João Pessoa 20/05/2018 19:44Hs

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Violência explode após júri livrar policial que matou adolescente negro em Ferguson

Chefe da polícia local afirma que distúrbios após anúncio do veredicto foram muito piores do que as manifestações que ocorreram depois da morte de Brown

violencia negraBombeiros tentam apagar fogo em restaurante incendiado por manifestantes após anúncio do júri no caso Michael Brown

CLAYTON E FERGUSON, MISSOURI — Tiros soaram e prédios foram queimados em Ferguson, Missouri, depois que um grande júri decidiu, na noite de segunda-feira, não indiciar um policial branco pela morte de um adolescente negro desarmado, o que provocou uma nova onda de violentos protestos em várias cidades dos Estados Unidos. O chefe de polícia do condado de St. Louis, Jon Belmar, disse que os distúrbios de segunda-feira à noite e madrugada de terça-feira foram “muito piores” do que as manifestações que ocorreram logo depois da morte de Michael Brown, de 18 anos, ao ser baleado pelo policial Darren Wilson, em 9 de agosto. Após horas de caos e fúria, a queda da temperatura, o cansaço e a chegada da Guarda Nacional parecem ter acalmado as tensões.

Mais cedo, multidões furiosas se reuniram em torno do departamento de polícia de Ferguson, um subúrbio de St Louis, após o grande júri determinar que não havia razões para indiciar Wilson. As forças de segurança se equiparam com artilharia pesada na área perto de onde Brown foi baleado e usaram gás lacrimogênio durante enfrentamentos com manifestantes, que atiraram objetos contra os policiais aos gritos de “sem justiça não há paz”. Vitrines foram quebradas, lojas saqueadas e carros e 12 edifícios incendiados, incluindo um salão de beleza e uma pizzaria.

O governador do estado de Missouri, Jay Nixon, convocou a Guarda Nacional para restaurar a ordem e já havia reforçado o número de policiais nas ruas ante a possibilidade de protestos. A violência explodiu apesar dos apelos de contenção do presidente americano, Barack Obama, que se juntou à família do adolescente pedindo calma e exortando os americanos a aceitarem a decisão de júri.

Jon Belmar disse que ouviu cerca de 150 tiros durante a noite. Ao menos 29 pessoas foram detidas e 13 ficaram feridas nos confrontos — dois por bala.

Assassinos, vocês não são nada além de assassinos — gritava uma mulher usando um megafone em Ferguson.

Protestos também foram registrados em Nova York, Chicago, Seattle, Los Angeles, Oakland e Washington, num caso que chamou atenção para a longa data de tensões raciais não apenas na predominantemente negra Ferguson, mas em todo o país. Em Los Angeles, vídeos e fotos mostram policiais disparando balas de borracha contra manifestantes.

A família de Brown não escondeu o desapontamento com a decisão do júri, mas pediu calma aos manifestantes.

“Estamos profundamente decepcionados de que o assassino do nosso filho não tenha que sofrer as consequências de seus atos”, declarou a família de Brown em um comunicado, no qual pediu “respeitosamente que qualquer manifestação seja pacífica”.

PROMOTOR: DEVER DE JÚRI É SEPARAR FATO DE FICÇÃO

Os 12 jurados, nove brancos e três negros, escutaram 70 horas de depoimentos de quase 60 testemunhas, examinaram centenas de fotografias e ouviram três médicos legistas.

O dever de um grande júri é separar os fatos da ficção. Os juízes determinaram que não há razão suficiente para apresentar acusações contra o policial Wilson — afirmou o promotor de St. Louis, Robert McCulloch.

  O veredicto foi anunciado após a morte no fim de semana em Ohio, no Norte do país, de um adolescente negro de 12 anos. A vítima foi atingida por tiros de policiais quando estava com uma pistola de brinquedo, o que provocou o temor de novos protestos violentos.

O episódio da morte de Brown aconteceu após a denúncia de um roubo em uma loja de Ferguson. As testemunhas afirmam que o adolescente, um estudante do ensino secundário, estava com os braços para o alto quando foi baleado. Wilson alegou que agiu em legítima defesa por temer um ataque.

Depois de ser baleado, o corpo do jovem permaneceu na rua durante horas, um fato que foi considerado pelos manifestantes como um sinal de desprezo das forças de segurança pela população negra. Quase 70% da população de Ferguson é negra, mas as autoridades políticas e policiais são majoritariamente brancas.

O Globo