Cabral diz que pagou US$ 2 milhões por 9 votos para Rio sediar Olimpíada

Cabral diz que pagou US$ 2 milhões por 9 votos para Rio sediar Olimpíada

Cabral diz que pagou US$ 2 milhões por 9 votos para Rio sediar Olimpíada

Preso desde novembro de 2016 e já condenado a 198 anos e seis meses de prisão, o ex-governador do Rio de Janeiro Sérgio Cabral (MDB) afirmou nesta quinta-feira à Justiça Federal no Rio que comprou por US$ 2 milhões os votos de nove integrantes do Comitê Olímpico Internacional (COI) para garantir que o Rio de Janeiro fosse escolhido sede da Olimpíada de 2016. Segundo Cabral, a negociação foi feita com o senegalês Lamine Diack, presidente da Associação Internacional de Federações de Atletismo de 1999 a 2015.

Entre os votos comprados estariam os do ex-nadador russo Alexander Popov, dono de quatro medalhas de ouro nas Olimpíadas de1992 e 1996, e do ucraniano Sergei Bubka, considerado o maior atleta de salto com vara na história. “O COI tem uma cota de atletas que votam. Me garantiram o nome do ex-atleta Serguei Bubka e de Alexander Popov, grande campeão da natação”, afirmou Cabral.

A eleição ocorreu em Copenhague, na Dinamarca, em 2 de outubro de 2009. A votação ocorreu em três turnos. No primeiro, Madri teve 28 votos, o Rio recebeu 26 e Tóquio, 22. Chicago ficou em último, com 18, e foi eliminado. Em teoria, sem os nove votos comprados, o Rio teria 17 e ficaria em último, sendo eliminado. No segundo turno, o Rio teve 46 votos, Madri 29 e Tóquio, 20 – a capital japonesa foi eliminada. Na última etapa, o Rio teve 66 votos e Madri, 32. Cabral e seu grupo temiam que o Rio fosse eliminado na primeira etapa: “Era fundamental ter a garantia desses votos (no primeiro turno). Depois foi a política. A política com ‘p’ minúsculo na primeira fase e a com ‘p’ maiúsculo nas demais fases”, contou ao juiz.

Cabral é um dos réus em uma ação que tramita na 7ª Vara Federal Criminal, no Rio, e investiga se houve compra de votos para eleger o Rio sede da Olimpíada. A investigação teve origem na Operação Unfair Play, que em outubro de 2017 prendeu o presidente do Comitê Olímpico Brasileiro (COB) e do Comitê Rio 2016, Carlos Arthur Nuzman, e Leonardo Gryner, ex-diretor de marketing do COB e de operações do Comitê Rio-2016. Além dos dois e de Cabral, é réu na ação o empresário Arthur Soares Filho, conhecido como “Rei Arthur”, que manteve contratos milionários com o governo do Rio nas gestões de Cabral. Ele está foragido. A investigação brasileira sobre compra de votos para a Olimpíada foi motivada por um pedido feito no fim de 2016 pelo Ministério Público francês, que, durante investigação sobre doping no atletismo, encontrou indícios de corrupção na candidatura do Rio.

Em depoimentos anteriores, Cabral havia negado a compra de votos, mas em dezembro passado mudou de advogado e em fevereiro passou a admitir outras acusações de que foi alvo. Sua defesa pediu ao juiz Marcelo Bretas o depoimento desta quinta-feira, para Cabral discorrer sobre a compra de votos. Ele contou ao magistrado que em agosto de 2009, dois meses antes da votação, foi procurado por Nuzman, que pediu um “encontro urgente” após um evento esportivo em Roma. “Nuzman vira pra mim e me fala: ‘Sérgio, quero te abrir que o presidente da IAAF, Lamine Diack, ele é uma pessoa que se abre pra vantagens indevidas. Ele pode garantir cinco ou seis votos. Ele quer, em troca, US$ 1,5 milhão’’”, narrou o ex-governador do Rio.

Cabral disse que então perguntou a Nuzman de onde viriam os votos e qual era a garantia de que eles seriam de fato obtidos. Nuzman teria respondido que viriam de membros africanos do COI e também de representantes do atletismo. O ex-governador teria então autorizado Nuzman a seguir com a negociação. “Eu chamei o Arthur Soares e falei pra ele da necessidade de conseguir o dinheiro para os votos. Isso foi debitado do crédito que eu tinha com ele. Fui eu que paguei. Eu dei o telefone do Léo (Leonardo Gryner, ex-diretor de operações da Rio 2016) e eles acertaram com esse Papa Diack, filho de Lamine Diack”, contou o ex-governador.

Em setembro de 2009, dias antes do jantar que ficou conhecido como a “Farra dos Guardanapos”, Gryner e Nuzman teriam avisado Cabral sobre a possibilidade de garantir mais votos: “Em Paris, no hotel, eu fui chamado no canto pelo Léo e pelo Nuzman, que me falaram de um problema. O Nuzman falou que Papa Diack disse que conseguiria mais votos. Ele disse que poderíamos chegar em nove votos no total, mas que precisava de mais US$ 500 mil. Eu disse pra ele que seria feito”, contou Cabral. Segundo ele, essa conversa ocorreu em 14 de setembro e o pagamento foi feito 15 dias depois, por intermédio do “Rei Arthur”.

Segundo Cabral, o então prefeito do Rio, Eduardo Paes, à época no MDB e hoje no DEM, e o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) souberam da negociação, mas não participaram nem obtiveram vantagens com ela. O ex-governador afirmou ter contado a Lula sobre a negociação no dia da votação: “Eu fiquei muito nervoso e ele não entendeu porque estava comemorando (após ser aprovado na primeira votação). Falei para ele: ‘O meu medo era passar dessa fase. Nessa fase tive um arranjo político assim, assim e assado’. Ele fingiu que não ouviu. Disse: ‘Você está me contando algo que já aconteceu, tá bom, tá ótimo’”, narrou Cabral.

OUTRO LADO

O advogado de Nuzman, João Francisco Neto, afirmou que Cabral não tem provas de que houve compra de votos e que, “se tivesse havido, seria corrupção privada, não considerada crime no Brasil”. Segundo o advogado, Nuzman “não recebeu qualquer valor à guisa de propina e não teve qualquer benefício pessoal em razão das obras realizadas (para o Rio sediar a Olimpíada)”. “Cabral rechaçou denúncia ao dizer que Nuzman não integrou sua organização criminosa, jamais recebeu vantagem indevida em razão da Olimpíada e nunca esteve envolvido com esquemas em obras públicas”, completou Francisco Neto.

Em nota, a defesa de Gryner afirmou que “ficou claro que Cabral falta com a verdade e não apresenta qualquer prova de seus relatos, mantendo-se íntegra a prova produzida na instrução criminal, que isenta Leonardo Gryner de qualquer responsabilidade. Se houve compra de votos, ele não participou”.

O ex-prefeito Eduardo Paes afirmou que “como ele (Cabral) disse, não participei de compra de voto nenhuma e também não fui informado disso. Essas conversas eu nem tenho. Tanto é assim que, pelo que conta o ex-governador, Nuzman procurou somente a ele para tratar desse tema. Não teria coragem para tratar comigo”.

A assessoria do ex-presidente Lula afirmou que “é inverídica e sem provas” a referência feita por Cabral ao ex-presidente.

Estadão