Análise: China e Rússia deixaram de se considerar mutuamente 'ameaça nuclear estratégica'

Análise: China e Rússia deixaram de se considerar mutuamente ‘ameaça nuclear estratégica’

A China e a Mongólia participarão das futuras manobras russas Vostok 2018, as maiores das últimas décadas, “em resposta à estratégia de segurança nacional estadunidense, bem como à postura dos EUA e da OTAN” em relação à competição entre grandes potências, disse à Sputnik um especialista em relações internacionais e segurança.

Vostok 2018 (Leste 2018) “serão algo parecidos com os Zapad 81, mas em algum sentido até maiores”, disse o ministro da Defesa russo, Sergei Shoigu, citado pelo canal CBS News, referindo-se aos jogos militares de 1981, realizados pela União Soviética no Leste Europeu.

Porta-aviões Liaoning perto do porto de Hong Kong, China, 7 de julho de 2017
Os exercícios Vostok 2018 são umas das quatro maiores manobras anuais realizadas pelo exército russo, além das Zapad, Tsentr e Kavkaz, realizadas no oeste, centro e sul da Rússia, respectivamente.

Espera-se que as manobras contem com participação de quase 300 mil homens, mais de mil aeronaves, duas frotas da Marinha russa, a do Pacífico e do Norte, e todas as Tropas Aerotransportadas, disse Shoigu na terça-feira (28).

Além disso, a China está enviando 3.200 efetivos e cerca de 900 unidades de armamento para esses exercícios, enquanto as estatísticas da participação mongol continuam desconhecidas. As manobras vão decorrer de 11 a 15 de setembro.

Já o porta-voz do presidente russo, Dmitry Peskov, qualificou as manobras como essenciais, dizendo que “a capacidade do país de se defender na situação internacional de hoje, que é muitas vezes agressiva e hostil em relação a nosso país, significa que isso é justificado”.

Veículo chinês AG600, foto postada pela agência de notícias Xinhua, em 23 de julho de 2016. Representante da agência comunica que a maior aeronave anfíbia do mundo será destinada a missões marítimas e ao combate de incêndios
Por maiores que sejam as manobras Vostok 2018, elas são “apenas as últimas em uma série de escaladas de jogos militares”, disse à Sputnik Interacional o analista de relações internacionais e segurança, Mark Sleboda, observando que “ambos os lados estão se preparando para um conflito de grandes potências”.

A Revisão da Postura Nuclear estadunidense, publicada em janeiro de 2018, indicou que “hoje em dia, é a competição entre grandes potências, e não o terrorismo, que é o foco primário da segurança nacional dos EUA”, disse o secretário de Defesa estadunidense, James Mattis, ao apresentar o documento, relatou a Reuters. Particularmente, ele indicou a Rússia e a China como adversários, chamando-as de “potências revisionistas” que “procuram criar um mundo consistente com seus modelos autoritários”.

“Julgando por esse tipo de exercícios, torna-se evidente que a Rússia e a China sentem o mesmo”, disse Sleboda à Sputnik. Ele também sublinhou que a participação da Mongólia é outra “indicação interessante de uma maior coesão na área eurasiática, no sentido militar e político”.

Além disso, o analista observou que a amizade entre a Rússia e a China, que teve seus altos e baixos desde nos anos 40, não tem sido permanente, mas “está aumentando e não mostra quaisquer sinais de deterioração, mas bem o contrário”, não apenas no setor militar, como em “todas as esferas”.

Soldados do Exército Popular de Libertação da China (PLA) na parada militar comemorativa do 90º aniversário do exército chinês, julho de 2017
“Desde os finais da década de 90, com [o presidente russo Boris] Yeltsn, e em uma escala ainda maior com [o presidente russo Vladimir] Putin, houve uma reaproximação incrível entre a Rússia e a China”, disse, citando a resolução das disputas fronteiriças e sua desmilitarização.

Na opinião do entrevistado, as manobras conjuntas de defesa antimíssil entre os dois países também mostram que eles deixaram de se considerar mutuamente “uma ameaça nuclear estratégica” e que “eles preveem que qualquer conflito nuclear estratégico que envolva um deles envolveria naturalmente o segundo”.

Sleboda observa que se trata de um “grande passo político em frente” que proporciona uma resposta à postura da OTAN, particularmente dos EUA, no mar do Sul da China e nos estreitos de Taiwan, bem como no que se trata da presença permanente das suas tropas perto da fronteira ocidental da Rússia.