Análise: governo e PT baixam a guarda e Bolsonaro tem vitória folgada

Análise: governo e PT baixam a guarda e Bolsonaro tem vitória folgada

Senado teve um dia atípico nesta segunda-feira (03/06/2019). Um acordo celebrado entre o governo e a oposição permitiu um raro momento de entendimento político no Congresso. A aprovação da Medida Provisória 871, sobre fraudes na Previdência, contou com a boa vontade até do PT e o presidente Jair Bolsonaro (PSL) conquistou a maior vitória no Parlamento desde a posse em janeiro.

Os sinais de mudança do ambiente começaram a aparecer na última semana, quando o Senado votou a MP 870, sobre reforma administrativa. Nas duas ocasiões, os partidos da oposição fizeram acordo com os governistas, não obstruíram as sessões e permitiram a aprovação dos textos enviados pela Câmara.

Com a negociação, a poucas horas do prazo final, a MP 871 contou com 56 votos favoráveis e 12 contrários. O placar permitiria a Bolsonaro aprovar Propostas de Emenda Constitucional (PECs), que exigem apoio de 49 senadores. Para o governo, essa é uma perspectiva importante, pois a reforma da Previdência depende desse número – corresponde a três quintos do total – para passar no Senado.

O clima de entendimento iniciado na última semana foi confirmado nos discursos feitos na tribuna pelos representantes da situação e da oposição. O líder do governo no Senado, Fernando Bezerra Coelho (MDB-PE), e o líder do PSL, Major Olímpio (SP), agradeceram a decisão dos adversários de não obstruir a votação.

No mesmo tom, o líder da oposição, Randolfe Rodrigues (Rede-AP), o líder do PT, Humberto Costa (PE), e o senador Jaques Wagner (PT-BA) também exaltaram a disposição de diálogo dos governistas. Os três criticaram e votaram contra a MP 871, mas nada fizeram para atrapalhar a aprovação quando o prazo de validade estava perto do fim.

Desde as polarizadas eleições de 2018, ainda não se tinha visto tanto esforço para diálogo entre o Planalto e os adversários. A radicalização da corrida presidencial manteve os ânimos acirrados nos dois lados da disputa.

Embora nas redes sociais o debate continue agressivo e inconsequente, os políticos começam a baixar a guarda. O governo fica mais humildade à medida que o tempo passa e a tramitação das propostas se arrasta com a falta de uma base parlamentar sólida. Nesse sentido, Bolsonaro propôs um pacto com o Legislativo e com o Judiciário para facilitar as conversas entre os Poderes.

Pelo lado da oposição, a melhora no ambiente político diminui a tensão dos últimos meses e evita futuras acusações de atuação contra os interesses do país. Na mesma linha, reduz a sensação de intransigência dos derrotados nas eleições do ano passado.

Deve-se lembrar, ainda, que a oposição também tem governadores, todos dependentes de relações institucionais com o Palácio do Planalto. Assim, não interessa a ninguém manter os discursos de campanha ao longo dos mandatos nos Executivos estaduais e federal.

Nada garante que a disposição para o diálogo prevalecerá nas próximas votações no Senado e na Câmara. O processo legislativo é complexo e o governo tem grande facilidade para produzir factoides que conturbam o país e impedem os consensos necessários para a tramitação de propostas no Congresso.

A oposição também ainda procura uma forma de conviver com os vitoriosos nas eleições do ano passado. Aos poucos, os dois lados parecem aprender como se devem comportar em suas funções.

Metrópoles