João Pessoa 23/06/2018 11:47Hs

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Poema de Augusto do Anjos vira HQ pelas mãos de Miguel

O cartunista do JC, que já adaptou para os quadrinhos Morte e vida severina, trabalha agora numa versão cuidadosa de As cismas do destino

cartunista diogo chavesSempre que passa em frente da Praça da República, o cartunista e quadrinista Miguel Falcão sente o impulso de repetir os versos acima. Para ele, a área de uma das mais famosas pontes da capital pernambucana nunca foi um cartão-postal comum, solar e colorido. O asfalto como a pele de um rinoceronte, o susto com a própria sombra, o fósforo alvo da luz das estrelas, todos esses elementos foram ficando marcados no cenário que Miguel enxergava ao chegar ou sair do Bairro do Recife. O que está ali, para o chargista deste Jornal do Commercio, é o Recife lúbrico, revolto, de ar danado de doença – ou seja, o Recife como ele foi descrito pela hipocondria poética do paraibano Augusto do Anjos (1984-1914), que morou na capital quando estudou na Faculdade de Direito.

“Recife. Ponte Buarque de Macedo./ Eu, indo em direção à casa do Agra,/ Assombrado com a minha sombra magra,/ Pensava no Destino, e tinha medo!

”Augusto dos Anjos

No ano em que a literatura nacional lembra os cem anos da morte do poeta pré-modernista – e, para Augusto, mais do que qualquer outro escritor, esse centenário mórbido é bem mais importante do que o de nascimento –, o cartunista pernambucano termina de criar uma história em quadrinhos baseada em um de seus poemas. Miguel, que já adaptou com maestria Morte e vida severina (Massangana, com duas edições esgotadas), de João Cabral de Melo Neto, carregou-se de aquarelas, tinta guache, nanquim e tons escuros para emprestar seu traço ao mais longo poema do paraibano, As cismas do destino.

São 105 estrofes, divididas em quadras, que partem dessa ponte recifense até o fundo – aterrorizante, sombrio e feérico – da alma humana. Assim como na primeira adaptação, o quadrinista vai manter o texto completo na obra, materializando às imagens angustiantes e carregadas de simbolismo do autor de Eu & outros poemas. “Um dos desafios é que os versos de Augusto do Anjos, ao contrário de João Cabral, não são nada narrativos. Morte e vida severina é um auto, quase uma peça com diálogos”, destaca o cartunista.

O projeto de recriar As cismas do destino surgiu há seis meses, oito anos depois da adaptação de Morte e vida severina. Miguel havia não só feito a HQ com o texto integral do poema como também interpretou de forma particular elementos da obra – transformou os personagens que acompanham um enterro todos em pás, por exemplo. Como no verso de Augusto do Anjos não há exatamente uma trama, o cartunista afirma ter se baseado nas imagens abundantes do poema, sempre repletas de força. Fala-se, ali, de “fetos magros, ainda na placenta”, do “estômago esfaqueado de uma criança” e de “esqueletos desarticulados, livres do acre fedor das carnes mortas” que rodopiam.

Galeria de imagens

Legenda
“Gosto desse processo de transformar o texto em quadros. Neste trabalho, entrei em uma loucura bem maior do que antes”, aponta Miguel. “Augusto dos Anjos é perfeito para poder viajar no traço, ele traz para o poema uma série de imagens que passam pela sua vida e suas angústias. Ele dizia que escrevia para si mesmo, não esperava que ninguém lesse. Escrevia para se expurgar.”

A pele de rinoceronte do início do poema, então, faz a própria Ponte Buarque de Macedo se transformar em um estranho animal no meio da paisagem recifense. Augusto dos Anjos ganhou um versão sintética, com seu inseparável guarda-chuva, com certo ar noir de figuras como Dick Tracy. “E eu não me limito as metáforas que ele faz”, explica. Miguel acrescentou às cenas, por exemplo, elementos que ele mesmo criou, como um zepelim. “É uma imagem que os pernambucanos sempre associam ao Recife do começo do século passado. O zepelim é foi o jeito que encontrei de dar forma a esse destino que ele procura no poema. Pensei no zepelim como uma espécie de Moby Dick e Augusto como o capitão Ahab. Ele está buscando o sentido do universo nesse zepelim-cachalote”, afirma.

Desde o primeiro contato com a obra do autor paraibano, Miguel ficou marcado por aqueles versos, que já tinham certo ar de obra de ficção-científica e tons de quadrinhos mais sombrios. Antes, já gostava de autores com um tanto mais de lirismo, como Mario Quintana. “Augusto dos Anjos é forte para um jovem. É punk, é rebelde. A falta de lirismo dele é elevada à enésima potência e atinge o absurdo através do excesso”, comenta.

Parte dessa atração dos leitores vem do vocabulário, científico, pouco usual, exato e escatológico, que assusta e atrai o público – como uma boa obra grotesca deve ser. Aliás, desde a morte do autor paraibano, não foram poucos os críticos a se debruçarem sobre o fenômeno da popularidade dele, como Otto Maria Carpeaux. Ele apontava que os leitores, mesmo quando não entendiam completamente os termos usados, ficavam “fascinados pelas metáforas de decomposição em seus versos assim como estavam em decomposição suas vidas”.

O quadrinho deve ser concluído em janeiro, mas não tem previsão de lançamento. A obra também deve virar a base para uma animação, como Morte e vida severina. Com a homenagem ao poeta filho do carbono e do amoníaco, Miguel também afirma que deseja destacar a pouca atenção que o Recife dá a presença de Augustos dos Anjos por aqui. Augusto já virou estátua, infelizmente escondida numa sombra da Praça da República – é ainda cercada por grades, para impedir o roubo do guarda-chuva da imagem, na versão recifense do vandalismo recorrente com a estátua de Carlos Drummond de Andrade, no Rio de Janeiro.

Miguel diz não procurar fazer uma obra puramente didática, mesmo compondo um material riquíssimo para uso em aulas. As cismas do destino não pretende ser uma facilitação do texto, mas uma interpretação artística. “Não penso a obra como apenas um paradidático. Penso o livro para as pessoas lerem e curtirem mesmo, entenderem porque aquela obra é um clássico”, aponta. Segundo ele, o texto é ideal porque não precisa sofrer corte para caber em um quadrinho. “Não acharia justo tirar uma vírgula de Casa-grande & senzala ou de uma narrativa de Machado de Assis, por exemplo. Machado é literatura pura, não dá para reduzir”, analisa.

 

Jornal do Commércio