João Pessoa 25/05/2018 22:37Hs

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O Estado quebrou?

Amigo de muito tempo, Arquimedes (façamos de conta que esse é o nome dele) procurou-me ontem para transmitir uma surpreendente constatação. Segundo ele, nas duas últimas semanas foram divulgadas notícias que apontam para um quadro preocupante no Estado. O Estado estaria passando por uma crise financeira sem precedentes.dinheiro 3232A crise seria um fato indesmentível, inclusive porque em nenhum momento o governo teria negado categoricamente qualquer das informações sobre o assunto nem deu a menor explicação, como é do feitio, do perfil e do estilo de quem está no poder. “Agora reeleito, agora é que o homem vai nem pisar o chão”, previu o camarada, obviamente avaliando o que acredita ser a postura do governador em novo mandato. De qualquer sorte, por enquanto a falta de esclarecimentos funcionaria como admissão tácita de que as finanças estaduais andariam mesmo ruins das pernas.

Ainda sobre a suposta crise o meu aflito interlocutor acredita que ela decorreria de excessos nos gastos em ano eleitoral. “Daí vem esse absurdo corte no orçamento dos outros poderes (Legislativo e Judiciário) e órgãos autônomos (Tribunal de Contas, Ministério Público, Defensoria Pública e Universidade Estadual). Daí vêm os gastos com pessoal acima do limite permitido pela Lei de Responsabilidade Fiscal. Se você olhar direitinho, vai ver o quanto inchou a folha do Estado este ano e não há como dissociar o inchaço da campanha pela reeleição”, disse. Mas um dos sinais mais claros de que a coisa não está nada boa, na avaliação dele, seria o atraso no pagamento de pequenos fornecedores, a exemplo daqueles que fornecem imagem positiva para governo e governador, caso das emissoras de rádio que sobreviveriam basicamente de uma mesada da Secom (Secretaria de Comunicação Institucional do Estado).
“São, em sua maioria, rádios do interior que formam aquela rede que tem como cabeça a Tabajara e transmite o ‘Palavra do Governador’ e um jornal pela manhã.

Tem rádio que recebe R$ 5 mil, tem rádio que recebe até R$ 20 mil. Num mercado fraco como o nosso, onde o varejo contribui muito pouco no faturamento das rádios, imagine, então, como não é no interior, onde o comércio raramente gasta com propaganda em rádio. Daí a dependência quase total da verba publicitária oficial”, afirmou Arquimedes. Perguntei como ele sabia disso tudo e aí o cara abriu o jogo (do seu interesse em me procurar para contar o ‘drama): desde o começo do ano dirige uma das credoras do Estado e vive um aperreio danado porque sem a grana da Secom não consegue fechar as folhas de final de ano. O aperreado companheiro já chama de ‘calote governamental’ a forma como o governo vem tratando a ‘categoria’, porque este ano só teria pago duas parcelas e a partir do meio do ano avisou que não liberaria mais um centavo por obra e graça da legislação eleitoral.
‘Clima de velório’
“Passada a eleição, articulamos um encontro com a Secom, um encontro mediado pela Abert (referia-se à representação local da Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão) para discutir o problema e uma solução possível. O encontro foi realizado, recentemente, mas sem a presença do secretário de Comunicação ou de qualquer outro representante categorizado do Governo do Estado”, lamentou o angustiado diretor, acrescentando que a maioria dos participantes alimentava a expectativa de que o governo acenaria com alguma possibilidade. Nada vezes nada. “A reunião terminou em clima de velório, amigo”, resumiu.
Sem perspectivas

Arquimedes teme que o governo não apenas não pague o atrasado que deve às rádios como elimine de vez a despesa com rádios no próximo mandato. “Soube que o homem já disse que se não precisou da imprensa para se reeleger, agora é que não está interessado mesmo em manter boas relações com quem quer que seja desse meio”, revelou. Além do quê, emendou, todo o foco do governador estaria concentrado hoje em manter uma maioria confortável e fiel na Assembleia, para não ter riscos de reprovação de contas. Para tanto, precisaria a todo custo e a qualquer preço evitar mais uma reeleição de Ricardo Marcelo como presidente da Casa. Na interpretação do meu dileto, significa que haverá farta distribuição de benesses, cargos e empregos aos deputados estaduais, sobretudo àqueles que se aproximaram do governador no segundo turno da eleição e teriam que passar por um oneroso “processo de fidelização”. Com isso, aposta, as finanças do Estado ficarão ainda mais comprometidas e não haverá margem para o governo contemplar “a miudeza”, expressão que usou para medir o tamanho que rádios como a dele teriam na régua do governador.
O vale do Detran

Tratei do assunto na CBN João Pessoa, ontem, pela segunda vez. Refiro-me à denúncia segundo a qual funcionários efetivos do Detran receberam vale-alimentação (no valor de R$ 250) apenas no período eleitoral (agosto, setembro e outubro). O de novembro não foi entregue e o de dezembro não deve sair porque o fornecimento deverá ser feito por uma nova empresa, a ser contratada mediante licitação. Procurada, a Assessoria de Imprensa do órgão esclareceu-me anteontem que acabou o contrato com o atual fornecedor para que possa ser trocado o sistema de tickets por cartão eletrônico. Do jeito que estava, com os funcionários recebendo carnês, todo mês um encarregado tinha que rodar todo o Estado com os vales em papel para entregá-los mediante recibo a cada um. Essa operação tinha custos elevados de diárias, gasolina e motorista. Apesar desses esclarecimentos, pessoas que trouxeram o suposto problema ao conhecimento do colunista garantem que não está havendo nem haverá licitação alguma e os servidores do Detran continuarão excluídos do benefício que já foi regularizado em todas as secretarias de Estado.

 

Rubens Nóbrega