João Pessoa 23/05/2018 10:44Hs

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João Santana recebeu US$ 7,5 milhões em contas no exterior, diz PF.

Lava-Jato tem mandados de prisão expedidos contra marqueteiro e sua mulher

joão comunicaçãoJoão Santana e Dilma, durante o intervalo do primeiro debate na campanha presidencial de 2010

— Deflagrada nesta segunda-feira, a 23ª fase da Operação Lava-Jato investiga os pagamentos feitos ao publicitário João Santana, coordenador das campanhas eleitorais que levaram Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff à Presidência. O marqueteiro é suspeito de receber US$ 7,5 milhões em contas no exterior entre 2012 e 2014. Os valores teriam sido pagos pela offshore Klienfeld, identificada pela força-tarefa como um dos caminhos de propina da Odebrecht no exterior, e pelo engenheiro Zwi Skornicki, suspeito de operar o esquema de propina na Petrobras. A suspeita é de que os pagamentos correspondem a serviços eleitorais prestados ao PT.

— Chama à atenção, e por isso a gente imputa o crime de lavagem (de dinheiro) a João Santana, que nos extratos do Citibank há clara referência de que os depósitos estavam relacionados a contratos — afirmou o delegado Filipe Hille Pace.

A operação

Alvo da Lava-Jato é levado pela Polícia Federal em São Paulo – Marcos Alves

A nova fase da Lava-Jato foi batizada de “Acarajé” em alusão ao termo utilizado por investigados para denominar dinheiro em espécie. Foram expedidos mandados de prisão para João Santana e sua mulher e sócia, Monica Moura. Os dois estão na República Dominicana, onde trabalham na campanha de Danilo Medina à reeleição. Os nomes de ambos serão incluídos na lista da Interpol em alerta vermelho. Segundo sua assessoria, Santana vai se apresentar à PF junto com Monica.

Zwi Skornicki foi preso em sua casa, na Barra da Tijuca, no Rio. A força-tarefa da investigação informou que também foram cumpridos mandados de prisão contra Vinicius Veiga Borin e Maria Lucia Guimarães Tavares, que é secretária da Odebrecht.

A operação envolveu cerca de 300 agentes da Polícia Federal nesta segunda. Foram cumpridos 51 mandados, sendo 38 de busca e apreensão, 2 de prisão preventiva, 6 de prisão temporária e 5 de condução coercitiva. As ações aconteceram em três estados. No Rio, os agentes estiveram na capital, em Angra, Petrópolis e Mangaratiba. Também houve cumprimento de mandados na capital paulista, em Campinas e Poá, em São Paulo. Na Bahia, os policiais federais atuaram em Salvador e Camaçari.

Buscas em sedes da Odebrecht
POR MARCO GRILLO

Polícia Federal declarou a prisão preventiva de João Santana e está apreendendo documento e computadores de empresas envolvidas no esquema de corrupção. – Márcia Foletto / Agência O Globo
Os agentes da Polícia Federal cumpriram mandados em sedes da Odebrecht no Rio, em São Paulo e na Bahia. Dois carros da PF foram à Odebrecht Óleo e Gás, na Avenida Pasteur, e na sede da construtora, na Praia de Botafogo, ambos no Rio. Eles chegaram ao local por volta de 7h30m.

Na sede da Odebrecht Óleo e Gás no Rio, funcionários foram dispensados após a chegada dos policiais. Só ficaram no prédio aqueles cujo trabalho seria essencial para o desenrolar da operação, como, por exemplo, o fornecimento de senhas dos computadores. As portas foram fechadas e ninguém pode entrar. Por volta das 10h30m, um entregador que precisava levar um pacote para uma funcionária foi barrado e precisou voltar.

Em nota, a Odebrecht informou que a empresa “está à disposição das autoridades para colaborar com a operação em andamento”.

Pagamentos ao marqueteiro

João Santana foi marqueteiro das campanhas da presidente Dilma Rousseff e da campanha da reeleição do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em 2006. Segundo os investigadores, o publicitário recebeu US$ 7,5 milhões em contas no exterior através da offshore Klienfeld, que já foi indentificada pela Lava-Jato como um dos caminhos de propina da Odebrecht no exterior. Foram identificados quatro depósitos entre abril de 2012 e março de 2013 que totalizaram US$ 3 milhões.

Outra parte teria origem em contas do engenheiro Zwi Skornicki, que foi preso preventivamente nesta segunda-feira. Ele teria feito nove depósitos para a offshore Shellbill Finance SA, que pertece a João Santana segundo a força-tarefa, entre 2013 e 2014. Eles totalizariam US$ 4,5 milhões. De acordo com os investigadores, os valores passaram por bancos em Londres e Nova York antes de chegar à Suíça.

João Santana passou a ser investigado em um inquérito sigiloso após suspeitas de manter contas no exterior, com origem não declarada. Os primeiros indícios da participação do casal no esquema apareceram para os investigadores durante busca e apreensão em endereço do consultor Zwi Skornicki quando foi encontrado um documento manuscrito enviado pela mulher de Santana. No papel, Mônica Moura aponta duas contas, uma nos Estados Unidos e outra na Inglaterra.Na ocasião, Santana negou a prática de caixa 2 por meio de sua empresa, a Pólis Propaganda & Marketing.

A conta dos publicitários onde a Lava-Jato encontrou o rastro de pagamento de propina está em nome da offshore panamenha Shellbill Finance SA e não teria sido declarada às autoridades brasileiras. No ano passado, assim que surgiram os primeiros indícios de pagamentos a Santana, o publicitário admitiu ter contas fora do país, mas disse que elas foram declaradas à Receita Federal.

Desdobramentos no TSE

Os investigadores acreditam que os pagamentos feitos no exterior aos publicitários João Santana e Mônica Moura serviram para quitar dívidas de campanhas petistas. As transferências ocorreram entre abril de 2012 e novembro de 2014. Neste período, os publicitários comandaram a campanha de reeleição da presidente Dilma Rousseff. A eleição está sendo contestada pela oposição que encaminhou quatro pedidos de cassação no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) por supostas irregularidades ocorridas durante a disputa em 2014. Entre as acusações está a de que a campanha foi abastecida com dinheiro desviado da Petrobras.

O Globo