‘As Marias’: Microcrédito para negócios femininos

Enquanto percorre as ruas estreitas de Glória do Goitá, Zona da Mata Pernambucana, Lilian Prado, a diretora e co-fundadora da organização Acreditar, aponta para negócios espalhados pelo município que ela ajudou a transformar em realidade. São salões de beleza, lojas, serviços e até pequenas propriedades agrícolas capitaneadas por mulheres, frutos de um trabalho dedicado a promover uma cultura empreendedora como uma alternativa de geração de renda em uma região carente.

Uma das principais ferramentas dessa iniciativa é a oferta de microcrédito do Fundo de Negócios “As Marias”, gerido pela Acreditar e cuja missão é fazer da conquista do negócio próprio uma declaração de independência feminina. A ideia de oferecer microcrédito direcionado ao público feminino surgiu em razão da própria demanda local.

Desde 2009, a Acreditar já trabalhava com a oferta de microcrédito, que já beneficiou mais de nove mil empreendimentos. “Percebemos que 70% do nosso público eram mulheres, foi quando criamos o projeto As Marias”, narra Lilian.

O fundo de negócios funciona como um “banco dos sonhos”. Isso porque, para contrair o crédito, a mulher não precisa apresentar comprovação de renda, nem qualquer garantia financeira, apenas uma ideia empreendedora. Os consultores da Acreditar realizam a análise dos projetos financiáveis e atuam tanto no desenvolvimento do plano de negócios, como orientam as futuras empresárias na fase de operacionalização.

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Até agora, o projeto “As Marias” já destinou quase R$ 500 mil em recursos, que estão ajudando a mudar a realidade de mais de 200 mulheres e da economia da região de Glória do Goitá e de municípios vizinhos como Pombos, Gravatá e Lagoa de Itaenga.
“Estamos criando oportunidades para pessoas invisíveis para a economia. Muitas vezes, donas de casa sem formação escolar, que nunca tiveram renda, nem voz. Para elas, ter o negócio próprio é a conquista da autonomia financeira e da autoestima”, narra a diretora.

Lilian também quer combater outra cultura fortemente arraigada à economia do Interior: a do êxodo de trabalhadores. “Os jovens tinham uma cultura de ir embora para ganhar dinheiro. Porque aqui, se não se consegue emprego numa fábrica ou na prefeitura, não existiam outros caminhos. Queremos mostrar que há como gerar oportunidades dentro da sua própria cidade”, argumenta Lilian, que também participou de um projeto social quando jovem e decidiu permanecer em Glória do Goitá para ajudar a mudar a realidade do município.

Entre as formações do projeto “As Marias”, além das orientações direcionadas à gestão dos negócios e cursos de educação financeira, também estão temas do universo feminino, como questões de gênero. Na cartilha entregue para orientação de cada nova empreendedora, também há orientações sobre o que é violência doméstica e contatos de instituições e serviços de apoio às mulheres no Estado, como as delegacias especializadas.

“Eu não sabia o que era isso de gênero, de mulher ter opinião. Achava que mulher casada só ficava em casa, hoje sei que posso fazer o que quiser”, conta Érika Maria do Nascimento, 32 anos, que montou um pequeno salão de beleza em casa, com o financiamento do projeto e participou do curso sobre gênero.

Para ela, independência é poder trabalhar em casa, junto dos seus três filhos, e comprar presentes para eles. “Tenho meu dinheiro, posso levá-los para passear, comprei até um carro”, gaba-se.

Lilian Prado, Gerente e Co-Fundadora da Ong AcreditarLilian Prado, Gerente e Co-Fundadora da Ong Acreditar – Crédito: Brenda Alcântara/Folha de Pernambuco

O empreendedorismo também representou empoderamento e força para Marcilene da Paz, 30 anos, quando ela enfrentou uma tragédia familiar. “Depois de perder o meu filho de três anos, isso me motivou”, conta, dizendo ainda que o financiamento das “Marias” a ajudou a comprar várias peças para a loja de roupas e artigos de bebês, aberta em homenagem ao filho.

O teto de cada operação de microcrédito pelo fundo de negócios é de R$ 1 mil, valor que pode ser devolvido em até dez meses, com juros de 3,5% a 3,9%. Parece pouco, mas foi o suficiente para Natália Laurentino da Silva, 30 anos, comprar seu primeiro lote de roupas para revenda. “Eu pensava: não tenho casa, nem carro no meu nome. Nenhum banco vai me dar financiamento”, recorda. “Hoje tenho minha renda, ajudo meu esposo e estou aprendendo a cuidar das minhas finanças. Antes, pensava que tudo que entrava já era lucro, mas aprendi que preciso reinvestir”, conta.

Como a Acreditar não tem fins lucrativos, seus recursos para oferta de microcrédito são restritos. Eles advêm geralmente de aportes de instituições apoiadoras como a Brazil Foundation e de prêmios conquistados pela entidade. Por isso, a entidade lançou recentemente uma campanha para arrecadar de recursos. As doações podem ser feitas no site abraceobrasil.org. 

Érika Maria do Nascimento abriu seu salão de beleza com a ajuda das “Marias”. Ela conta que achava que mulher casada só ficava em casa. “Hoje sei que posso fazer o que quiser” , ressaltaFoto: Brenda Alcântara/Folha de Pernambuco

Marcilene da Paz encontrou forças na sua loja de roupas para bebês e superou uma tragédia pessoal

Natália da Silva comprou seu primeiro lote de roupas para revenda com R$ 1 mil do microcrédito. “Eu pensava: não tenho casa, nem carro no meu nome. Nenhum banco vai me dar financiamento”, conta

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