João Pessoa 10/12/2018

Início » Entretenimento » Aos 64 anos, Rita Cadillac gosta de ser lembrada como chacrete: “Eu morro de sair desse mundo”

Aos 64 anos, Rita Cadillac gosta de ser lembrada como chacrete: “Eu morro de sair desse mundo”

Eterna Chacrete é retratada no filme “Chacrinha: Velho Guerreiro”, que estreia dia 8 de novembro; para a QUEM ela relembra censura, preconceito e seriedade do apresentador nos bastidores do programa

Rita de Cássia Coutinho, famosa como Rita Cadillac, passou quase 10 anos dançando ao lado de Chacrinha. Se tornou a mais famosa das Chacretes e a única a permanecer na mídia: se lançou como cantora, participou de inúmeros programas de TV – incluindo duas edições do reality show A Fazenda  – e agora, aos 64 anos, se aventurou como atriz: acaba de cumprir a temporada de sua primeira peça, Luz del Fuego, em São Paulo, e estreia em breve a série de comédia Salve-se Quem Puder com Lucélia Santos.

Trinta anos após a morte de Chacrinha, a história do apresentador chega aos cinemas e traz de volta a jovem Rita Cadillac, interpretada no longa pela atriz Karen Junqueira. Chacrinha: o Velho Guerreiro chega aos cinemas dia 8 de novembro e mostra a ascensão, o sucesso e os dilemas pessoais de Abelardo Barbosa, nome verdadeiro do velho guerreiro, vivido por Eduardo Sterblitch e Stepan Nercessian. Rita também apareceu no musical feito sobre Chacrinha em 2015, e deve estar em um documentário previsto para 2019.

Rita Cadillac posa ao lado de Chacrinha e outras chacretes (Foto: Reprodução)

QUEM: Como foi trabalhar no programa do Chacrinha em plena Ditadura Militar?
Rita Cadilac: Era terrível. Nós éramos examinadas antes de entrar no programa, e durante o programa a censora ficava lá parada, ouvindo o que ele dizia. E nós eramos vigiadas também, e eu tinha uma mania terrível: minha roupa sempre foi a menor, então quando a censora ia revistar a gente no camarim, eu puxava o maiô pra ele ficar parado cobrindo mais, mas no programa eu ia dançando e ficava pequeno de novo.

Q: Você acha que agora alguns preconceitos daquela época passaram a ser combatidos?
RC: Escutávamos muita coisa. E ficavamos quietas porque não tinha o que fazer. E tinhamos um rótulo. Quando eu vim morar em São Paulo, nos anos 70, quando o Chacrinha foi para a Band, eu era do Rio e não tinha noção de que você não usa roupa de praia na rua. Eu saí com um macacão transparente e “puta” foi o nome mais bonito que ouvi. E em coro. Só faltaram jogar pedra. Não respeitavam nem a gente sendo conhecida. A duras penas a gente deixou um legado de combate a esse comportamento.

Q: Muitos programas depois do Chacrinha incluiram dançarinas e assistentes de palco inspiradas nas Chacretes.
RC: Eu observo o trabalho delas. Elas sabem que é bonito e gostoso estar ali. A gente ganhava salário mínimo, não era registrada. Não eramos ricas e poderosas, e hoje uma bailarina pode ser garota propaganda de um produto. Ninguém queria a gente em um comercial porque tinham uma outra visão de uma menina que dançava na TV.

Rita Cadillac e Chacrinha (Foto: Reprodução)

Q: Era seu sonho trabalhar na TV?
RC: Aconteceu…. Eu fui parar lá. Meu sonho era dançar fora do país, na Broadway, e eu fui dançar no show do Paulo Silvino e alguém da produção do Chacrinha viu e me convidou. Aceitei para ficar três meses. Na primeira semana o Chacrinha já me chamou para dançar a música da Pantera Cor de Rosa e ficou marcado, saiu no jornal, as pessoas me reconheceram, o ego deu uma crescida, e fiquei praticamente dez anos. Saí  porque tive a oportunidade de gravar um disco e partir para a outra.

Q: Você é a única chacrete que é muito lembrada. Você tinha mais destaque?
O Chacrinha dava chance para todas, eu não tinha mais destaque que as outras. Acho que fiquei marcada pelo momento da Pantera, e porque eu fazia cara de “a gostosa aqui sou eu”, era uma personagem. E eu não saí da televisão. As outras viraram médicas, professoras, donas de casa, advogadas. Com algumas ainda mantenho contato.

Q: A Rita Cadillac é uma personagem?
RC: Não tenho dúvidas. A Rita de Cassia é uma pessoa, a Cadillac é outra, é do mundo artístico. A Rita de Cássia não tem cara de pau para subir no palco. Sempre tive essa separação. Eu saio do palco e sou outra pessoa. Eu sou relaxada, doida.

Rita Cadillac  (Foto: Lucas Ávila/Divulgação )

Q: Como é lidar com a passagem do tempo para alguém que vive da imagem?
RC: Eu preciso achar legal porque quanta coisa eu vivenciei que essa garotada não passou? Eu passei pela ditadura, por tanto preconceito, por um mundo que uma hora está louco, em outra não está mais. E estou aí, indo junto com a garota, eu acompanho. Não tenho problemas com o tempo. E eu tentei botar botox, mas na primeira picada eu falei “tá bom, tchau”. Tenho horror a agulha, sinto dor. Claro que a gente precisa (fazer procedimentos estéticos) porque o mundo está aí, a gente vive da nossa imagem, mas eu sou tão desligada, então o dia em que eu achar que devo fazer eu vou lá e pronto.

Q: Você é uma pessoa ousada?
RC: Eu participei duas vezes de A Fazenda (risos). Na primeira vez, em 2013, eu via pela TV e pensava “é fácil”, mas quando você chega lá e tem que conviver com as pessoas, você fala “o que estou fazendo aqui?”. Eu vivia chorando, saí em depressão. Fiquei um mês, foi muito difícil, era um hospício. Daí, ano passado me convidaram (para A Fazenda: Nova Chance) e eu topei para ganhar um dinheirinho. Eu achava que em um mês eu sairia, e fiquei até o final. Foi melhor porque o povo era melhor, mas em alguns momentos eu tive vontade de mandar meia dúzia passear, mas se eu ficasse louca não seria eu.

Q: Você não costuma sair do sério?
RC: Lá dentro eu saí. Eu mandei o Marcos Harter tomar naquele lugar. É difícil conviver com gente famosa porque o ego é maior. A gente tem o nosso ego. Um se acha mais do que o outro. Eu mesma discuti com uma menina que veio falar que ali só tinha subcelebridades e eu falei: “Espera aí, você pode rodar o Brasil inteiro e todo mundo sabe quem é Rita Cadillac”.

Q: Você já teve vontade de ser anônima?
RC: Eu morro se sair desse mundo. Se eu não puder fazer show, eu vou ser hostess porque meu prazer está em lidar com o público. Estar na porta, linda, é o trabalho de uma artista.

Rita Cadillac  (Foto: Lucas Ávila/Divulgação )

Q: Você busca o glamour do mundo artístico?
RC: O glamour está no palco. As chacretes, por exemplo, eram pessoas normais. Mas eramos conhecidas, invejadas. As pessoas queriam ser chacretes. A gente fazia porque queria aparecer, ser alguém. E éramos só as bailarinas. O Chacrinha tentava mostrar para a gente que podíamos ir além.

Q: Como era a relação com ele?
RC: Ele era um paizão. Cuidava da gente inclusive por conta do preconceito. Os cantores não podiam ir no camarim falar com a gente, e os namorados ou maridos não podiam pegar a gente na porta da emissora, para que ninguém visse a gente indo embora com um homem.

Q: O filme mostra uma bipolaridade do Chacrinha no palco e nos bastidores…
RC: Ele era muito sério, e no palco se soltava. Acho que peguei isso dele. No palco sou a pessoa mais alegre, mais feliz por fazer aquilo. E quando as luzes se apagam você volta a ser a pessoa de casa, calada. Mas as pessoas acham que a festa continua.

Rita Cadillac (Foto: Reprodução)

Q: Você foi consultada para o filme?
RC: No processo do filme eu estava dentro de A Fazenda. Tanto que a Karen(Junqueira, que interpreta Rita no filme) me ligou e eu estava lá. Não tinha como falar comigo. Conversamos depois de ela já ter filmado e ela disse “espero que esteja à sua altura” e eu deixei ela tranquila, se está falando que eu existo está bom.

Q: Imaginava que o trabalho de vocês com o Chacrinha viraria um filme algum dia?
RC: Nunca. Não tínhamos noção do que estavamos fazendo.

Q: Você tem vontade de ver a sua própria história em um filme?
RC: Eu me sentiria muito orgulhosa do que eu fiz, e do que eu sou. Mas teria que contar exatamente como foi, os tropeços, as alegrias, as tristezas de se sentir jogada fora. Eu vivi tudo isso.

Q: O que você ainda quer fazer?
RC: Não sei, o que tem mais para fazer? (risos) Eu encaro o que aparece. É um desafio, e tudo faz parte. Eu deixo as coisas aparecerem porque pra mim nunca deu certo ficar sonhando. A vida me fez não esperar aquilo que eu quero, mas aproveitar o que está vindo. Se veio um limão, vamos lá! O que a vida vai me dando eu vou encarando.

Rita Cadillac  (Foto: Reprodução)
Quem