Bolsonaro diz ter pego áudios de condomínio antes que fossem ‘adulterados’

O presidente Jair Bolsonaro afirmou neste sábado, 2, que pegou os áudios da portaria do condomínio Vivendas da Barra, no Rio de Janeiro, onde ele tem casa, antes que os arquivos fossem “adulterados”.

Um porteiro que trabalha no local disse à Polícia Civil do Rio que, no dia do assassinato da vereadora carioca Marielle Franco, em março de 2018, o ex-PM Élcio Queiroz, suspeito de dirigir o carro usado no crime, foi até o condomínio e pediu para ir à casa de Bolsonaro. Na versão do porteiro, “seu Jair” atendeu e permitiu a entrada de Queiroz, que teria seguido direto à casa do também ex-PM Ronnie Lessa, suspeito de ser o autor dos disparos que atingiram Marielle e o motorista dela, Anderson Gomes. Bolsonaro estava em Brasília na data.

No dia seguinte à reportagem do Jornal Nacional que revelou o depoimento do porteiro, o vereador Carlos Bolsonaro publicou em sua conta no Twitter um vídeo com os áudios do sistema de gravações das ligações do condomínio. Conforme os arquivos, a casa acionada pela portaria a respeito de Élcio Queiroz foi a de Ronnie Lessa, e não a de Bolsonaro. O Ministério Público do Rio acabou confirmando que o porteiro mentiu no depoimento.

“Eu estava aqui (em Brasília), não estava lá. E outra, nós pegamos antes que fosse adulterado, pegamos lá toda a memória da secretária eletrônica, que é guardada há mais de anos, a voz não é minha. Não é o seu Jair. Agora, o que eu desconfio, que o porteiro leu sem assinar ou induziram ele a assinar aquilo. Induziram entre aspas, né? Induziram a assinar aquilo”, afirmou Bolsonaro neste sábado.

Mais tarde, diante de acusações de obstrução da Justiça, Bolsonaro reformulou sua frase, em entrevista ao site O Antagonista. “Não fizemos cópia de nada, não levamos a secretária eletrônica a lugar nenhum. Meu filho foi lá, botaram na tela 14 de março do ano passado e onde tinha ligação para as duas casas, para a minha e a dele, ele clicou em cima e gravou o áudio. Nada mais além disso. Qualquer outra interpretação é forçação de barra.”,

O presidente voltou a acusar o governador do Rio, Wilson Witzel (PSC), de manipular as investigações sobre o assassinato de Marielle para implicá-lo no crime. O presidente já havia acusado Witzel de vazar as informações do processo para atingi-lo e, ao mesmo tempo, se credenciar para uma eventual disputa à Presidência da República em 2022.

“(Witzel) Não podia ter acesso a um processo em segredo de Justiça. Mais do que isso, né? A minha convicção é de que ele agiu no processo para botar meu nome lá dentro”, afirmou o presidente, que foi a uma concessionária da Honda buscar uma moto que adquiriu.

Bolsonaro também acusou o delegado da Polícia Civil responsável pelo Caso Marielle de ser “amiguinho” do governador e disse que o ministro da Justiça, Sergio Moro, foi acionado e entrou em contato com o procurador-geral da República, Augusto Aras, para tratar do caso. “Eu não trato isso com o Aras. Não tem cabimento, o tratamento com Aras foi via ministro da Justiça”, afirmou.

“Está requisitado, está tudo deferido. É a Polícia Federal com o assessoramento do MP Federal lá da seção do Rio de Janeiro. Vamos ouvir o porteiro, vamos ouvir aí o delegado também. O delegado que é muito amiguinho do governador, e logicamente que gostaria que o governador também participasse, né?”, disse o presidente, que citou “perseguição de Witzel. “Ele está com sonho e obsessão de ser presidente, e eu sou um obstáculo que tem que ser vencido. Perdeu, Witzel, até porque no dia 9 de outubro você teve acesso ao processo em segredo de Justiça. Não deveria ter acesso a esse documento”, afirmou.

Bolsonaro confirmou que ficou sabendo que o governador do Rio havia tido acesso ao processo durante um jantar em comemoração ao aniversário ministro do Tribunal de Contas da União (TCU) Augusto Nardes, em 9 de outubro.

“Ele falou o seguinte: mandei teu processo para o Supremo. E eu: ‘que processo meu?’ ‘Ah, o da Marielle’. ‘O que é que eu tenho a ver com a Marielle?’ ‘O porteiro falou que foi lá na tua casa naquele 14 de março’. ‘Ah, foi na minha casa?’ No momento eu não sabia onde eu estava no 14 de março, poderia estar em outro lugar, poderia até estar em casa, né? Mais numa quarta-feira, por volta de umas 17 horas. E depois eu vi que depois e já desconfiava dele há algum tempo, que ele estava perseguindo a mim e à minha família no Rio de Janeiro com esse propósito”, disse.

Ele disse não ter acreditado à época no que foi dito por Witzel. “Espero agora que não queiram jogar para cima do colo do porteiro. Pode até ser que ele seja responsável, mas não podemos deixar de analisar a participação do governador”, afirmou.

(com Estadão Conteúdo)