Cai a venda de material de construção no varejo.

Cai a venda de material de construção no varejo.

material-de-construcaoSÃO PAULO – A crise chegou ao chamado consumo “formiguinha” de material de construção, e o brasileiro está adiando a reforma da casa pela primeira vez em dez anos. As vendas de material de construção ao varejo apresentam queda real (já descontada a inflação) de 6% no acumulado do ano, até setembro, depois de um crescimento médio anual entre 6% e 7% desde 2005, segundo a Associação Brasileira da Indústria de Materiais de Construção (Abramat). A expectativa da Abramat é que os 6% de retração no varejo se mantenham até dezembro.

— A queda da renda das famílias, em razão da inflação, o aumento do desemprego e o medo de perder o emprego diante das incertezas da economia estão fazendo o brasileiro adiar a reforma da casa pela primeira vez em dez anos — diz Walter Cover, presidente da Abramat.
A restrição de crédito e os juros elevados também têm efeito negativo na venda de material de construção no varejo, já que 70% das compras dos “formiguinhas” são financiadas, diz Claudio Conz, presidente da Associação Nacional dos Comerciantes de Material de Construção (Anamaco). Os grandes bancos, incluindo a Caixa Econômica Federal, com o Construcard, cartão destinado exclusivamente à compra de material de construção, estão mais restritivos na oferta de crédito, segundo Conz.

— O comprador “formiguinha” dividia a compra em até 12 vezes. Agora estes prazos estão mais apertados, ficando entre três e dez parcelas. Toda vez que há redução de crédito e aumento do desemprego há reflexo negativo quase que instantâneo no nosso setor — afirma o presidente da Anamaco, entidade que também constatou queda de 6% nas vendas ao consumidor este ano até setembro.

OBRA PELA METADE

De acordo com a associação de comerciantes do setor, todas as categorias de produtos apresentaram queda de vendas em setembro, com destaque para cimento (retração de 11%) e revestimentos cerâmicos (queda de 9%). A venda de tintas, fechaduras e ferragens recuou 5% no mês passado, segundo pesquisa da entidade com 530 lojistas de todas as regiões do país.

As “formiguinhas” da construção já vinham reduzindo seu ritmo de compras desde o ano passado, quando a economia começou a desacelerar, o crédito a escassear e os juros continuaram subindo. O resultado foi que o varejo da construção cresceu apenas 1% em 2014, segundo a Abramat. Mas o aprofundamento da crise na economia fez muita gente paralisar de vez a obra que já havia começado.

O engenheiro eletricista Emerson Cleiton Duarte, de 46 anos, foi um dos que jogou a toalha. Ele começou a trocar o telhado de sua casa, na Zona Sul de São Paulo, além de cobrir a área gourmet externa. Planejava terminar tudo até junho passado. Mas perdeu o emprego e decidiu adiar o fim da reforma. Só o telhado foi trocado, mesmo assim ainda falta fazer o acabamento com o rufo, proteção da junção entre a parede e a cobertura contra a entrada de chuva.

— Comprava o material à vista para não entrar em dívida. Perdi o emprego, continuei tocando a obra, mas o preço dos produtos aumentou em média 10%. Então, resolvi parar— disse o engenheiro, que pretende retomar a reforma, em breve, mas parcelando a compra do material de construção em seis vezes.

EFEITO DO DÓLAR

De fato, com a alta de quase 50% do dólar no ano, muitos produtos que levam matéria-prima importada foram reajustados na prateleira, mesmo com as vendas mais fracas. Segundo a Anamaco, no ano, as tintas já sofreram reajuste de 10%, o cimento subiu entre 8% e 9%, e os tubos de PVC tiveram aumento de 15%.

— Atualmente, o consumidor está deixando de lado a reforma mais pesada e optando por fazer apenas aquelas emergenciais, como a troca de um cano ou de uma fiação ruim — observa Conz, da Anamaco.

A C&C, por exemplo, líder do mercado varejista de material de construção, lançou em agosto uma campanha para estimular os consumidores a fazerem eles mesmos pequenas reformas ou obras emergenciais em casa. O diretor de marketing da rede, Jefferson Fernandes, avalia que, com o momento de incerteza da economia, o consumidor está adiando a grande reforma.

— Não está sendo um ano fácil, mas acreditamos que nos dois últimos meses do ano as vendas devem melhorar — diz ele, lembrando que a C&C mantém o parcelamento das compras em prazo máximo de dez meses.

Quando se olha o setor como um todo, incluindo, além dos “formiguinhas”, a construção civil (imóveis novos) e as grandes obras de infraestrutura, o panorama também não é positivo. A redução dos investimentos no programa Minha Casa Minha Vida, o baixo número de lançamentos de imóveis novos e a paralisação das obras de infraestrutura diante das investigações da Operação Lava-Jato provocaram, em setembro, uma queda de 16,8% nas vendas gerais de material de construção, para o varejo e para as construtoras, na comparação com o mesmo mês do ano passado, segundo a Abramat.

No ano, o recuo das vendas gerais no segmento é de 11,4%. Como o segundo semestre costuma ser melhor, a expectativa da Abramat é que 2015 encerre com queda de 10% nas vendas gerais, com impacto negativo no Produto Interno Bruto (PIB) do segmento, que foi de R$ 370 bilhões em 2014. Só os “formiguinhas” são responsáveis por cerca de R$ 120 bilhões dessa geração de riqueza, segundo Walter Cover, da Abramat.

Para 2016, Conz aposta na volta dos “forminguinhas” às compras. Ele disse que espera uma alta expressiva na venda de aquecedores solares, depois do aumento de 47,33% nas contas de luz de janeiro a agosto deste ano, de acordo com dados do IBGE.

— Muita gente vai querer economizar na conta de luz. Também, com a crise hídrica ainda em pauta, a venda de caixas d’água deve se manter elevada — prevê.

Na avaliação de Cover, da Abramat, com a realização dos leilões das obras de infraestrutura, no ano que vem, e a liberação de recursos do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) para o Minha Casa Minha Vida, o setor como um todo deverá ter algum alívio. A alta do dólar também deve melhorar a balança comercial do segmento, que já começou a reverter o déficit de US$ 293 milhões neste ano, até agosto.

O Globo