Assassinatos em série de crianças no Paquistão incitam tumultos no Paquistão

Assassinatos em série de crianças no Paquistão incitam tumultos no Paquistão

Após uma serie de sequestros em Kasur, os pais temem deixar que os filhos saiam. Foto de uma vítima. Foto: Saiyba Bashir / The New York Times

CHUNIAN, PAQUISTÃO – Muhammad Faizan, de oito anos, desapareceu no dia 16 de setembro; ele foi a quarta criança a desaparecer na cidade de Chunian, no leste do Paquistão, desde o mês de junho. Outros três meninos estavam sumidos havia várias semanas. O corpo de Faizan foi encontrado em uma área deserta a cerca de três quilômetros de sua casa, em Ghosia Abad, bairro pobre de Chunian, distrito de Kasur, na Província do Punjab. A autópsia mostrou que, antes de morrer, havia sido estuprado.

A polícia encontrou também dois crânios, ossos e peças de roupa perto do corpo. Ghazala Bibi, a mãe de um menino de 9 anos que havia também desaparecido, Ali Hussnain, reconheceu a camisa do pequeno. Os pais de dois outros, de oito e 12 anos, respectivamente, foram informados de que as vítimas eram os seus filhos.

Os crimes provocaram horror e revolta em todo o Paquistão. Em Chunian, houve protestos violentos. As pessoas cercaram a delegacia de polícia, acusando-a de negligência. No início de outubro, o chefe de polícia de Kasur, Sohail Habib Tajik, comunicou que um homem de 27 anos, que fora preso para esclarecer as quatro mortes, confessou a autoria dos crimes. Mas a prisão e a confissão  não respondem à indagação dos pais: por que isto continua acontecendo em Kasur?

Em janeiro de 2018, Zainab Amin, de sete anos, foi estuprada e assassinada também em Kasur. Antes dela, outros 12 casos de estupro de crianças haviam sido denunciados em um raio de aproximadamente um quilômetro. O assassinato de Zainab incitou vários tumultos, e o governo prometeu que estes ataques nunca mais voltariam a ocorrer. Mais de um ano depois, porém, os relatos de abusos não param. “Não existe proteção da polícia para as crianças no Punjab”, afirmou Sarah Ahmad, presidente do Departamento de Proteção e Bem-Estar da Criança da província, acrescentando que é preciso impor leis mais rigorosas.

Assassinatos em série

Há diversas teorias a respeito do motivo que torna Kasur um problema maior do que outros lugares – as pessoas culpam a pornografia, as gangues do crime organizado que vendem vídeos criminosos pela internet, as divisões sociais e a prostituição ligada ao crescimento dos centros urbanos. Tajik, o chefe de polícia, informou que casos de estupro são denunciados no país inteiro, mas que Kasur chama a atenção porque há evidências de assassinatos em série. Ele também culpou a urbanização rápida de muitas cidades e centros menores pelo esgarçamento da ordem social.

Pais desesperados estão enfurecidos com a polícia e temem deixar os filhos saír. As autoridades, afirmaram, os tratam com indiferença, em geral aconselhando que procurem os desaparecidos por conta própria. O primeiro-ministro Imran Khan demitiu recentemente policiais de Kasur e deu início a uma investigação. “Todos os autores serão responsabilizados”, prometeu. Também anunciou um novo aplicativo de celular que pode ser utilizado para informar o desaparecimento de uma criança.

Mas estas medidas são um escasso conforto para as famílias das vítimas. “Ali Husnain era o meu filho mais velho. Éramos muito ligados um ao outro”, disse Bibi. “Agora, carregaremos esta dor a vida inteira”.

Estadão