Catástrofe aérea é golpe fatal na economia do Egito

egito golpeFuncionária da Egyptair em Paris, companhia aérea cujo avião desapareceu no Mediterrâneo, provocando um golpe duro para o setor do turismo no Egito

O acidente da EgyptAir representa um golpe fatal para o turismo no Egito. Uma péssima notícia para as autoridades, que veem nesse setor um elemento essencial para a reconstrução de uma economia já atingida pelos atentados extremistas e por tensões políticas na região.

O ministério egípcio de Aviação Civil, quase toda a imprensa e os especialistas tendem à hipótese de atentado para explicar o desaparecimento repentino dos radares do Airbus A320 da EgyptAir, procedente de Paris, pouco antes do pouso previsto no Cairo, na madrugada de quinta-feira (19). No entanto, além do aspecto impressionante da catástrofe, que custou a vida das 66 pessoas a bordo, esse episódio não é inédito, e lembra um precedente próximo: no dia 31 de outubro de 2015, um atentado a bomba reivindicado pelo grupo Estado Islâmico (EI) desintegrou sobre o deserto do Sinai egípcio um avião turístico russo com 224 pessoas a bordo. Sem esquecer, em 2004, um avião charter que caiu deixando 148 mortos, quando ligava a estância balneária de Charm el-Cheikh a Paris.

Ainda que tenha sido causado por uma falha técnica, o drama de quinta-feira pode ter consequências desastrosas para o Egito, que busca atrair os turistas e investidores estrangeiros que deixaram o país depois da Primavera Árabe, em 2011. “Qualquer que seja o resultado da investigação ou as reivindicações ligadas ao acidente, essa catástrofe coloca o país em uma situação sombria”, analisa Marc Lavergne, especialista em geopolítica do Oriente Médio, do Centro Nacional de Pesquisas da França (CNRS na sigla em francês).

Em entrevista à RFI, ele explica que essa tragédia reforça o marasmo econômico do qual o país já não consegue sair, apesar da ajuda das monarquias do Golfo. “Além disso, há problemas de segurança interna, como por exemplo na província do Sinai, que é controlada por extremistas próximos do grupo Estado Islâmico, e também a insegurança urbana generalizada, com vários atentados. Sem contar a ineficácia do exército, que tomou o poder em julho de 2013, mas não consegue controlar as fronteiras e a economia”, comenta o diretor de pesquisas.

As operações das forças de segurança também podem espantar visitantes: em setembro de 2015, o exército matou por engano oito turistas mexicanos em um bombardeio aéreo, durante uma perseguição de comandos extremistas no deserto ocidental.

Popularidade do presidente Al-Sisi em risco

A sucessão de tragédias poderá afetar a popularidade de Abdel Fattah al-Sisi. Considerado durante muito tempo um “salvador” do país, ele enfrenta ultimamente uma retomada dos protestos, estimulados pelo aumento acentuado dos preços dos produtos de primeira necessidade e pela desvalorização da libra egípcia.

A tragédia do Airbus “poderá contribuir para desacreditar a legitimidade de Al-Sisi, porque ele “teria prometido combater o terrorismo e restabelecer a segurança, mas os atos terroristas continuam prejudicando a economia egípcia e ameaçando a renda da população”, estima Mustafá Kamel, professor de Ciência Política da Universidade do Cairo. Cinco anos após a Primavera Árabe, o regime repressivo do presidente é a justificativa apontada pelo EI e outros grupos extremistas para a onda de atentados cometidos em 2013, principalmente contra as forças de segurança.

Em 2015, a indústria turística egípcia faturou US$ 6,1 bilhões, 15% a menos do que em 2014, segundo dados oficiais. Uma queda que aumenta a pressão sobre as reservas de divisas do Banco Central, que passaram de US$ 36 bilhões no final de 2010 para US$ 17 bilhões em abril.