Cadê a polícia? Viatura é artigo de luxo na madrugada de quatro cidades da Grande Vitória

carro de polícia é carro de luxoEm Vila Velha não foram encontradas viaturas, nem próximo à residencia oficial do governador, na Praia da Costa; a situação fica pior a partir da meia-noite

Em dois dias, quatro municípios da Grande Vitória – Cariacica, Vila Velha, Serra e Vitória – foram visitados no final da noite e início da madrugada. Nos quase 300 quilômetros percorridos por A GAZETA, foi possível constatar o que tem sido alvo de reclamação frequente da população, nos últimos meses: a ausência da polícia.
Em quatro horas diárias – das 22 às 2h – foram percorridas as principais avenidas – de bairros nobres e periferia – ruas não muito conhecidas, praças, parques e calçadões. Encontramos apenas oito viaturas e quatro motos da Polícia Militar e duas das guardas municipais.

Em Cariacica, nos dois dias, não foi localizado nenhum policial ou viatura. Em Vila Velha, no mesmo período, passamos por um carro da Guarda Municipal. Nem mesmo próximo à residência oficial do governador foi encontrado policiamento. Mesmo poucas, as únicas viaturas encontradas foram em Vitória e na Serra.
Em algumas vias, como as avenidas Norte-Sul, de Vitória a Serra; a Carlos Lindenberg e a rodovia Darly Santos, ambas em Vila Velha; a Expedito Garcia e a BR 262, em Cariacica, nenhum policiamento foi localizado. Confirmamos ainda que a situação fica mais complicada a partir da meia-noite, quando as poucas viaturas que circulam pelas cidades desaparecem por completo.
Movimento
Apesar do policiamento escasso, havia movimento nas ruas. Na última sexta-feira, encontramos grupos de jovens nas ruas, pessoas andando ou correndo nos calçadões, aproveitando o fim da noite em bares ou quiosques, ou apenas conversando na frente de suas casas.
A situação mudou pouco na última terça-feira. Em algumas vias a iluminação nas ruas era precária. Uma situação que agrava os riscos de quem está em ponto de ônibus.
Situações em que não se pode contar nem mesmo com policiais no início da noite, fazendo ronda a pé. Nas noites e madrugadas da Grande Vitória, as únicas companhias para quem reclama da falta de segurança são os usuários de drogas.
Vitória
Na primeira noite (dia 11, sexta-feira), encontramos duas viaturas e um carro da Guarda Municipal. Mas em pontos de muita movimentação como a praia de Camburi, Praia do Canto e Jardim da Penha não foi encontrado nenhum tipo de policiamento, nem mesmo a ronda a pé.
A primeira viatura foi localizada em Jardim Camburi, por volta das 22h30. A segunda, no cruzamento das avenidas Leitão da Silva e César Hilal, à 1 hora. O carro da Guarda Municipal estava na Avenida Jerônimo Monteiro, no Centro.
Nesta noite aconteciam duas blitze da Lei Seca: uma na Reta do Aeroporto e a outra na Avenida Jerônimo Monteiro, no Centro. Na segunda noite (dia 15, terça-feira) encontramos três viaturas do Patrulha Comunitária: uma na Enseada do Suá e duas em Jardim Camburi.
Na saída do mesmo bairro, passamos por dois policiais com motos. Às 23h30, encontramos a quarta viatura, em Jardim da Penha. Nas duas noites havia movimento nas ruas, praias, pontos de ônibus, até mesmo de madrugada, mas à meia-noite, o policiamento ficou precário. Presença constante nas ruas só mesmo de usuários de drogas.
Cariacica
Nenhuma viatura ou ronda a pé, feita por policiais militares, foi encontrada em Cariacica, nos dois dias em que o município foi visitado. Em vias importantes, como a Avenida Expedito Garcia, onde há um volume expressivo de estabelecimentos comerciais, e a BR 262, a partir da Segunda Ponte, encontramos muitas pessoas em pontos de ônibus, até mesmo de madrugada, caminhando pelas vias e nos bares. Mas nenhum tipo de policiamento foi visto.
Em algumas lojas havia até movimentação de mudança. Nem nas proximidades dos terminais, assim como em bairros como Itacibá, São Geraldo, Jardim América, entre outros, havia policiamento.
Vila Velha
Nem mesmo nas imediações da residência oficial do governador, na Praia da Costa, encontramos policiamento ou viaturas. O abandono se estendia em toda a orla, assim como em vias importantes, como a Avenida Carlos Lindenberg, e as rodovias Darly Santos e Rodovia do Sol, sem contar bairros como Centro, Santa Mônica, Cobilândia, Paul, Glória, entre outros.
Somente na segunda visita ao município, na última terça-feira, encontramos uma viatura da Guarda Municipal passando rapidamente pela Lindenberg. E nos dois dias havia muita movimentação de pessoas nas ruas e praias, onde encontramos até famílias caminhando com bebê no calçadão.
Serra
Nos dois dias em que o município foi visitado foram encontradas duas viaturas e dois policiais de moto. Mas toda a Avenida Norte-Sul, a partir de Vitória, foi cortada sem que pudéssemos encontrar patrulhamento militar.
A população de alguns bairros considerados perigosos chegou a relatar que viaturas são vistas com frequência nas ruas onde há Departamento de Polícia Judiciária (DPJ), mas no interior dos bairros elas são raras. Em Laranjeiras 2, Jacaraípe, por volta da meia-noite, encontramos algumas unidades paradas em um posto policial.
O mesmo se repetiu em Laranjeiras onde, na Avenida Central, alguns moradores e comerciantes garantiram que há policiamento. Nas imediações dos hospitais públicos e privados da região, e no entorno dos terminais, não foi visto policiamento.
O mesmo foi verificado nos acessos e principais avenidas de bairros considerados violentos, como São Francisco, Costa Dourada, Feu Rosa, Novo Horizonte e Vila Nova de Colares. Situação que se repetiu na BR 101 e na ES 010. Por duas noites encontramos viaturas paradas em um mesmo posto de combustível, na Avenida Norte-Sul.
Nas noites das cidades, reina a insegurançaPara os moradores de quatro municípios da Grande Vitória – Serra, Cariacica, Vila Velha e Vitória –, a presença de viaturas e policiais tem sido artigo raro nas ruas. Eles relatam que só nos momentos em que ocorrem homicídios, assaltos, tiroteios e roubos de grande repercussão, ou em operações específicas, é que o policiamento é visto na maioria dos bairros.
Nas noites das cidades, reina a insegurança
“Nas noites das cidades o que reina é a insegurança. A gente nunca sabe o que esperar”, relata o estudante Ubiário Suzarte, 21 anos. Morador de Costa Dourada, na Serra, ele atravessa as principais avenidas do bairro quando sai da casa da namorada. Em setembro do ano passado, foi assaltado por dois homens armados na porta da escola. “Levaram minha bicicleta”, lamenta.
Nas noites das cidades, reina a insegurança
CasosRelatos semelhantes ao do estudante não faltam nas ruas da Grande Vitória. É o caso da assistente de administração Ana Carolina Gomes, 29 anos, que já foi assaltada três vezes.No último dia 11, uma sexta-feira, ela caminhava com o amigo Carlos Eduardo Traspadini, 29, no calçadão da Praia de Camburi, em Vitória. Mudou seu roteiro quando percebeu a falta de policiamento no local. “Agora fico sempre atenta, porque se acontece algo não temos a quem recorrer”, observa Ana.

Nas noites das cidades, reina a insegurançaQuando a madrugada chega, o risco é ainda maior, principalmente para quem depende do transporte público, que também tem o número de ônibus em circulação reduzido. Na Norte-Sul, na Serra, encontramos quatro mulheres aguardando ônibus em um ponto com pouca iluminação. “Esta situação é frequente”, relata Ana Paula Ribeiro, 38, que já foi assaltada em local idêntico.
Nas noites das cidades, reina a insegurança

Redução de crimes diminui carros de polícia

O número de viaturas policiais circulando pelas ruas da Grande Vitória segue as estatísticas apontadas pelo Mapa do Crime, explica o comandante da Polícia Militar, coronel Edmilson dos Santos. Segundo ele, a partir das 20 horas muitas unidades deixam de circular porque há redução do número de crimes.
“O fluxo de pessoas nas ruas é menor e há uma redução de crimes como assaltos e roubos. A partir da 1 hora são mais frequentes os arrombamentos, muitos deles provocados por usuários de drogas”, explica o coronel.

O maior contingente de viaturas está nas ruas das 7h às 20h. Das 20h às 23h há uma primeira redução, e das 23h à 1 hora uma nova diminuição. É nesse momento que também saem de circulação as polícias especializadas – BME, Rotam, GAO – que monitoram os grandes aglomerados urbanos, como a Região da Grande Terra Vermelha.

Monitoramento

A partir da 1 hora, o patrulhamento é voltado para as regiões onde há um grande número de estabelecimentos comerciais. “São pontos como a Praia do Canto e centro de Vitória, entre outros locais onde as viaturas monitoram possíveis casos de arrombamento. Mas elas podem ser acionadas pelo Ciodes”, diz o coronel.

O comandante acrescenta que o policiamento a pé não está sendo feito, mas acrescenta que outras modalidades de patrulhamento começaram a ser adotadas na última semana. É o caso do cerco tático, onde viaturas monitoram as vias de maior fluxo. “Elas vão ficar paradas nos pontos. Vamos utilizar os policiais dos setores administrativos”, explica o coronel.

Há casos em que as viaturas não rodam por ficarem presas nos DPJs, após ocorrências. “Só há um delegado, o que atrasa os procedimentos. Um problema que ainda não conseguimos resolver e que afeta o patrulhamento”, diz o comandante.

Fonte: A Gazeta

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