João Pessoa 25/04/2019

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Ativista acusa João de Deus de traficar bebês e escravizar mulheres

A ativista Sabrina Bittencourt, da força-tarefa Somos Muitas, forneceu informações sobre supostos novos crimes praticados por João de Deus ao Ministério Público de São Paulo (MPSP), nesta segunda-feira (7/1). Ela já havia gravado um vídeo divulgado em sua rede social em 3 de janeiro, afirmando que o médium integrava uma quadrilha que traficava bebês e escravizava mulheres há 20 anos.

Segundo Sabrina, foram recolhidos vários relatos de mães adotivas, de países europeus, dos Estados Unidos e da Austrália. Os bebês teriam sido comprado por “20 mil e 50 mil dólares”. A venda era “intermediada por guias turísticas espirituais, ex-funcionárias e cidadãos de Abadiânia que já estão fartos de serem coniventes, de forma coagida, com a quadrilha de João de Deus”, conta a ativista.

Segundo ela, também há mulheres que são utilizadas como escravas sexuais. “Em geral, mulheres negras de baixa renda, tanto em Abadiânia quanto em Anápolis quanto no norte de Minas, que viviam próximas dos garimpos ilegais de João de Deus”. Sabrina afirma que, em troca de comida para suas crianças, as mulheres eram forçadas a engravidar, para que os bebês fossem vendidos no mercado negro de outros países.

Como Sabrina mora fora do país, a conversa com o Ministério Público foi feita por teleconferência. Ela não informou onde está, pois, segundo contou, está sendo alvo de ameaças. Em troca de e-mails com o MPSP, Sabrina autorizou a utilização de relatos e documentos.

Não moro em nenhum país. Vivo em trânsito porque sofro ameaças de morte há meses

Sabrina Bittencourt, ativista

Na tarde desta segunda (7), a ativista também esteve em contato com o Ministério Público de Goiás (MPGO), que comanda a força-tarefa à frente da investigação do caso.

Sabrina Bittencourt ainda acusa o médium de crimes como tráfico de influência, ameaças de morte, abuso, estupro, pedofilia e tráfico de pedras preciosas e semipreciosas.

“Anexei todas as evidências e provas dos relatos que recebi com as devidas autorizações das testemunhas, vítimas, ex-funcionários, voluntários, cidadãos de Goiás. Pelo presente, informo que solicitei a imediata investigação das autoridades do Brasil em cada uma das evidências apresentadas”, afirmou, em vídeo postado no Facebook.

Confira o vídeo:

A promotora Gabriela Mansur, do MPSP, disse ao Metrópoles que a ativista apresentou conteúdo relevante sobre o caso e afirmou que as informações serão investigadas pelas autoridades competentes. Como há menção a estrangeiros e a fatos ocorridos em outros países, há possibilidade de que a Polícia Federal seja acionada.

“Foi uma oitiva informal. Ela apresentou alguns fatos, alguns nomes, algumas provas. Tudo isso será encaminhado para os órgãos competentes. Tudo vai ser apurado”, afirmou a promotora.

Procurado pela reportagem para comentar as denúncias, o advogado de João de Deus, Alberto Toron, não havia se manifestado até a última atualização deste texto.

Habeas corpus
A defesa de João de Deus protocolou uma petição neste domingo (6/1) contestando o parecer da procuradora-geral da República, Raquel Dodge, no pedido de habeas corpus feito ao Supremo Tribunal Federal (STF). No sábado (5), Dodge reiterou seu posicionamento contra a prisão domiciliar solicitada pelos advogados, que consideram a prisão preventiva do cliente “desnecessária”.

João de Deus está preso no Complexo Prisional de Aparecida de Goiânia (GO). O pedido de uma nova manifestação da PGR foi feito pelo presidente do STF, Dias Toffoli, depois que o Tribunal de Justiça de Goiás (TJGO) apresentou informações sobre o estado de saúde do médium. Está nas mãos dele a decisão sobre o pedido feito em favor do médium.

No dia 21, a Justiça determinou mais uma prisão, desta vez por posse ilegal de arma de fogo, mas o TJGO concedeu habeas corpus liminar ao acusado pelo crime. O juiz substituto Wilson Safatle Faiad ressaltou “questões humanitárias” e reforçou que o réu é idoso e está debilitado por motivo de várias doenças graves.

Denúncia
O Ministério Público de Goiás apresentou à Justiça, no dia 28 de dezembro, a primeira denúncia contra João Teixeira de Faria.

A acusação do MPGO foi feita com base em quatro casos relatados entre abril e outubro deste ano, sendo dois por violação sexual e dois por estupro de vulnerável.

Outros 10 relatos que prescreveram são descritos no documento para ajudar a comprovar o modo de agir do médium. Cinco vítimas também constam da denúncia, mas os depoimentos delas precisam de diligências para serem confirmados.

O médium prestou o primeiro depoimento no MP no dia 26 de dezembro. Ele afirmou que não se lembra das mulheres que o acusam de violência sexual, uma vez que atendia aproximadamente 1,5 mil pessoas por sessão. Também negou ter praticado qualquer tipo de abuso contra suas seguidoras, segundo o advogado Alberto Toron.

Bloqueio de bens
O Tribunal de Justiça de Goiás determinou o bloqueio de R$ 50 milhões em bens do médium. A decisão tem o objetivo de garantir eventuais indenizações. O dinheiro será usado para reparação das vítimas, caso o líder espiritual seja condenado por abusar sexualmente das denunciantes, bem como para evitar ocultação e dilapidação patrimonial.

De todo o valor bloqueado, R$ 20 milhões estariam destinados às mulheres, e R$ 30 milhões iriam para danos morais e coletivos. A medida cautelar foi assinada pela juíza Marli de Fátima Naves e determina que sejam bloqueados os veículos e imóveis não apenas do médium mas também da Casa Dom Inácio de Loyola, em Abadiânia.

Metrópoles