João Pessoa 22/05/2018 15:23Hs

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Sob o luar dos ‘Terreiros’, cultura popuplar chega a Paraíba

"A cultura popular não está morta", garante Vera Lima, idealizadora do projeto que circula por assentamentos rurais da Paraíba

sob o luar dos terreirosSe tudo der certo, o projeto ‘Cantando nos Terreiros do Povo’ vai estrear lá para as bandas do Norte no ano que vem. A parceria com o Sesc de Porto Velho (RO) quer mostrar àquela faixa do país uma iniciativa paraibana que tem circulado por assentamentos rurais de várias regiões do Estado, valorizando os saberes locais e estimulando a manutenção de expressões da cultura popular.

Sempre que possível, a intervenção é planejada para noites de lua cheia. “Porque é também costume do povo do campo prosear, contar histórias e memórias em noites assim”, explica Vera Lima, idealizadora do projeto.O ‘terreiro’ ao qual Vera se refere sobre a sua ação é a frente das casas, dos sítios por onde passa. Para ela, é um espaço aglutinador, pouco vivido no ambiente das grandes cidades. “O mundo é pensado para o urbano. Então, quando desenvolvemos isso, a ideia era ao invés do povo do sítio ir aos centros para ter acesso a eventos culturais, proporcionar apresentações de coco, ciranda, bois de reis, babau ou cantigas de roda no próprio campo”, ressalta.

Ela não gosta de chamar o que faz de ‘show’, porque no desenrolar do processo todos os moradores se envolvem, cantam, dançam e interagem.

A chegada às comunidades se dá bem antes do início das apresentações, que trazem no repertório musical Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Adeildo Vieira e a própria Vera Lima, além de diversas poesias e literatura de cordel. “É necessário vivenciar o local. A primeira coisa que fazemos ao chegar é conhecer a história, deixamos que as pessoas nos contem quais são as lutas daquele povo, quem morou lá e o que fizeram”, explica.

Ao longo do tempo, diversos parceiros se agregaram à ação, apesar de não ter patrocínio. Hoje, o que se pode chamar de equipe fixa de músicos conta, além de Vera, com os músicos Mário Inácio, Bené Carlos, Márcio de Paula, Juliano Almeida, Fabiane Marques e Suelene Souza. Como todo trabalho é feito na forma de doação do serviço, há uma rotatividade muito grande. Pelo menos outros sete artistas já contribuíram de alguma forma, mas não puderam fincar os pés.

Vera tem formação em psicologia e seguiu para a educação no mestrado. Embora não formalizada, as influências acadêmicas escorreram pela ação cultural. Cada intervenção do projeto é guiada por orientações da arte-educação, sob os conceitos de Augusto Boal. Com isso, mobiliza repertório e valores dos próprios moradores. “Quando a gente começa a lembrar o que é um petisqueiro, para que serve um pilão, para que serve uma peneira, as crianças prestam atenção e os mais velhos participam”.

O trabalho completa dois anos em janeiro. Nesse período já foram visitadas 16 comunidades na Paraíba e também uma no Rio Grande do Norte. Cinco já estão acertadas para o próximo ano.

Foi por meio da Pastoral da Terra, da igreja católica, que o grupo conseguiu chegar ao primeiro grupo rural onde iniciou o projeto, no assentamento Novo Salvador, zona rural do município de Jacaraú, Litoral Norte da Paraíba. “Depois da nossa visita, um grupo de jovens formou uma banda e reproduzem esse trabalho. Também cantam músicas de Luiz Gonzaga, além de composições próprias que relatam a situação deles”, destaca Vera Lima.

Mas assistir de fora ao sucesso dessa iniciativa pode induzir ao erro de pensar que as portas estão sempre abertas. Compunha a ideia original que o estímulo à criação de grupos poderia se dar por meio de oficinas culturais. O que se demonstrou inviável, principalmente por dois motivos: a falta de financiamento através de patrocínio e a falta de aptidão para concorrer em editais.

Outra demonstração da falta de apoios está na possível frustração de mais uma atividade que seria realizada neste fim de semana. A visita seria a São João do Trigre, Cariri paraibano, mas até o fechamento desta edição ela não estava garantida. “O ônibus que nos levaria até a cidade foi negado porque a secretaria de educação não considera que o que nós fazemos é uma atividade educativa. É uma visão de educação bancária”, crítica.

A reprovação também se estende ao que ela chama de espetacularização da cultura. “A cultura popular é sempre relegada como se não fosse profissional. O que é profissional? O que está na mídia?”.

Mas Vera ainda possui uma visão otimista do quadro: “A cultura popular nunca vai morrer. Há muitos espaços de resistência e eu acredito no que chamo de ‘estética da possibilidade’. Às vezes chega um cara da comunidade e pede o nosso pandeiro, começa a tocar. Mesmo que ele não tenha ritmo, mas está ali, participando, dialogando. As pessoas vivenciam a cultura”.