João Pessoa 27/05/2018 12:03Hs

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PF vê corrupção em ferrovias e desvio de ao menos R$ 630 milhões

"O Recebedor" é fruto de colaboração premiada da Camargo Correa na Lava-Jato. Empreiteira disse que pagou R$ 800 mil de propina para Juquinha, ex-presidente da estatal de ferrovias

trens corrupçãoAs investigações da Polícia Federal apontam um prejuízo de R$ 631,5 milhões só nos trechos da Ferrovia Norte Sul em Goiás. Nesta manhã, agentes realizaram a Operação “O recebedor”, que é um desdobramento da Lava-Jato. O objetivo é apurar corrupção e lavagem de dinheiro em obras neste trecho e também na Integração Leste-Oeste. A ação acontece depois de acordo de leniência e com a empreiteira Camargo Corrêa, das empresas alvo da Lava-Jato – que investiga corrupção na Petrobras –, além de colaboração premiada com seus executivos. A medida forneceu documentos e testemunhos para o caso.

De acordo com o Ministério Público, a Camargo Corrêa admitiu os crimes de cartel, corrupção, lavagem de dinheiro e de licitação. Também firmou compromisso para devolver R$ 800 milhões, sendo R$ 65 milhões destinados a ressarcir os danos acusados à estatal de ferrovias Valec. A empresa ainda entregou documentos e prestou depoimentos contra investigados, como o ex-presidente da Valec, José Francisco das Neves, o “Juquinha”. A Camargo alega ter pago R$ 800 mil para Juquinha.

O Correio ligou hoje para um advogado arrolado na defesa do ex-presidente da Valec, mas ele afirmou que não atua mais no caso. O outro defensor não foi localizado.
Os agentes fazem diligências em seis estados – Paraná, Maranhão, Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais e Goiás – e no Distrito Federal. Os 180 policiais cumprem sete mandados de condução coercitiva, quando a pessoa é levada para prestar esclarecimentos e depois liberada, além de 44 ordens de busca e apreensão. Os agentes buscam suspeitos e provas sobre a suspeita de pagamento de propina para a construção das ferrovias Norte-Sul e Integração Leste-Oeste. Entre os crimes estão a formação de cartel, lavagem de dinheiro e o superfaturamento de obras públicas.

Segundo a apuração, os desvios foram de R$ 630 milhões apenas nos trechos da Norte-Sul que cruzam Goiás. A ferrovia começou a ser construída no governo José Sarney (1985-1990). A PF afirma que as empreiteiras que faziam pagamentos regulares por meio de “contratos simulados” a um escritório de advocacia e mais duas empresas em Goiás. As firmas eram indicadas por Juquinha, segundo o MPF. O objetivo era fazer uma “fachada para maquiar” a origem ilícita do dinheiro vindo de “fraudes em licitações públicas”. “Os pagamentos não se referiam a serviços efetivamente realizados, utilizando-se contratos de fachada para dar aparência de legalidade aos pagamentos feitos pelas empreiteiras em benefício de Juquinha”, disse a Procuradoria, em nota.

Hoje, os policiais buscam provas de pagamento de propina, cartel e lavagem de dinheiro obtido com superfaturamento de obras. Entre os alvos, estão outras empreiteiras, como a Odebrecht, a OAS, a Queiroz Galvão e a Constram, do grupo UTC – todas investigadas na Lava-Jato. Em Brasília, os alvos são sete pessoas: Ulisses Assad, Rony José Silva Moura, Luiz Sérgio Nogueira, Aloysio Braga Cardoso da Silva, Leandro Barata Diniz, Alfredo Moreira Filho e Laize de Freitas.

Trem Pagador
O nome da operação é relacionado à Operação “Trem Pagador”, que investigou superfaturamento na Norte-Sul e resultou em investigação contra Juquinha. Um de seus advogados defendeu-o com a seguinte frase: “Se o trem era pagador, Juquinha não foi o recebedor”.

Na ação de hoje, um outro objetivo é fortalecer investigações anteriores do Ministério Público Federal em Goiás sobre sobrepreço, superfaturamento, crimes de licitações, como cartel, corrupção passiva, desvio de dinheiro público e lavagem, atribuídos à Valec. “Havendo ainda indícios da prática dos mesmos crimes com relação à Ferrovia de Integração Leste-Oeste, durante o período em que foi presidida por José Francisco das Neves, o “Juquinha””, informou a Procuradoria da República em Goiás na manhã de hoje.

O jornal ainda não localizou ou não obteve esclarecimentos das demais empresas e pessoas investigadas e relacionadas na apuração da Polícia Federal e do Ministério Público.

Os alvos de “O recebedor”

Paraná
CR Almeida S/A Engenharia de Obras;
IVAI – Engenharia de Obras S/A;

Maranhão
Agrossera – Agropecuária e Industrial Serra Grande LTDA;

Rio de Janeiro
Construtora Norberto Odebrecht S/A;

Minas Gerais
Servix Engenharia S/A – (Lagoa Santa/MG);
SPA Engenharia Ind. e Com. LTDA;
Egesa Eng. S/A;
Construtora Barbosa Mello S/A;
Consórcio aterpa M. Martins – EBATE;
TORC – Terraplanagem Obras Rodoviárias e Const. LTDA;
Hugo de Magalhães;
João Bosco Santos Dutra – (ARCOS/MG);
João Bosco Santos Dutra;
Bruno Von Bentzeen Rodrigues;
Eduardo Martins;
Daniel Nóbrega Lima De Oliveira – (Nova Lima/MG);

São Paulo
Construtora Queiroz Galvão S/A;
Mendes Júnior Trading e Eng. S/A;
Galvão Engenharia;
Constran S/A – Construções e Comércio;
Construtora OAS S/A;
Serveng Civilsan S/A Empresas Associadas de Engenharia;
Cavan Pré-Moldado S/A;
TIISA – Infraestrutura e Investimentos S/A;
BRAEMP Brasil Empreendimentos e Participações LTDA;
Pedro Augusto Carneiro Leão Neto;

Distrito Federal
Ulisses Assad;
Rony Jose Silva Moura;
Luiz Sérgio Nogueira;
Aloysio Braga Cardoso da Silva;
Leandro Barata Diniz;
Alfredo Moreira Filho;
Laize de Freitas;

Goiás
ELCCOM Engenharia Eireli;
Evolução Tecnologia e Planejamento LTDA;
Heli Dourado Advogados Associados S.S;
Consórcio Ferrosul – (SANTA HELENA/GO);
Heli Lopes Dourado;
José Francisco das Neves
Marivone Ferreira das Neves;
Jader Ferreira das Neves;
Rodrigo Ferreira Lopes Silva;
Rafael Mundim Rezende;
Josias Gonzaga Cardoso;
Juarez José Lopes Macedo.

Correio Braziliense