João Pessoa 24/04/2019

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2018 foi o ano da quase recessão que segurou inflação e juros, diz Kupfer

Erros feios nas previsões para o ano - Greve de maio não explica ritmo lento - Subutilização e informalidade crescem

Caminhoneiros fazem paralização na BR 101, Niterói-Manilha, na altura de Itaboraí, no Rio de Janeiro.

Para José Paulo Kupfer, a greve dos caminhoneiros não explica o “ritmo lento”da economia do paísTomaz Silva/Agência Brasil

A média das projeções mais recentes para o desempenho da economia em 2019 apontam crescimento de 2,5%, variação da inflação, medida pelo IPCA, de 4,03% e taxa de câmbio a R$ 3,80, no fim do ano. É possível acreditar nessas previsões? Se a base forem as projeções de janeiro para o ano de 2018, a resposta é “não”.

Quando o ano que está terminando começou, a expectativa dos economistas de mercado consultados pelo Boletim Focus, com previsões organizadas semanalmente pelo Banco Central, era de que a atividade econômica, na mediana das estimativas, avançasse 2,7% ao longo dos próximos 12 meses. No fim de 2018, a taxa de câmbio não passaria de R$ 3,35 e a produção industrial experimentaria expansão de 3,14%.

A realidade dos números deixou as estimativas no chinelo. A economia não teve forças para crescer nem 1,5% sobre a base fraca de 2017, quando o PIB variou 1,1% em relação ao valor de 2016.

A produção industrial, entre idas e vindas, mal superou a do ano anterior em 1%. Ao mesmo tempo, a taxa de câmbio, o indicador que mais humilha os analistas que se aventuram a projetá-lo um ano à frente, confirmou a tradição: está fechando 2018 com cotação 15% acima do previsto em janeiro.

Entre aqueles que, no começo de 2018, se mostravam mais otimistas do que seria prudente com o desempenho da economia, a greve dos caminhoneiros, no último terço de maio, tem sido apontada como um ponto de virada na trajetória econômica do ano.

O inesperado e disseminado desabastecimento de produtos e a paralisia nos serviços causados pela greve ajudou, de fato, a frear o ritmo de recuperação da atividade. Observado em perspectiva, contudo, o acontecido apenas consolidou uma tendência que já vinha se desenhando.

A expansão econômica no primeiro semestre trouxe surpresa positiva e inflou projeções mais animadas. Em março, a mediana das previsões do Focus mostrava crescimento de 2,87% para o ano, acima dos 2,7% projetados em janeiro. Mas, com o refluxo que se seguiu, antes mesmo da greve dos caminhoneiros, as previsões passaram a ceder.

De 2,5%, nos primeiros dias de maio, para 2,37% logo após a paralisação da produção com a greve do transporte de carga, a curva das estimativas para o PIB daí em diante só percorreu uma descendente. Em agosto, os analistas reduziram a variação do PIB no ano para 1,49%, depois para 1,36% em outubro e 1,3%, em dezembro. O resumo da história das projeções de crescimento é que o ano terminará com menos da metade do previsto na entrada de 2018.

A expansão registrada foi suficiente para tirar a economia, ainda que apenas “tecnicamente”, da recessão. Mas não para reduzir a ociosidade da capacidade instalada, com destaque para a “ociosidade” da mão de obra. A taxa de desemprego não recuou além de 1,5 ponto porcentual no ano e, mais importante, houve piora na qualidade da mão de obra ocupada.

A redução do desemprego de 13,1% para 11,7% ao longo de 2018, se deu à custa de uma elevação dos índices de informalidade e do aumento da subutilização da força de trabalho.

Ao fim de mais um ano de quase recessão, mais de 12 milhões de pessoas estavam desocupadas e mais de 25 milhões se encontravam subutilizadas –ou seja, trabalham menos tempo por semana do que poderiam ou desejariam. Dos desempregados, um quarto não conseguia recolocação há mais de dois anos e pelo menos 3,5 milhões de trabalhadores poderiam ser classificados como desalentados, saindo das estatísticas de desocupados por desistência de procurar ocupação.

Trata-se de um quadro de dificuldades que se reflete em dramas pessoais e familiares do qual resultou aumento da pobreza e dos índices de concentração de renda. Mesmo assim, a base de apoio entre economistas ao governo Temer e sua incensada equipe econômica –não por coincidência quase a mesma que está dando sustentação ao grupo auto-intitulado ultraliberal que comandará a economia no governo de Jair Bolsonaro– não se cansa do coro de louvação aos “avanços” econômicos alcançados nos últimos dois anos e meio.

A inflação abaixo do centro da meta, com perspectivas de se manter acomodada nos próximos anos, e a consequente estabilidade da táxa básica de juros no ponto mais baixo da série histórica se combinam para justificar as “comemorações”.

Curiosamente, porém, nenhum desses apoiadores considerou a hipótese de que justamente o baixo crescimento da economia e a demanda reprimida por desemprego, subutilização de mão de obra e informalidade crescente tenham se transformado na verdadeira âncora da inflação baixa e dos juros menos pressionados.

Condições financeiras mais favoráveis estão sendo invocadas para dar base ao otimismo em relação à economia com o novo governo que assume em 1º de janeiro. Mas enquanto o outro lado da moeda –o lado mais social do emprego e da demanda– não sair da zona de restrição em que se encontra, são grandes as chances de que um crescimento decepcionante insista em se fazer presente.

Poder360