de Hipismo, na região de Deodoro, enquanto as primeiras provas de hipismo CCE eram disputadas na arena principal. O artefato, de origem não identificada, furou a lona que cerca o local e caiu no chão, sem deixar feridos.

– Ocorrências policiais envolvendo estrangeiros

Embora o Instituto de Segurança Pública ainda não tenha divulgado balanço das ocorrências policiais registradas durante a Olimpíada, alguns casos de roubos e furtos com vítimas estrangeiras se tornaram públicos. Um dos que teve maior repercussão ocorreu um mês antes do início dos Jogos, quando dois contêineres com equipamentos de uma emissora de TV alemã foram roubados no trajeto para o Parque Olímpico. Os equipamentos foram recuperados pouco depois.

Também antes do início da Olimpíada, três chineses que diziam estar no país para assistir aos Jogos afirmaram que criminosos lhes roubaram R$ 40 mil. Um lutador de jiu-jitsu da Nova Zelândia disse que teve de pagar R$ 2 mil a PMs que o sequestraram. Já o jornal australiano “Sidney Morning” informou que uma equipe de reportagem sofreu uma tentativa de assalto por um travesti. Já durante os Jogos, a polícia ainda abriu inquérito para investigar um suposto roubo a um atleta britânico e um nadador australiano contou ter sido abordado por um homem e obrigado a sacar R$ 1 mil.

 ÁGUA E SAÚDE PÚBLICA

qualidade das águas na Baía de Guanabara e na Lagoa Rodrigo de Freitas era um dos grandes desafios do Rio, já que estes locais serviriam de palco para competições. A polêmica em torno disso começou a ganhar força um ano antes do início dos Jogos, quando a agência de notícias AP citou uma análise cuja conclusão dizia que os atletaspoderiam contrair doenças nas “águas olímpicas”. Não bastasse a poluição ambiental, outra questão de saúde virou foco de controvérsia internacional: a ameaça do vírus da zika, que provocou uma epidemia no país.

PONTOS ALTOS:

– Ausência de lixo flutuante durante as provas

Terminadas as competições na Baía de Guanabara e na Lagoa Rodrigo de Freitas,autoridades classificaram como um “sucesso” as ações paliativas para conter o lixo flutuante nas águas. O velejador Marcelo Ferreira, medalhista em Atlanta e Atenas, disse que a baía teve “água de Caribe”. Já a dupla brasileira Samuel Albreht e Isabel Swan afirmou ter sido prejudicada pelo lixo, e uma velejadora belga passou mal após competir. A Secretaria Estadual do Ambiente declarou que esses casos foram pontuais.

– Atletas se jogando nas águas

Um indicativo de que a poluição aparente não prejudicou as provas ou intimidou os atletas foram as constantes comemorações dentro da água após as provas. Competidores se atiraram nas águas tanto da Baía de Guanabara quanto na Lagoa Rodrigo de Freitas para festejar os resultados.

– Ameaça de zika não se confirmou

A ameaça de contaminação pelo vírus da zika gerou intensos alertas entre as delegações internacionais. Um dos produtos mais procurados no mercado da Vila Olímpica foi justamente o repelente contra insetos. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), não há certeza quanto ao período de incubação do vírus – que vai do contágio ao surgimento dos primeiros sintomas –, mas há evidência de que são apenas alguns dias. Após mais de 15 dias de competições, não houve relatos de atletas com suspeita da doença.

PONTO BAIXO:

– Não cumprimento da meta de despoluição da Baía de Guanabara

Quando o Rio foi declarado sede dos Jogos Olímpicos, uma das principais promessas era a despoluição de 80% da Baía de Guanabara. Entretanto, o local continua sendo o destino de grande parte do esgoto da cidade. Terminada a Olimpíada, o secretário estadual do Ambiente reafirmou que a meta era superestimada e sugeriu que serão necessários, pelo menos, mais 20 anos de investimentos nas ações para despoluir o local.

G1