A maldade, às vezes, vem de fábrica, analisa Hamilton Carvalho

A maldade, às vezes, vem de fábrica, analisa Hamilton Carvalho

‘Ainda que uma ínfima porcentagem de empresas hoje se preocupe com os chamados chefes tóxicos, é evidente que nossas organizações e instituições não estão preparadas para lidar com o fenômeno’, diz Hamilton CarvalhoUnsplash/Rawpixel

Poucos leitores vão se surpreender com um achado comum de pesquisas científicas: narcisistas costumam usar mais as redes sociais para se exibir. Em um mundo cada vez mais instagramável, pode soar estranho, todavia, dizer que o narcisismo às vezes é sinônimo de estrago social.

Falo do que se conhece na literatura acadêmica como tríade sombria (dark triad), o conjunto de traços de personalidade que engloba, além do narcisismo, o maquiavelismo e a psicopatia. Alguns pesquisadores vão além e acrescentam à lista o sadismo, definindo, assim, um quarteto de traços de personalidade que é a receita para verdadeiros predadores sociais.

As evidências mostram que a tríade sombria está associada com a busca obsessiva por poder, status e dinheiro. A tríade também está associada com a manipulação de terceiros: uma característica que é comum a todos os traços é justamente a insensibilidade com as pessoas, que são percebidas apenas como um meio para atingir objetivos egoístas.

Narcisistas costumam usar o charme pessoal para conseguir a atenção alheia. Se você se julga imune a esse magnetismo, pense duas vezes. Há estudos sugerindo que as mulheres são atraídas por homens narcisistas e que usuários de um famoso aplicativo de namoro pontuam alto nas medidas de traços sombrios.

O fenômeno da tríade sombria tem, sem dúvida, um forte componente genético, mas sua expressão no desenvolvimento individual também depende da interação da genética com o ambiente social. Aqui se inclui a influência de condições sociais hostis na infância.

Para o estudo de problemas sociais complexos como a corrupção, é importante levar em conta o que acontece quando as pessoas portadoras da tríade começam a fazer parte das diversas organizações sociais que impactam a nossa vida.

Ainda que uma ínfima porcentagem de empresas hoje se preocupe com os chamados chefes tóxicos, é evidente que nossas organizações e instituições não estão preparadas para lidar com o fenômeno.

O problema é grave em contextos favoráveis à corrupção, especialmente na pororoca onde se encontram as águas do setor público com as do setor privado. Exemplos são órgãos de fiscalização, as polícias e os partidos políticos.

São organizações em que o poder é concentrado e a transparência, baixíssima –tudo o que o predador social gosta. É como espalhar um rastro de açúcar perto de formigas: pessoas com tendências sombrias são atraídas por ecossistemas ou nichos sociais que permitem a expressão de seus impulsos. No setor privado, por sua vez, há evidências de que são atraídas pelo mundo das finanças e dos negócios.

DEFENDA-SE

É bom que se diga, essas pessoas serão a minoria nas organizações. O problema é que essa minoria pode causar um grande dano na medida em que busca sofregamente o poder. Hoje o consenso científico é de que o poder não muda as pessoas, mas amplifica as tendências individuais já existentes.

Assim, quando os predadores sociais alcançam cargos com acesso a recursos (isto é, o poder), tendem a criar verdadeiras culturas de desvio ético, que lhes beneficiam às custas dos demais.

É comum também, nesse processo, que sejam criadas dinastias que se perpetuam, como se vê com frequência no nosso ecossistema político e, para usar um exemplo do setor privado, no ecossistema do futebol.

Como se proteger desses predadores sociais? No nível individual, você pode procurar se aproximar daquele tipo de pessoa que o pesquisador Adam Grant chama de doador (giver). São pessoas dotadas de empatia e que costumam levar os interesses dos outros em consideração. Vale aqui a antiga dica: veja como essa pessoa trata, por exemplo, seus subordinados.

No nível coletivo, é preciso buscar a transparência radical e redesenhar estruturas de poder nas organizações públicas, especialmente naquelas que atuam em áreas de fricção com o setor privado. Nem precisaria dizer que renovar o sistema de representação política é crucial.

O que assusta, porém, é notar que traços de personalidade sombria são bastante frequentes naqueles que nos governam. Deixo ao leitor a tarefa (fácil) de identificar alguns nomes.

Certamente, são as pessoas menos interessadas em mudar o status quo e certamente são as menos preparadas para lidar com os desafios cabeludos deste século.

Poder360